O pé e o barro

Dedicado a Sebastião

Ainda que Maria tenha a impressão de que a vida é esse mesmo movimento de eterna repetição, os momentos de emergência desta sensação são aqueles em que João, descalço, busca longe a água, em que prepara o café rabugenta e aqueles em que as latas amassadas valem menos do que o peso em suas costas.

Não recorda de outros momentos. E sente falta do trabalho e do patrão. Falha a imaginação até em imaginar vida diferente. Toda a gente repete o mesmo. Não há espaço para divagação nem tristeza. Isso é coisa de rico.

‒ Pobre não tem não.

O trabalho diário convoca, apreende a força e a ideia, o que provoca no fim do dia esgotamento e lentidão. Não se arrisca ao sorriso, ao acaso ou às amizades. João, por outro lado, busca alívio no fim da garrafa. É fácil encontrar companhia para dividir a bebida. Maria, que nestas horas ficava em casa preocupada com a chegada, já não ficava mais brava. Não ficava mais nada. Um tipo de indiferença e necessidade acabava com as datas, os carinhos e o toque. A vida só repete, retorna ao avesso.

Mas consolava-se com a ideia de que, em volta, as pessoas pareciam as mesmas. As mesmas roupas, as mesmas expressões e os mesmos pesos. Até o adoecimento.

‒ Há dias que a gente não se sente gente.

Sentava-se e esperava a novela. A luz conseguiu com um rabicho que vinha lá da favela. Era longe, mas conseguiu com algum esforço e a ajuda do povo. Agora, já não se preocupava com a comida e a água fora da geladeira. A televisão era pequena e João não sabia ajeitar a antena. Pela manhã, quando não trabalhava, assistia ao culto e à noite, quando voltava cansada, distraía-se com as cenas, as roupas bonitas, as maquiagens e toda a gente bela lembrava como a vida deveria ser.

Mas Maria definia sem sorriso, nasceu pobre. E a vida nunca se pareceu com a novela, pelo menos em seus momentos de maior beleza ou redenção. A vida no pequeno sítio lembra ainda menos os apartamentos e os beijos de paixão.

João, quando chegava, deitava fedido no sofá. O pé ainda com barro, as unhas ainda escuras. Andava o dia todo e a roupa se acabava. E se acabando ganhava cheiro peculiar. Não adiantava lavar. Maria sentia o mesmo cheiro em seus vizinhos e naqueles com quem disputava o alumínio.

Vez ou outra o silêncio do sítio é interrompido pela viatura que passa rápido levantando toda a poeira. Não demorava e corriam os meninos e os velhos para olhar o que acontecia e não era incomum que, no fundo do bairro, beirando a estrada velha, aparecesse algum morto. O cadáver agita as conversas até o silêncio retornar.

Agora dizem que é uma termoelétrica que vai melhorar a vida. Trazer emprego e comida. Maria desconfia de todo branco sorridente que promete com mãos suspensas todo o alívio. Sente o cheiro da mentira e sabe que todo mentiroso não se indigna. Mentira!

‒ Nem asfalto a gente tem, moço. Eu, para procurar alumínio, tenho que andar cinco destinos. Na volta, é o mesmo tempo, mas, com o peso, a sede e a esperança no finzinho.

Os pensamentos já não pesam sob o sorriso incompleto, o rosto intrigado, trincado. O olhar do estranho faz desviar e Maria constrangida vasculha o espaço. Ultrapassa esse estranho que interroga calado. Que olha e a atinge com ar solidário. Em sentido contrário, o estranho desvia o rosto pálido, ainda não trincado, mas com sinais da forja. Não por indiferença, mas pelo efeito das horas que nos encontramos sem metáforas diante desse igual. Sim, desse igual que não é o mal. É futuro. Que não é a praga e que não guarda ou carrega qualquer fim, mas sim o indício, as pistas que compartilhamos as mesmas histórias.

As histórias das vizinhanças. As alegrias que variam em algum tom desde as infâncias. Os medos dos homens. As ameaças bobas que a polícia vai levar ou que o manicômio será novo lar se o menino, cheio de força, não se acalmar. Histórias das avós vendendo banana, dos pais correndo do fiscal que com sorriso perverso não se contenta em mandar andar o pobre. Tira-lhe o sustento. Histórias essas que se apagam dos livros e nos fazem, sobretudo, cair em tipo de relativismo que confunde a defesa do oprimido.

Maria não esquece. João bebe para esquecer. Maria tem fé. Não dedica seu tempo a orar para um deus pálido qualquer. João não insiste em Deus comum. Maria canta os sambas que aprendeu com a avó e as antigas cantigas ajudam nas tarefas para manter o pequeno sítio. Às vezes, despercebida, canta baixinho: a vida é um moinho. E não há razão de ter esquecido o restante. A memória fixa no pequeno trecho. Brincadeira do tempo. A gente ora ou outra esquece.

João a ajuda e, de tempos em tempos, resmunga. Deus também ajuda quem cedo madruga. João não era de madrugar. E quando o fazia, esperou em vão por um tempo largo. Agora, o poço, as garrafas, os restos e a terra do pequeno sítio. É um mundo pequeno.

Maria observa as flores que nestes tempos saem aflitas a mostrar o que é a beleza para a fé. Ainda pensa no caminho de volta. As pernas já não são as mesmas. Até chegar ao ponto de ônibus precisa caminhar dois quilômetros que se transformam em oito com o cansaço do corpo e o peso das sacolas com a alegria e a amargura dos outros. Aqueles desconhecidos que bebem soltos, riem alto e escondem, ou tentam, o incômodo. Na Praia dos Sonhos alguns não têm tempo para sonhar. Entre a areia e a lata a cabeça parece flutuar. Máquina? Se a máquina precisa de comida e alento para viver, Maria aceitaria essa condição. João faria o mesmo. Mas, ainda que se tornasse coisa qualquer, Maria sorri baixinho e só João consegue ouvir:

‒ Deixa eles pensar.

Frase que é tão misteriosa quanto alegre. Alguma rebeldia parece nela morar. Algum tom de indignação e planejamento. Alguma afirmação de si mesma frente à crueldade e à violência das condições desumanas. Ao mesmo tempo, o protesto permanece em silêncio. João é a única testemunha e, como fazem, apenas sacode a lata para tirar a areia e acena concordando. Voltam sozinhos.

Ainda frente ao estranho, Maria agradecida decide voltar. Não se fazem tempos assim. É raro encontrar esse espaço. É raro encontrar esse estranho que, diferentemente da fera, não morde, ameaça ou dilacera.

A desconfiança e a curiosidade são desde os tempos de menina. Não se nasce e se cria sem ser forte. As suas vizinhas não lhe despertam empatia. Buscam lhe tirar algo, sentenciava Maria apertando os olhos e fazendo com que cada rasgo se aprofundasse em seu rosto.

É assim com os homens também. Não há espaço para o drama e para a fraqueza: é preciso afirmar ser homem, o que muitas vezes significa abandonar-se a certa crueldade. É preciso afirmar, firmar-se em um tempo e em um espaço. É o respeito que buscam os homens e aprendem desde cedo as minúcias de jogo perverso de violência, machismo e tantos preconceitos. Maria sabia disso. Conhece bem o jogo e seus efeitos.

Em toda sua atitude, escapa também do lamento. Não fosse o adoecimento pegá-la de surpresa, continuaria a alimentar os cães, os gatos e as galinhas. Não fosse essa dor permanente que lhe toma os braços e o ombro, continuaria livre à procura pelo alumínio e comida.

A vida seguiria sem tempo para as datas, as alegrias, as lembranças, comemorações ou simples agrados. Bate-lhe a porta algo mais potente. Não esquece dos dentes, mas, nesses tempos, precisa de dinheiro para coisas mais urgentes. Comer é necessidade diária e, ainda que conte com a ajuda da caridade, a vida exige um pouco mais. Antes de adoecer, levantava cedo. Alimentava os animais e deixava para trás a casa e as urgências triviais.

Acostumou-se a caminhar pela cidade quase clandestina, quase invisível, em busca de alumínio e qualquer metal que significasse algum dinheiro. Ainda que receba um benefício do governo, aos setenta e poucos anos, precisa recolher do lixo parte de seu sustento. Não fosse o adoecimento, o tempo não pesaria mais que as sacolas e as distâncias.

João foi buscar água. Não se bebe água do poço. Maria pensa: é perigoso. A gente se lava, todo dia. Lava a louça e a pia. Mas água vem lá do fundo da terra. E lá tem toda a sorte de coisa. Aqui a gente vê bicho correr. Vê gente sofrer. Mas na terra a gente, lá embaixo, a gente não vê. A terra encobre tudo. Acaba com tudo. Até com a gente. Aqui no alto, a gente planta. No quintal caem os limões que a gente tenta vender. Não é o suficiente, mas a gente ganha uns trocados e garante o pão e o café. Às vezes, a gente vai no mangue. Eu não tenho coragem. João enfia mão e puxa o bicho todo sujo. Não gosto de comer. A gente vai para a estrada. Nos dias de calor a paulistada compra. Às vezes na vinda, outras na volta.

Fora a mania da bebida e da preguiça, João é homem bom. Pega a bicicleta e a sacola cheia de garrafa. De plástico. O rasgo no fundo é caminho para o que vaza. Cada pingo que se espalha e se evapora marca sua volta. Maria resmunga. O esforço do feliz é um desperdício se deixa tudo se acabar pelo caminho. João entende que o exagero de Maria é só a doença que a faz mais nervosa.

 

Foto: Canal Movimente

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