O prato de ontem

 

Henfil querido,

Já faz um tempinho que a democracia caminha pelas calçadas de Copacabana e boia em alguma enxurrada promovida pelas águas de março. “Apesar de você/ Amanhã há de ser outro dia”, cantou e canta Chico Buarque, mas outro dia veio e o gostinho de comida requentada continua.

Antes, tinha sempre uma mão prestes a apertar o pescocim de quem estivesse insatisfeito com o regime militar. Hoje, você pode gritar e espernear nas mídias todas. Hoje, um livro didático (utilizado nas escolas) usa até o seguinte exemplo eufêmico: “Os homens públicos se apropriaram do dinheiro público”. E esses homens públicos autorizam sua publicação. Agora, só resta repetir a pergunta do poeta Affonso Romano de Sant’Anna: “Que país é este?”.

E qual a diferença entre o regime democrático e o regime ditatorial? Regime por regime a fome prevalece, o analfabetismo, a falta de saneamento básico, a falta de vergonha na cara e a corrupção ainda dita as regras do jogo e assim parece que a democracia tem aproveitado as sobras de um prato amanhecido.

Antes, o inimigo tinha rosto e patente, usava métodos de tortura e agora a massa é dominada, vilipendiada e torturada pelo estômago e pela ignorância profunda. E qual a diferença entre o torturador oficial e o torturador democrático? Nenhuma.

Mas a televisão é de primeiro mundo e mostra gente de terceiro mundo no primeiro bloco do telejornal e a gente brasileira se vê nas telas por alguns minutos.

“A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”, escreveu Oswald de Andrade e talvez seja o que os sobreviventes da barbárie anseiem. Quem sabe a gente brasileira (em um momento antropofágico) devore definitivamente o indigesto prato de ontem.

 

Nota da Redação: Desde 2011, o professor da rede pública de São Paulo e escritor Sílvio Valentin Liorbano vem escrevendo cartas críticas e satíricas a um dos grandes mestres do humor brasileiro, Henrique de Sousa Filho, o Henfil (1944-88). Liorbano se inspira na própria produção missiva de Henfil, que, ao longo dos anos de Ditadura militar, escreveu cartas cheias de ironia a sua mãe, Dona Maria, publicadas na imprensa. Entre as personagens mais destacadas dos quadrinhos de Henfil, estão Os Fradinhos, Capitão Zeferino e Graúna. Aproveite agora para ouvir outra vez Apesar de você, com Chico Buarque:

 

Um comentário para “O prato de ontem”

  1. Shellah avellar

    Somos Todos Bóias-Frias
    Tenho refletido muito sobre isto.Você trouxe à baila muitas questões…Não é o “regime “que dita..É o “poder” que consome as entranhas do ser humano.Se o limitarmos a um grupo de amigos e observarmos como cada um se conduz na vida..dá pra ter uma vaga ideia de como seria se cada um deles estivesse no poder.Mais duro ou mais macio ,o que importa é “exercer o poder”,não a causa em si..É deixar uma marca “apesar de você”…É “discutir” o óbvio.É “ achar”e não” realizar “.É fazer tudo aquilo que teve vontade um dia.Não podia, e agora PODE!A comida tá gelada.Somos todos “Bóias Frias”.

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