O rei do jardim

 

 

Borges ― Cerveja e um copo de vodca, por favor.

Garçom ― Só um copo?

Borges ― Só. Somente um.

Mendigo ― O senhor pode me arrumar algum troco?

Borges ― Não.

Mendigo ― A gente troca.

Borges ― Trocar?

Mendigo ― Conto-lhe uma poesia e você paga o que quiser.

Garçom ― Não pode pedir dinheiro aqui.

Borges ― Pode deixar.

Mendigo ― Mas seja generoso. No jardim em que trabalhei na Inglaterra, nos reuníamos para ouvir a poesia predileta de cada um.

Borges ― Você morou na Inglaterra?

Mendigo ― Isso faz muito tempo, do tempo em que eu não sentia tudo isso.

Borges ― O que sente?

Mendigo ― Tudo isso que está vendo refletido em mim naquele espelho do balcão.

Borges ― Não estou vendo. Só o seu reflexo.

Mendigo ― Era do tempo de Sara, você viu as marcas?

Borges ― Essas marcas em sua calça?

Mendigo ― Não. As cicatrizes em meu rosto.

Borges ― Não existem cicatrizes.

Mendigo ― Só o espelho consegue enxergar. Só ele pode.

Borges ― Chegue mais perto do espelho. Vai ver, não tem marcas.

Mendigo ― Na Inglaterra, no ano que me esqueci de contar, antes de todas essas manchas e marcas. Sentei-me por volta das três horas da tarde no jardim da casa, o sol era alto e as nuvens, baixas.

Borges ― Garçom, mais cerveja, por favor. E mais vodca, também. Aceita?

Mendigo ― Sim. Era um banco grande, branco e com pequenos detalhes amarelos.

Borges ― E mais um copo, garçom.

Garçom ― Certo.

Mendigo ― Este banco era de um rei, só podia ser. Ele me deixava alto e de pernas compridas.

Borges ― Em que cidade morava?

Mendigo ― Na cidade do rei.

Borges ― Que rei era esse?

Mendigo ― O rei daquela cidade das rosas que ficavam no jardim, ele gostava muito de Sara. Apesar das nuvens que vi quando sentei no banco, as cores amarelas ficaram ainda mais e mais parecidas com vermelho.

Borges ― O vermelho das rosas?

Mendigo ― As rosas eram grandes, redondas e com muitos espinhos que se mexiam.

Borges ― Espinhos não se movem.

Mendigo ― Eles foram até os meus pés. Eu segurava a mangueira na altura do tórax com a mão direita e senti o primeiro espinho furar meu pé.

Borges ― O que aconteceu depois?

Mendigo ― Um caminhão branco passou em frente ao portão azul e parou. Desceram dois homens segurando um espelho enorme.

Borges ― O espelho! Onde leu essa história?

Mendigo ― Eu não li, aconteceu.

Borges ― Conte.

Mendigo ― O espelho parou por exatamente vinte e três segundos. Estava sem relógio, mas contei vinte e três segundos que ele ficou quieto.

Borges ― Como contou?

Mendigo ― Pela troca de luzes do semáforo. Do amarelo até o vermelho são vinte e três segundos.

Borges ― E o que viu?

Mendigo ― A rosa se mexendo, contorcendo os espinhos em volta de meus ombros.

Borges ― E Sara? Você disse sobre alguém de nome Sara, não foi? Está apaixonado por alguém com este nome?

Mendigo ― Sara era linda. A mulher mais linda de toda a Inglaterra. Seus cabelos eram de longos fios amarelos. Amarelo que combinava muito com aquele banco gigante, de pontinhos amarelos.

Borges ― Está apaixonado, sim. Vejo em seus olhos.

Mendigo ― Os olhos dela eram bonitos, secos e de cílios pontudos.

Borges ― E o espelho ficou lá?

Mendigo ― Eu ainda vejo igual naquele espelho do balcão. As manchas vermelhas estão coladas em mim.

Borges ― Não vejo nada.

Mendigo ― O rei, o reflexo dele na janela com um sorriso largo de canto. Ria alto, muito alto.

Borges ― Por que tantos risos?

Mendigo ― Foi o tempo que contei, vinte e três segundos. Sara abriu o portão azul, correu para cima da casa e caiu. O rei olhou pela janela e riu. As rosas pintaram todo o gramado do jardim de vermelho, os meus pés, minhas mãos e meu rosto. Está tudo no espelho, olhe.

Borges ― Não precisa de mais nada.

Mendigo ― Não quer a poesia?

Borges ― Tome. É o seu dinheiro.

Mendigo ― Obrigado.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Torre, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.)

 

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