O soco que eu nunca levei


O amor bom vai deixando o coração tranquilo, no penúltimo episódio da webnovela de Victor Carvalho.

 

Capítulo 5: A segurança da insegurança.

Depois da última sexta-feira, as coisas melhoraram. Mas melhoraram de forma natural. Sem mudanças no sol, sem mudanças de paladar ou de comportamento. Simplesmente tudo estava mais tranquilo. Os dias passavam devagar e sem transtornos maiores. Dava para aproveitar um pouco de uma rara paz nessa cidade. As árvores sacolejavam de um lado para o outro numa dança divinamente bonita. As nuvens faziam formatos e mais formatos e iam passando lentamente, cruzando o céu azul tão azul. Nem parecia o mesmo lugar.

Mas isso não significava que no trabalho as coisas fossem fáceis. A única diferença é que eu me importava menos e absorvia menos ainda. Minha vida era bem maior que aquilo tudo e meu nome era maior que meu cargo e minha felicidade, maior que a minha responsabilidade. Eu chegava em casa todas as noites, comia alguma coisa, tomava uma cerveja, escrevia alguma besteira e ia para o videogame jogar com o Vito. E a vitória sempre caía nas minhas mãos sem muito esforço. Dávamos risadas daquilo tudo, ouvíamos um pouco de boa música e dormíamos bem. E isso tudo se repetia dia após dia e após dia em um espaço de uma semana, o que é relativamente curto. Felicidade em doses homeopáticas e do jeito certo.

Mas voltando às minhas vitórias humilhantes em cima de Vito, eu fazia questão de compartilhar tudo aquilo com o mundo todo. E Vito fazia questão de se defender, obviamente com péssimos argumentos, que não faziam lá muito sentido diante do MEU incontestável argumento: minha vitória e a sua derrota. Nada supera isso, no mundo de hoje. Acontece que a fragilidade de Vito diante da minha superioridade técnica despertava um instinto materno, de proteção, em Marine. E a disputa sempre caía num dois contra um que dificultava consideravelmente minha vida. E eu dava risada de frente para o computador e aposto que eles também. Foi quando Tatiana começou a comprar minha briga com Vito e Marine. E a partir dali eu tinha uma torcedora fiel e alguém para me ajudar nas desleais discussões que eu enfrentava até ali. Não me lembro de ter perdido mais nenhum jogo ou pós-jogo a partir desse momento. Não que eu perdesse antes, mas, enfim…

As coisas estavam ótimas e continuavam melhorando cada vez mais. Era quinta-feira e meus amigos todos estavam na cidade. Matias, vindo de longe e do seu curso de medicina, inclusive. Ansiávamos pelo fim de semana e por mais bebida e por agir de forma estúpida. O resumo do que é ser jovem e ter o próprio dinheiro e um pouco de coragem. E para melhorar ainda mais minha quinta-feira, tinha festa na firma. E festa na firma só significa uma única coisa: muita bebida de graça e pouco pudor.

Eu só sei que cheguei completamente bêbado em casa por volta da meia-noite. Devo ter tomado uma ou duas multas no caminho, mas ter chegado com o carro intacto já era considerada uma grande vitória. Abri a porta, entrei e me larguei na cama. Alguns minutos depois, o interfone tocou. Era Matias e eu PRECISAVA abrir a porta para ele e dar um abraço apertado naquele maldito. E foi o que fiz. Tropeçando até a porta, mas fiz.

Ele entrou e ficamos bebendo um pouco mais e falando sobre um monte de coisas de que eu simplesmente não consigo me lembrar, mas que com certeza faziam muito sentido justamente por não fazer sentido nenhum. Aí Vito chegou em casa e entrou na bagunça. Quer dizer, isso durou pouco tempo. Alguns minutos depois, dizem eles, eu dormi pesadamente em alguma posição estranha na cama. Roncava como um rei, mas com a pose de um plebeu. E definitivamente não dava a mínima para o trabalho no dia seguinte.

Acordei um pouco atrasado na sexta-feira, joguei uma água no rosto e botei umas roupas decentes. Eu não tinha ressaca nenhuma, como o bom tanque que sou. E da quinta-feira só haviam sobrado umas histórias das quais eu não me lembrava bem e mais umas cervejas no trabalho. Cervejas que foram devidamente tomadas durante o meu tal processo criativo. Ó, doce liberdade.

E esse foi um resumo da minha quinta-feira e de um pedaço da minha sexta-feira. Finalmente, eu estava livre do trabalho e extremamente dedicado a seguir no meu ritmo atual de álcool e diversão. E mais uma vez Marine e Tatiana estavam a caminho de casa, que, por sinal, precisava de uma organizada rápida. Foi justamente o que eu e Vito fizemos. Éramos uma dupla e tanto. Ao menos quando o assunto não era lavar louça ou apagar a luz do banheiro, éramos uma dupla e tanto.

Nos arrumamos, colocamos umas roupas boas, um perfume daqueles que deixam um rastro, botamos alguma coisa para tocar e esperamos. Bebíamos vodka enquanto elas não chegavam. Aquele típico atraso feminino que, no fim das contas, sempre valia a pena. A maior arma das mulheres contra nós, homens, talvez. E naquela noite, não foi diferente. O relógio acusou algo entre meia-noite e uma da manhã e o interfone tocou. Eram elas mais uma vez. A segunda sexta-feira em duas semanas. E eu não tinha absolutamente nenhuma reclamação a fazer sobre isso.

Ambas lindas. Só para manter o costume, ambas lindas. Tatiana conseguia se destacar usando preto e Marine em um vestido cinza. Cumprimentei as duas com um beijo no rosto e um abraço de segundinhos. Elas já se sentiam em casa e foram subindo as escadas e entrando sem muita cerimônia. Eu gostei de ver e senti certo orgulho por estar tão bem acompanhado. Tatiana cumprimentou Vito rapidamente e Marine passou um tempo jogada nos seus braços.

Na cozinha, uma caneca monstruosa de vodka com energético já estava pronta e consumida pela metade. Tatiana pegou aquilo e simplesmente começou a beber. Era engraçado, ela segurava aquela caneca imensa com as duas mãos. Tinha um jeito meigo de criança que não sabe muito bem o que faz, com a diferença de que ela sabia bem o que fazia. Ela bebia da caneca como se fosse água. Tinha sede. Eu comentei algo sobre isso, ela deu risada e tomei um gole do mesmo lugar. Marine estava doente e eu servi bebida para ela em uma outra caneca, que tinha bigodes.

E novamente todos bebíamos e jogávamos conversa fora. Tomamos tequila também para cumprir o ritual. Mas confesso que, dessa vez, a tequila desceu ESTRANHA para mim. E fiz questão de explicar o acontecido para todos num raio de cinco metros. Eu tinha uma reputação a zelar, afinal. Tati bebeu com a mesma classe de sempre, Vito bebeu escondido e Marine fez o mesmo. Afinal, aquilo já havia se tornado um costume, de certa forma. Não tinha a mesma novidade de antes, não era necessário fazer disso uma NOVELA. Mas sabíamos que o prazer em beber tequila era o mesmo e por isso continuávamos bebendo.

Pouco tempo depois, eu já escutava algumas risadas mais altas da parte delas e talvez elas estivessem bêbadas. Eu preparava mais bebida na cozinha e escutei da sala uma batida familiar na música. Tatiana afirmava ser a música de Marine e Marine aceitava e se divertia com isso. Marine Gasoline, esse era o nome que dávamos. Todos deram risada e aproveitaram a música um pouco. Depois continuamos no sofá falando sobre nada e rindo como se aquilo fosse tudo pra gente. O telefone tocou. Era Jeck. Meus amigos sairiam com a gente naquela sexta-feira e eles já estavam prontos. Tomamos mais alguns goles e saímos. Tatiana tropeçou de forma engraçada na escada, acusando sua embriaguez. Eu ri e olhei para Marine com cara de confuso. Tivemos uma rápida conversa estranha e logo estávamos todos na rua novamente.

Ouça aqui a Marina Gasolina, do Bonde do Rolê:
https://www.youtube.com/watch?v=AxOK-qP3UJ4

Nos dividimos em dois carros: o meu e o de Vito. O de Vito era um pouco mais espaçoso, logo, ele ficou responsável por pegar Jeck, Matias e Luise, namorada de Jeck, e eu segui com Tatiana no meu. Eu precisava parar no posto para tirar dinheiro – ou pelo menos tentar fazê-lo. Eu não tinha dinheiro, mas tinha um coração. Entramos no carro, liguei alguma música que ela adorava e eu também. Ela cantava e se mexia no ritmo e eu dava uma risada meio sem graça, mas absolutamente feliz. No meio do caminho, Vito me ligou e pediu para encostar no posto. Aparentemente tínhamos mais um para a trupe e a divisão de carros seria necessária, no fim das contas.

E foi exatamente o que fiz. Cheguei, encostei e desliguei o carro. Nem sinal de Vito. Tatiana e eu, sozinhos no carro. A música ainda tocando, o que não colaborava muito com a situação. Ou talvez colaborasse. E eu sentia novamente aquela agitação na minha alma. A diferença era que, dessa vez, eu não sei se conseguiria disfarçá-la. Tatiana continuava cantando e se mexendo no ritmo, olhava para mim e fazia umas caras e bocas. E ela era mais linda e irresistível a cada segundo. Eu não conseguia tirar um sorriso de nervoso do meu rosto e ela tinha um sorriso irônico no dela.

Foram só alguns segundos, mas que, para mim, pareceram uma eternidade. Eu vivia um intenso duelo interno, mais uma vez. Só que dessa vez a minha razão estava perdendo. E quando ela dava sinais de que iria se recuperar e se fazer ouvida, eu olhava no fundo daqueles olhinhos apertados e voltava à estaca zero. Enfim, me rendi ao momento e à minha fragilidade.

— Você sabe que isso é difícil pra mim, não é?

Ela riu calada.

— Sério, você sabe que eu não sei o que fazer, não sabe?

Ela falou alguma coisa e não falou nada ao mesmo tempo. Já eu me aproximei do seu rosto. Beijei-a novamente e ela retribuiu com a mesma timidez e a mesma doçura de antes. Ela lutava e relutava um pouco, mas bem pouco. Depois de um curto tempo, afastamos nossos rostos. Eu precisava falar alguma coisa.

— Relaxa, Tati. Sério mesmo. Você encana demais com isso.
— É que meu… – ela preparou uma resposta.
— Eu sei que você se assustou quando eu te chamei pra sair. Eu sei bem disso. Mas hoje à noite nós somos só duas pessoas que querem se divertir. Eu quero me divertir, você quer se divertir?
— Quero.
— Então, é isso que vai acontecer.

Beijei-a novamente e dessa vez a senti mais à vontade, como se minhas palavras tivessem surtido algum efeito. Ela queria falar mais.

— É que eu sou muito complicada, você não tem noção.
— Você pode ser complicada, mas eu sou paciente.
— Não, meu, eu sou MUITO complicada. – disse, com ênfase.
— Tati, sério mesmo, não me subestime.

Ela mudou um pouco sua expressão, indicando que compreendeu a mensagem.

Desci para tirar meu dinheiro. Eles já haviam chegado e esperavam do lado de fora há um tempinho. No caminho eu não pensava em nada, mas me sentia bem, muito bem. Avistei-os. E além de Jeck, Matias, Luise, Vito e Marine, Broono também se fazia presente. Algo raro. Sorri quando o vi. Abracei a todos com a mesma alegria de sempre. Todos eram absurdamente importantes para mim e naquele momento meu coração era só amor. Fui até o caixa, tentei tirar um dinheiro. Não consegui. Usei a minha outra conta do banco e dessa vez o dinheiro saiu fácil. Aquilo era preocupante, mas podia ficar para depois.

Voltei para o carro e Tatiana estava quieta, com um sorriso no rosto. Perguntei se ela queria conhecer o pessoal e ela disse que já ia ver todos na Meu. Não sei por que, mas acho que insisti um pouco e ela acabou descendo do carro e indo até lá. E, pensando bem, fui bem chato e inconveniente nesse momento. Enfim, as devidas apresentações foram feitas, Jeck e Luise vieram comigo e Tatiana no meu carro e o restante no carro de Vito. Tomamos nosso caminho, enquanto eu compartilhava minha preocupação sobre meu saldo bancário com todos. Percebi que aquilo não era assunto para o momento pela expressão desinteressada de Tatiana e Luise e calei minha boca até chegarmos lá. Qualquer segundo de silêncio, ali, me deixava levemente incomodado. Mas isso era algo com o que eu precisava me adaptar.

Chegamos lá um pouco antes do resto do pessoal. O cara pediu os dez reais de sempre, eu ofereci os cinco de sempre, ele calou e consentiu. E o silêncio continuou do lado de fora da Meu, mas eu já não me sentia tão incomodado assim. Um monte de gente estava ao meu redor e eu me sentia protegido e me sentia bem. Aí o resto do pessoal chegou animado e eu abri um sorriso enorme. Talvez pelo alívio, talvez simplesmente por querê-los perto de mim. Não sei.

Tatiana e Marine resolveram ir na nossa frente e entrar antes de todo mundo. Eu e Vito ficamos meio em dúvida sobre o que deveríamos fazer, mas ficamos um pouco mais do lado de fora, conversando com todos. Eles me olhavam de um jeito engraçado e eu fingia não estar nem aí. Ou melhor, eu fingia nem perceber. Ingênuos. Ficamos dando risada de qualquer coisa que acontecesse por uns minutos lá fora. O ar era leve, tranquilo. A noite era bonita. O céu tinha poucas estrelas, mas um brilho próprio que refletia nas folhas das árvores, trazendo um aspecto de verde metalizado para o ambiente. E uma noite como essa era rara de ver. Ou simplesmente fosse eu que nunca parara para prestar atenção mesmo. Enfim, depois de um tempo que passou rápido, eu e Vito, ansiosos como sempre, entramos para procurá-las.

Elas estavam logo na porta, dançando antes mesmo de entrarem na pista. Tatiana estava estranha e engraçadamente agitada, Marine estava mais tranquila. Perguntei a Tatiana se ela queria dançar, ela disse que sim e puxou Marine pelo braço, mas Marine precisava ir ao banheiro e essa pareceu uma ideia melhor para Tati. E lá foram as duas juntas para o banheiro, como toda boa mulher. E eu ficava pensando se elas realmente achavam aquilo um modo sutil de falar de nós, homens. Foi engraçado, eu ri sozinho e comentei alguma coisa com Vito, que, sábio o suficiente, concordou e riu também. Pegamos uma cerveja e entramos na pista de dança. Sozinhos.

Nos mexíamos de forma bem contida e relaxada, observando o ambiente ao nosso redor. Nós dois éramos aquilo que todo homem deveria ser e sabíamos bem disso e fazíamos questão de demonstrar isso no nosso modo calmo e tranquilo de levar a vida e as nossas noites de sexta e sábado e de vez em quando de quinta também. Éramos o que éramos e a maioria das pessoas gostava disso. Eu o admirava e ele me admirava de volta. Era perfeito.

Depois de alguns minutos, elas voltaram com um aspecto mais leve no rosto. Era como se, agora, ambas soubessem de tudo o que se passava na vida uma da outra e, agora, pudessem de fato viver coisas novas. A amizade delas também era linda, algo digno de admirar com a cabeça apoiada na palma da mão e uma expressão serena no rosto. E eu sempre deixei isso claro para ambas, até porque nunca acreditei muito na amizade VERDADEIRA das mulheres. Pelo menos até conhecê-las.

Mas elas voltaram do banheiro e Marine foi diretamente para os braços de Vito, me deixando, de certa forma, a sós com Tatiana. Não achei que fosse o momento de um novo beijo, por isso mantive alguma distância. Só dançando perto, olhando nos olhos. Ou ao menos tentando. Não passou muito tempo, eu fui beijá-la novamente. Ela sorriu e tirou o rosto, ao mesmo em tempo que dava uma risadinha disfarçada. E em vez de me afastar, teve efeito contrário em mim. E talvez ela soubesse disso, ou talvez não. Eu só sei que minha vontade só aumentou e meu instinto foi ativado novamente. E poucos segundos depois já nos beijávamos novamente. Com a timidez e a suavidade de sempre, mas nos beijávamos. E eu sentia segurança em meio a toda aquela insegurança.

E assim a noite começou a se desenrolar de fato. A mesma deliciosa rotina de sempre. Todos dançavam, bebiam, riam, viviam. Sem espaço nem tempo para problemas, para as bostas naturais da vida, para aquelas pessoas que nos fazem perder a fé na humanidade. Sem nenhuma pretensão além de viver e aproveitar a nossa juventude e o tempo que temos na Terra. O tempo passou e Jeck, Matias e companhia simplesmente não apareciam. Comentei o fato com Vito, que também achou estranho. Fui lá fora procurá-los e estavam todos em uma grande roda, bebendo e falando sobre futebol, embora nem todos nela soubessem do que falavam.

Eu cheguei e fui recebido com um grande abraço de todos. Perguntei o motivo daquela distância e eles simplesmente estavam com vontade de beber um pouco. Matias tomava uma caipirinha. Eu peguei um gole e era pura cachaça. E como eu não me dava muito bem com pinga ou cachaça, deixei aquilo para lá e continuei tomando minha cerveja. Falávamos sobre o corte de cabelo das pessoas ao nosso redor e também sobre a intensa babaquice dos funcionários daquele lugar. Concordávamos em quase tudo simplesmente porque concordávamos mesmo. Não havia nada fingido ou nenhuma espécie de falsidade no ar. Fiquei um tempo lá fora, só aproveitando o ar fresco e aquela conversa boba e despretensiosa. Depois de um tempo, Vito veio chegando e juntou-se a nós.

Olhei ao meu redor e percebi que as coisas sempre foram assim. Com eles. Não importasse a adversidade, o problema, a minha estupidez ou a infantilidade deles. Sempre permanecemos juntos e sempre permanecemos inabaláveis. E assim seria para sempre. Olhei ao meu redor e percebi também que duas meninas incríveis estavam dançando e talvez nos esperando ali, muito perto da gente. Chamei todos para dentro, mas Matias queria terminar sua bebida. Eu e Vito entramos e estávamos de novo na pista. Todos eles juntaram-se a nós pouco tempo depois.

As coisas seguiam normais e naturalmente. Tatiana continuava dançando bem, Marine e Vito não se desgrudavam, Jeck e Luisa e Matias e Broono dançavam de forma engraçada. Eles haviam sido minha escola e até hoje eu dançava de forma engraçada, mesmo quando queria dançar direito. Mexíamos nossos pés e braços e mãos e troncos de forma intensa, urgente. Era desesperador nos ver dançar, porque você queria fazer igual, mas não tinha os colhões necessários para fazê-lo. Aquilo era coisa nossa. Criada por nós e aperfeiçoada por nós e só aproveitada por nós.

Tatiana pediu para eu fazer a dança do cotovelo e eu atendi ao pedido, contanto que Jeck fizesse comigo. Foi o que aconteceu. E foi um sucesso, mas ainda assim ela não aprendia a tal dança. Eu tentei ensiná-la mais uma vez e ela fez uma pose engraçada de briga. Ela sempre queria me bater, tinha esse ímpeto de me dar um soco. Quer eu escrevesse coisas tristes como aquelas, ou felizes como essas. A vontade sempre vinha e ela sempre a manifestava com uma graciosidade e uma delicadeza extrema. Comentei isso com Marine, que dançava ao nosso lado. Ela deu risada e me deu um soco no braço esquerdo. Tatiana deu outro no braço direito. E elas ficaram nisso por alguns segundos. Eu me diverti bastante com aquelas cócegas e pude me gabar um pouco dos meus bíceps e tríceps e antebraços. Eu fui um homem e tanto, na minha cabeça e naquele momento.

Algum tempo depois, chamei Tatiana para tomar um ar fresco comigo lá fora. Ela me acompanhou sem pensar duas vezes. A gente se dava bem e a noite era linda, como eu já disse. Procuramos um banco vago, encontramos e nos sentamos. Ela logo apoiou a cabeça no meu ombro. Um pouco preguiçosa, um pouco carinhosa. Senti meus lábios se contorcerem num sorriso sem querer nesse momento.

— O que será que acontece com esse lugar, não é? – perguntei, intrigado.
— Como assim?
— A gente sempre acaba aqui e a gente sempre se diverte.
— Verdade. É sempre assim.
— Bem, eu só sei que não tenho nada para reclamar.
— Nossa, eu tô morrendo de calor, você não? – ela mudou de assunto.
— Eu sei. Eu causo essa reação nas pessoas.

Tatiana não escutou direito o que eu disse, mas não repeti. Piadas imbecis e idiotas só são contadas uma vez e nada mais. Apesar de que, no fundo, eu acredito que ela tenha fingido não escutar, simplesmente. Eu sei, porque eu teria feito o mesmo. Mas era um momento legal. Aí começou a tocar uma música de uns caras que, para Tatiana, são simplesmente irresistíveis: os da banda Strobo. Eu olhei para ela e, falando sério, disse que ela queria ir lá para dentro. Ela, obviamente, confirmou. Eu dei risada e lá fomos nós mais uma vez fazer o que fazemos de melhor. Ela precisou parar e me esperar no meio do caminho, tamanha era sua empolgação com a música.

Entre na balada também, ao som do Strobo:
https://www.youtube.com/watch?v=QPka9qoM15o

E nossa noite seguia assim. Eu me sentia um pouco bêbado de felicidade, simplesmente. E aquilo era maravilhoso. Todos estavam dançando, dando risada, falando sobre qualquer coisa e buscando a felicidade a cada segundo e uma nova história para contar em cada oportunidade. O relógio acusava algo entre cinco e seis horas e todos estavam cansados e suados, mas ainda com uma vontade, uma necessidade estranha de mais e mais e mais. Estávamos do lado de fora da pista, quando simplesmente apagaram todas as luzes e fecharam todas as portas. Pensei comigo, “Um ‘até a próxima’ teria sido mais educado e simpático”, mas tudo bem. Nunca esperei nada dos funcionários de lá, então tudo bem mesmo.

Saímos. Todos animados, sorriso no rosto. Do lado de fora, dois moleques completamente bêbados clamavam por uma prisão com alguns policias extremamente pacientes para os seus novecentos reais por mês. A minha vontade era a de tirá-los de lá e tentar colocar algum juízo naquelas mentes estúpidas, mas tudo o que fiz foi seguir em frente, olhando para trás e rindo e comentando. Matias os imitou e eu ri. Eram dois palhaços de circo, aqueles moleques, e nós éramos a plateia e talvez estivéssemos satisfeitos com o espetáculo.

Estávamos parados na esquina, decidindo para onde iríamos, com quem iríamos e como iríamos. No fim das contas, ficou decidido que Vito e Marine iriam embora juntos e eu daria um jeito de acomodar todos os outros no meu carro. Mas todos os outros, com exceção de eu mesmo e Tatiana, queriam ir ao supermercado comprar mais bebida. Era sempre assim com a gente, mas naquela noite e naquele momento eu estava a fim de algum sossego. Olhei para Tatiana e ela não me parecia muito animada com a ideia. Propus levá-la embora depois e ela topou com uma expressão de dúvida no rosto. Jeck fez algum comentário não muito legal sobre a situação, eu o olhei SÉRIO e ele sabia que não tinha acertado na escolha que fez. Calou-se por algum tempo. Enfim, fomos todos para o meu carro. Luise reclamava de dor nas costas, mas teria que aguentar um pouco.

No meio do caminho, um carro de polícia resolveu andar ao meu lado. Eu sabia que aquilo não significava nada, mas todos no banco de trás se mostravam um pouco preocupados com a situação. Mas eu, na minha experiência em lidar com os tiras, sabia que aquilo não significava nada. Segui dirigindo normalmente e, após engatar a primeira marcha uma vez ou outra, estávamos no supermercado. Eles desceram em busca de mais bebida e de prolongar a noite pelo máximo de tempo possível.

Eu e Tatiana ficamos no carro. Ela, visivelmente exausta. Mal conseguia manter os olhos abertos. Ofereci meu ombro para que encostasse e ela aceitou de bom grado. Mais uma vez naquela noite sua cabeça repousava no meu ombro e eu me sentia bem em poder protegê-la e oferecer algum conforto novamente. Me sentia útil e me sentia importante, de certa forma. Eu acariciava seus cabelos sem pressa alguma. E meus olhos também fechavam aos poucos, mas eu seguia falando qualquer coisa sobre cafunés. Cansada, ela resolveu avisar sua mãe que dormiria fora naquela noite. Eu concordei e me prontifiquei a levá-la para casa cedo no dia seguinte, embora ela não parecesse muito animada em acordar cedo. Os carinhos continuaram e ela já tinha um local seguro e tranquilo para dormir. Eles voltaram carregando três caixas de cerveja cheias e mais algumas coisas que não fazem muito bem para a saúde. Achei aquilo simplesmente sensacional, mas ansiava pela minha casa o quanto antes.

Tatiana não se sentia muito bem, o que me fez apressar um pouco as coisas. Levei-os o quanto antes para casa, que ficava na rua de baixo da minha. Eles desceram rápido, queriam mais cerveja e queriam viver um pouco mais aqueles momentos. Abracei e beijei um por um. Eles se foram e eu também me fui. Subi a rua, estacionei o carro e, finalmente, eu estava a poucos passos de um descanso merecido. Tati ainda não se sentia muito bem e o frio a incomodava novamente. Abracei-a forte mais uma vez. Era a segunda ou terceira vez naquele mês e eu ainda me sentia como se fosse a primeira vez na minha vida. As coisas que o costume não fazem por você. Eu devo ter perguntado pela quinta ou sexta vez se ela estava feliz, se havia apreciado aquela noite. E apesar da resposta positiva todas as vezes, eu sempre acabava perguntando de novo. Era chato, era irritante, era infantil. Mas aquele era eu. Talvez um pouco exagerado demais, um pouco tenso, mas aquele era eu.

Entramos em casa, perguntei se estava tudo bem e ela confirmou mais uma vez. Fui para o quarto preparar a cama para que ela dormisse com algum conforto. Ela precisava daquilo e eu simplesmente sentia isso. Cama feita, ofereci uma bermuda minha para ela vestir. Esperei na sala enquanto ela se trocava. Ficou engraçada nela, a bermuda, mas ainda assim ela ostentava um charme quase inabalável e praticamente irresistível. E acima de tudo parecia confortável. Ela abriu a porta e fez como se me esperasse para falar alguma coisa antes de dormir. Eu levantei do sofá e fui até ela.

— Sabe, eu estou meio que me sentindo culpada.
— Pelo quê? – perguntei, confuso.
— Por roubar sua cama, enquanto você dorme na sala.

Eu ri e continuei falando.

— Para, relaxa. Eu é que vou me sentir culpado se você não dormir confortável essa noite.

Ela sorriu com aquilo. E naquele momento ficou muito claro para mim que ela não precisa de esforço algum para ser linda. É simplesmente algo que nasce no fundo dos seus olhos e invade os meus com uma fúria descomunal. Ganhei um último beijo. Suave. Um último beijo e um último desejo de boa-noite. Um último momento por aquela noite ou talvez para os dias que viriam após ela. Eu não sei, mas também não pensava ou me preocupava com isso. Eu só sei que fui dormir sorrindo e acordei duas horas depois sorrindo com o sol me dando bom-dia. Era sexta-feira.

A webnovela O soco que eu nunca levei está chegando ao fim, snif, snif, snif. Amanhã, o capítulo final dessa linda história de amor. Como a tua.

 

Ilustração: Jussara “Gonzo” Nunes.

 

Leia aqui o primeiro episódio de O soco que eu nunca levei. “Primeiro assalto.”

Confira aqui o segundo episódio de O soco que eu nunca levei. “Eu não fui um cara legal.”

Divirta-se aqui com o terceiro episódio de O soco que eu nunca levei. “Cento e vinte quilômetros daqui.”

Aproveite aqui o quarto episódio de O soco que eu nunca levei. “A minha cara de interrogação.”

Leia também o quinto episódio de O soco que nunca levei. “Das coisas que mais importam”.

Descubra aqui o episódio final de O soco que eu nunca levei. “Golpe de sorte”.

 

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