O soco que eu nunca levei

 


O á-bê-cê de um amor, desde o primeiro sorriso. E como tudo foi evoluindo, vaso de flores no quintal ensolarado da casa nova.

 

Epílogo: Golpe de sorte.

 

O despertador acusou algo entre as sete e as sete e meia da manhã. Os raios de sol ainda passavam tímidos pela janela. E aquele edredom parecia muito mais confortável do que qualquer coisa ou qualquer abraço no mundo. E, naquele momento, talvez ela tivesse razão. Seus olhos já naturalmente fechadinhos insistiam em não abrir completamente e o dia insistia em não começar. Ela passava a mão no rosto em sinal de preguiça, o cabelo bagunçado tapava suavemente sua visão. Ficou alguns minutinhos nisso até tomar alguma coragem e se levantar. E aquele dia não era um dia qualquer, embora ela desejasse que fosse, às vezes. Era seu aniversário.

Enquanto se arrumava, mantinha-se entre a euforia e o nervosismo. Uns minutos a partir dali e estaria rodeada de amor por todos os lados. Ligações, abraços, sorrisos, desejos de um futuro próspero e feliz. Mas, ao mesmo tempo, era mais um ano que havia passado para ela. E aquilo a incomodava na mesma proporção que apreciava todo o carinho que receberia. Ela já havia conversado sobre aquilo com um cara estranho que morava do outro lado da cidade e tinha a mania de abraçá-la e protegê-la do frio sempre que eles se encontravam. Ele também usava tênis branco e ela já havia dito para ele mais de uma vez que ele merecia um soco por algumas besteiras que ele fazia. O tal cara estranho falava para ela que aquele pensamento não fazia sentido nenhum e que a idade só a deixava mais linda e inteligente e divertida. Mas o cara tinha vinte e poucos anos e parecia ter vinte e tantos, então ela parecia não ligar muito para o que ele tinha a dizer com relação a isso.

Pouco tempo depois e ela estava pronta e estava linda. Olhou-se uma última vez no espelho, disfarçou um sorrisinho tímido. Tomou um café apressado com calma e elegância. Um paradoxo e tanto. Ganhou um abraço apertado da sua mãe e outro do seu pai. E naqueles braços estava o amor em sua forma mais linda. O amor de pai e de mãe. Entrou no carro, deu a partida e foi em direção a mais um dia de trabalho. Mais um dia de trabalho, em um dia que de “mais um” não tinha nada. Ela ligou na Tchau FM e seguiu dirigindo. Cantava alto e dançava quietinha atrás do volante. Sua alegria de sempre, que era a causa de tantos sorrisos. Talvez de mais sorrisos do que ela fosse capaz de imaginar.

Trabalhava no centro, criando joias. Em um lugar onde tanta feiúra a cercava, ela usava sua inteligência e suas delicadas mãos fazendo as mulheres mais bonitas e o mundo um lugar um pouquinho melhor. Todo o amor que cabe no brilho de um anel. Toda a consideração que cabe no reflexo de um colar. O cuidado das mãos pequenas de uma menina de vinte e seis anos. Tudo aquilo dizia bastante sobre a pessoa que ela era. E talvez ela nem fizesse ideia disso.

O telefone tocava e as mensagens chegavam e os abraços aconteciam. Tudo caminhava de acordo com o planejado. Passou por alguns momentos de tédio, alguns momentos de felicidade, alguns momentos de reflexão e o seu dia havia passado. Ou melhor, apenas começado. Estava finalmente livre das suas obrigações profissionais e sociais. Livre para ver suas amigas, para dar risada, para comemorar o que quisesse comemorar.

Na volta para casa, o trânsito não compreendia que aquele era o seu dia e a castigava como sempre. A sinfonia de buzinas do lado de fora e ela dentro do carro em um mundinho particular. Sorria sem querer, na expectativa de ver suas amigas. E para uma pessoa complicada, seu sorriso dizia muito. Chegou em casa, desligou o carro e perdeu dois ou três segundos sentada lá dentro, pensando se sentia-se, de fato, como alguém de vinte e seis anos. A ideia ainda lhe parecia tão confusa quanto o nome da rua onde morava. Fechou a porta do carro, abriu a porta de casa e respirou aliviada.

Tudo ia bem até ali. Seu cachorro mais branco que a neve veio pulando e lambeu-lhe o rosto. Ele era simpático e amoroso nas horas certas e também nas horas erradas, de vez em quando. Ela sorriu, ele sorriu e qualquer pessoa que presenciasse tal momento faria o mesmo, deslumbrado pela beleza e pela verdade daquela amizade. Foi quando ela notou que na mesa da sala havia algo novo na paisagem. Algo diferente de quando ela havia saído, pela manhã.

Um buquê de flores descansava ali em cima. Tímido, com cara de novo. Gérberas com flores do campo. Alinhavam-se perfeitamente e lindamente numa mistura de cores capaz de iluminar qualquer escuridão e qualquer sorriso e qualquer olhar. Ela fazia cara de surpresa, mas já suspeitava de algo do tipo. Aproximou-se do presente e no meio daquela dança de fragrâncias encontrou um bilhetinho.

Suas mãos buscaram o tal bilhete, procurando uma resposta para aquele mistério, embora no fundo ela já soubesse o autor daquilo tudo. Bastou se lembrar de uma noite fria em que ela comeu batata frita e tomou um refrigerante indesejado, que as respostas apareceram como num lapso. Aquela abordagem desajeitada e aquele sorriso bobo e sem graça dele ao perceber que havia falado demais e, de certa forma, estragado a surpresa. Ela também deu um sorriso bobo e abriu o tal bilhete.

A mensagem era singela, talvez até menos do que ela esperava. O cara dos abraços e do tênis branco desejava felicidades e encerrava a mensagem com um simples “Com carinho”. A assinatura meio tremida revelava algum nervosismo ao se ver diante do momento. Um nervosismo que ela ainda não sabia se gostava ou não. Ela aproximou suavemente as flores do seu rosto, deixando que elas tocassem o seu nariz com carinho. Aquele narizinho pequeno e gentil, perdido no meio daquele jardim de boas intenções. E o arquiteto daquele momento tão lindo passou e ainda passava o dia pensando se aquele momento de fato havia acontecido. Se tudo saiu como ele havia imaginado pelo menos uma vez na vida dele.

Procurou por um vasinho, encheu-o com alguma água e colocou lá as flores com um cuidado e uma tranquilidade que só ela tem. E naquela instante ela viu que talvez não fosse tão ruim fazer vinte e seis anos. Afinal, a questão não era um número a mais ou a menos no RG, mas sim o impacto que ela era capaz de causar na vida das pessoas, ao ponto de fazer com que essas pessoas também desejassem causar o mesmo impacto na vida dela. Era daí que vinham os bons momentos, as belas lembranças.

E do outro lado da cidade, espremido pelo frio do vento que batia forte nas janelas e vestindo os seus tênis brancos, o cara esquisito e que merecia um soco escrevia sobre isso. Imaginando em sua mente como havia sido o dia vinte e sete dela e aguardando ansiosamente pelo dia vinte e nove.

E assim que ela chegou a essa vírgula a seguir, ele alimentou certa esperança de que o soco que ela prometera há algum tempo não aconteceria. Aquele soco não viria, mas ela sem saber já o havia atingido em cheio no dia em que sorriu para ele e disse seu nome. Aquele foi um belo golpe. Um belo golpe que o atingiu direta e furiosamente no lugar mais forte e ao mesmo tempo mais frágil de um homem. Para a felicidade dele, aquele golpe aconteceu em sua vida. Aquele golpe de sorte.

FIM

 

Ilustração: Jussara “Gonzo” Nunes.

 

Leia aqui o primeiro episódio de O soco que eu nunca levei. “Primeiro assalto.”

Confira aqui o segundo episódio de O soco que eu nunca levei. “Eu não fui um cara legal.”

Divirta-se aqui com o terceiro episódio de O soco que eu nunca levei. “Cento e vinte quilômetros daqui.”

Aproveite aqui o quarto episódio de O soco que eu nunca levei. “A minha cara de interrogação.”

Leia o quinto episódio de O soco que nunca levei. “Das coisas que mais importam”.

Veja aqui o penúltimo episódio de O soco que eu nunca levei. “A segurança da insegurança”.

 

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