O suicida

A agitação tomava conta do centro da cidade.

“Ele tem uma faca! Eu vi, ele tá com uma faca na mão!”

“Isso é coisa de quem usa droga!”

“A namorada de um primo de um amigo meu conhece ele. Ele tem algum problema na cabeça. Esquizo alguma coisa.”

O burburinho era abafado pelo som de algumas sirenes que vinham e iam. Pelo helicóptero da polícia que sobrevoava o lugar, sem se saber a necessidade de ele estar ali. E por alguns jornalistas que, na ânsia de transmitir uma verídica sensação do que acontecia, se exaltavam em seus microfones.

– Ainda bem que o senhor chegou. Me acompanhe.

O policial o levou a um posto avançado. Uma base móvel estacionada na esquina da rua, bem no limite de onde ainda era permitida a circulação dos curiosos. Dentro da base, mais dois policiais e o comandante da operação o aguardavam.

– Bom-dia, é muito bom tê-lo conosco.

Assim era a sua recepção sempre que chegava a um conflito. Ele preferia o silêncio. Geralmente, um aperto de mão e um meneio de cabeça já valiam como saudação. Era nítido no olhar do comandante o alívio em vê-lo. Pronto, o seu show podia começar.

– Por favor, me passe um panorama do que está acontecendo.

– Bom, esse moleque chegou aqui cedo. Algumas testemunhas disseram que ele comeu ali, naquela lanchonete – e o comandante apontou para a janela à sua esquerda. – Tomou um suco e pagou tudo direitinho. Depois foi para a loja de bijuterias, lá no meio da rua mais ou menos, onde está até agora ameaçando se matar.

– Ele não exigiu nada?

– Não. Só mandou que as funcionárias da loja saíssem. Queria ficar sozinho. A ex-namorada dele trabalha ali. Pelo que uma funcionária me falou, a menina terminou o noivado com ele faz alguns dias. Ela comentou que o menino ficou deprimido, perdido, aquela frescura toda. Deve ser um filhinho de papai que não sabe ouvir não. Por mim eu já tinha entrado lá e pronto.

– “Pronto”, o quê?

– Pronto, ué! Ele não quer se matar? Então, vamos resolver logo o problema dele e o nosso. E digo mais, na minha opinião…

– Eu não pedi a sua opinião. Aliás, se a quisessem, não teriam me chamado. Deixariam que o senhor resolvesse esse caso.

E dessa forma ele conquistava mais um sócio para o seu clube de inimizades e antipatias. A admiração pelo seu trabalho era inversamente proporcional à por sua pessoa. Era comum reservar este tipo de tratamento aos policiais. Considerava-os seres menores. Sem capacidade de decisão, convencimento. Eram treinados apenas para atirar. Matar. Resolver a situação da maneira mais fácil. Ao contrário dele, que tinha nas palavras a sua principal arma.

– E onde está essa tal ex-namorada?

– E eu que vou saber? Disseram que ela faltou hoje. Teve é sorte, porque, se estivesse ali, eu acho que…

– Eu já disse que pouco me importa o que o senhor acha. Ao invés de todos esses “achismos”, o senhor já poderia ter providenciado o nome e o contato dessa menina. Precisamos dela aqui. Agora. Procure também por familiares do rapaz. Familiares diretos, pai, mãe, irmãos, caso você não tenha entendido.

– Sim, senhor. Eu entendi e não sou nenhum imbecil – respondeu o comandante, com uma encarada carregada de ódio.

– Agora, saiam. Me deixem aqui, sozinho. Eu preciso estudar a situação.

Enquanto do lado de fora os policiais execravam a sua arrogância, do lado de dentro, o homem autoconfiante dava lugar a um totalmente desesperado. Suas mãos tremiam em busca de um lenço para secar o suor que escorria pela testa. Afrouxava o nó da gravata e tentava controlar a respiração. Acuado, buscava ar próximo às janelas.

– Senhor, com licença? – bateu à porta um dos policiais.

– Espero que seja importante – disse, recompondo-se.

– Sim, temos um problema. A ex-namorada do rapaz está sumida. Segundo a mãe, ela não dá notícias desde ontem à tarde.

– Que ótimo. E a família do menino?

– Também não tivemos sorte. Ele é órfão de pai, mãe e não tem irmãos. Tem uma tia, mas ela está muito assustada com a repercussão do caso. Disse também que por conta de um problema na coluna tem dificuldade de locomoção e não consegue vir até aqui. Parece que o problema é maior do que pensávamos.

– Eu não me recordo de ter perguntado a sua opinião. Assim sendo, providencie apenas um colete à prova de balas e uma escolta. Eu entrarei na loja para falar com ele.

– Mas, senhor…

– Você ouviu o que eu disse. Cumpra com o seu dever. Nós não temos mais tempo a perder.

E tudo foi feito de acordo com o seu desejo. Uma escolta de sete homens, alguns armados de fuzis e outros com grandes e pesados escudos, o acompanhou até a loja. Foi dada a ordem para que ficassem do lado de fora, em posições preestabelecidas e táticas. Ele entraria na loja sozinho e tentaria contato com o jovem. Qualquer problema, pediria ajuda pelo rádio, e a polícia faria uma intervenção. A única e apertada vitrine estava coberta por um pano, impedindo que se visse de fora o que acontecia lá dentro. Devagar, ele girou a maçaneta da porta.

– Olá. Meu nome é…

– Saia agora! – gritou uma voz vinda de trás do balcão.

– Fique tranquilo. Eu vou entrar e parar aqui. Não vou mais avançar. Vou encostar a porta. Estou desarmado e só quero conversar um pouco. Me dê dois, apenas dois minutos. Depois disso, se você quiser, eu saio. Você tem a minha palavra.

– E como posso confiar na sua palavra?

– É tudo o que você tem agora.

– Eu também tenho um facão. E tô com uma vontade louca de usá-lo.

– Não, você não está.

– E como você sabe?

– Porque, se você quisesse usar, já teria usado. Mas fique tranquilo. Ninguém lá fora percebeu isso. Eles acham que você é louco e perigoso. Eles não invadirão a loja, a não ser que eu ordene. Eu tenho um rádio comigo, caso você queira falar com alguém.

– Eu não quero falar com ninguém.

– Claro que você quer. Você precisa falar com alguém.

– Você se acha muito inteligente, não é?

– Sim. De fato eu tenho uma inteligência privilegiada. Quando eu tinha provavelmente a sua idade, ao invés de entrar com um facão em uma loja de bijuteria de uma cidade de interior, eu entrei em primeiro lugar na universidade de medicina. Mais alguns anos e me formei psiquiatra. Fiz mestrado nos Estados Unidos e doutorado em Paris. Falo três idiomas fluentes, além do português. Trabalho para a polícia há alguns anos e também sou palestrante e professor titular na universidade da capital. Tudo isso me rende por mês o que você vai demorar uns dez, quinze anos para ganhar. Sim, eu não posso reclamar do meu intelecto.

– Olha, eu não tô nem aí pra você. O que você é, o que você faz, foda-se! Você ouviu bem? Foda-se! Agora, saia. Já se passaram os dois minutos.

Após os gritos do rapaz, o breve silêncio foi interrompido por um barulho oco. O jovem levantou a cabeça, observando por sobre o balcão. A cena era de um homem de meia-idade, sentado com as mãos no rosto, encostado em uma prateleira de brincos que imitavam ouro, chorando copiosamente. Voltou a se abaixar. Seria algum tipo de armadilha? Sempre empunhando o facão, ele levantou-se, agora por inteiro, e foi na direção do homem.

– Que porra é essa? Você tá chorando?

– Você também me parece bem inteligente – ele ironizou.

– Eu não tô entendendo nada. Você entra aqui pra me convencer a não me matar e começa a chorar. Porra, você…

– Eu o quê? Eu não tô nem aí para o que você vai fazer. Eu não quero te convencer a nada. Eu não posso te convencer a nada porque nem a mim mesmo eu tenho me convencido.

– Hã?

– Eu sou uma grande mentira. Essa aura de glória e sucesso é uma bolha que está prestes a estourar e mostrar ao mundo o meu fracasso. Eu não consigo mais interpretar essa personagem que me levou tão longe. Eu cheguei a um ponto e não sei mais como continuar. A estrada acabou. Eu estou acabado.

– Como assim? E a sua inteligência? Você é um cara fodido e…

– Cala essa boca! Cala essa boca, seu moleque de merda! Quem é você para saber mais do que eu?

– Calma! Olha, cara, eu preciso te contar uma coisa. Eu fiz merda. Eu matei a minha ex. Matei e enterrei o corpo no quintal da casa de uma tia minha. Depois disso eu vim pra cá. Eu me arrependi. Tô perdido também. Eu não sei para onde ir. O que fazer. Só sei que não quero morrer. Eu tô com medo, cara. Vamos sair daqui juntos. O que você acha? Eu me entrego, você sai como herói e eles não me matam. Isso fica entre nós dois. Todo mundo fica bem.

E dessa forma o rapaz se ajoelhou à frente do homem. A imagem era a de um menino pedindo perdão diante de alguém que teve, durante muito tempo, o poder de salvar vidas.

Desesperado, o jovem falava, gesticulava, mas não recebia a atenção do homem, que tinha o olhar fixo em um ponto na loja que ia muito além do físico. Um ponto dentro da sua mente que ele jamais havia alcançado. Tudo estava claro agora.

Durante a confissão e a penitência, transformadas nos mais absurdos argumentos usados pelo rapaz, o homem levanta-se e carrega com ele, pelo braço, o menino. Quando os olhos dos dois enfim se encontram de verdade, o homem puxa a nuca do rapaz para junto dele e diz em seu ouvido que tem uma solução melhor.

– Porra, cara, fala logo! Qual o plano?

– O plano é simples. Você me mata e a polícia te prende. Eu acabo de vez com o meu problema e você paga pela morte da sua ex-namorada. Nada mais justo, pra nós dois.

– Você tá louco? Eu não vou matar você!

– Vai, sim.

E assim o homem se convenceu de que havia chegado o dia de assumir a sua derrota. Ele pediu pelo rádio para que a polícia invadisse o local. Assustado, o rapaz ouviu tudo com o corpo acorrentado ao medo. Pouco antes de a polícia arrombar a porta, o homem segurou com força o braço do rapaz e o puxou para junto de si, cravando o facão na sua própria barriga. O rapaz soltou o facão e deixou que o corpo do homem caísse. Logo, o dele também estaria no chão, derrubado por dois policiais que, enquanto o algemavam, ouviam-no gritar desesperado: “Ele se suicidou! Ele se suicidou!”.

 

 

Imagem: Arte Jornalirismo

Um comentário para “O suicida”

  1. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Texto incrível, Gustavo. Jeito ainda mais incrível de mostrar que a arrogância não leva a nada, só mesmo ao sufocamento. Parabéns!

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