O tempo da inocência

Era da casa para a escola.

Da escola para a casa.

No intervalo, brincar no quintal.

Às vezes na rua, perto da calçada.

Mas pela manhã, antes da escola,

Engraxar sapatos dos senhores.

Nos fins de semana, trabalhar na feira.

Carregando compra para as senhoras da vila.

 

Era assim a vida de Jorginho.

Até conhecer Rodrigo.

Que lhe apresentou a pipa.

Também conhecida por papagaio.

Era a alegria da molecada.

Faziam pipas com varetas de bambu.

As quais iam pegar em uma chácara

De um Japonês, mal-encarado.

Não gostava de molecada nos arredores.

Um dia Jorginho e Rodrigo

Foram pegar bambu e foram surpreendidos

Pelo senhor nissei, que disparou contra eles.

Tiros de sal da espingarda.

Ai! como ardiam.

 

Assim Jorginho conheceu a pipa, e também

Conheceu Rosinha, a irmã de Rodrigo.

Como se dizia antigamente:

“Amor à primeira vista”.

Passavam a tarde toda confeccionando pipas.

Para colocar no ar, e disputar com outras pipas a voar.

Como no dialeto dos moleques:

“Fazer a limpa”.

Perdiam e ganhavam, faziam outras pipas, e enfeitavam

O céu abaixo das nuvens.

Soltando a linha das pipas.

Que desciam verticalmente ao solo.

Para depois subirem,

Dando as tradicionais desbicadas.

Fazendo acrobacias.

E foram dias, meses e até anos.

Fazendo pipas com habilidade.

 

Mas um fim de tarde o menino foi pego com uma triste notícia.

Não por causa das pipas,

Que traziam muitas alegrias.

A família de Rodrigo ia se mudar.

Jorginho a se preocupar.

Não veria mais Rosinha.

 

Então pegou sua linha, varetas de bambu e folhas de papel.

Fez uma pipa para Rosinha.

No dia da partida, entregou-a para a menina.

Para que, onde quer que ela fosse,

Colocasse a pipa no ar, bem alto, o mais alto que pudesse.

Para que toda vez que olhasse para o céu

Lembrasse de Rosinha, e de seu amor por ela.

 

Entre todas as brincadeiras da infância,

Esconde-esconde, polícia e ladrão, mãe da mula, passa-anel,

Roda-pião, bolinha de gude, amarelinha,

A que ainda resiste aos tempos.

Não tão inocentes assim.

Mas com a inocência dos tempos.

 

 

 

Imagem: sfkites.com

6 comentários para “O tempo da inocência”

  1. Germano Gonçalves Arrudas

    Germano Gonçalves Arrudas

    Agradece aos comentários, e a consideração, valeu!

  2. Eliege Antonio

    Boa narrativa em forma poética. Lembrou-me uma foto que temos de meu irmão já falecido, ele está no canteiro da avenida com sua filha bebê e empinando a pipa aos vinte e poucos anos. Parabéns, por mais esta inspiração literária. Abraço!

  3. SHIRLEY

    MUITO BOM! REMETE AOS TEMPOS DE INFÂNCIA.

  4. Donizete Rivera

    Boa narrativa!
    Retrata com suavidade e precisão uma fase lírica de nossas vidas…
    Parabéns Germano Gonçalves!!

  5. Rodrigo(Dr.Paxeco)

    As crianças de hoje em dia não brincam mais….INFELIZMENTE

  6. Ademir

    Talvez um paradoxo, o título remete a um tempo tão distante, quanto talvez atual. A inocência que voa pelas linhas da imaginação, sem limites de espaço. O amor eternizado nos céus da infância. Parabéns pela riqueza literária

Comentário