O vazio tomou conta

 

 

E assim como ela chegou, ela se foi. Rapidamente. Entrou na minha vida, me deixou de joelhos e se foi. Ela havia acabado de passar pela porta e eu sentia uma dor profunda no peito. A sensação era ruim e batia lá fundo. Martelava, me violava. Eu me sentia do avesso. Ela saiu deixando algumas lágrimas pra trás e poucas palavras. Poucas, porém violentas palavras. E tudo havia mudado novamente. Mas dessa vez era diferente. Ela saiu. Ela se foi. Deixou a porta aberta, o vento entrou pela sala e bagunçou a minha casa, a minha vida, a minha cabeça e o meu coração, que ainda transbordava de amor. E, agora, de dor. Ela saiu.

 

Eu caminhei calmamente até a porta. Uma sensação estranha, que nunca tinha sentido. Era como se nada tivesse mudado. Tudo continuasse o mesmo. O mesmo apartamento daqui a dois anos, as mesmas viagens, os três filhos. Tudo igual. Mesmo sabendo que nada seria o mesmo. Mas eu sentia essa paz, essa tranquilidade, essa serenidade. E eu fui até a porta. O vento frio soprava no meu rosto. E ela já não estava mais ali. Bateu o portão. Eu ouvi. Deve ter sido difícil pra ela. E eu ainda me preocupava mais com ela do que comigo mesmo. E eu fui até a porta. E fechei-a. Fiz o vento parar de entrar e bagunçar a porra da minha vida. Estava frio e eu me sentia muito sozinho. Fechei a porta, passei a chave, tranquei tudo. A porta e o meu coração. Me virei de costas, com os passos dela ecoando na minha cabeça, atrás de mim e ao meu redor. E voltei pro meu quarto. Ouvi alguém perguntando se eu precisava de ajuda, mas não sei se isso realmente aconteceu. Não sei, talvez fosse o primeiro indício da minha loucura. Não sei. Não sei. Não sei. De qualquer forma, eu não aceitei a ajuda.

 

E agora a porta do meu quarto estava fechada. E eu estava sozinho. A cama ainda com o cheiro dela. Seus fios de cabelo espalhados pelo chão. E talvez alguma lembrança dela pelo meu armário. Uma camiseta, um prendedor de cabelo, um edredom. Talvez, não. Com certeza. Com toda a certeza. O vazio continuava lá, batendo forte no meu peito. Era muito estranho. O tempo passava compassado, tranquilo, sem pressa. Embora eu quisesse que aquilo tudo acabasse o quanto antes, o tempo não andava. Eu estava ali, de pé, só há alguns segundos. E eu sentia que um ano e meio havia se passado. E eu vi tudo o que deixei pra trás. Tudo o que eu deixei por aí. Tudo o que eu fiz se cansar, tudo o que eu desgastei. Eu vi, com os meus olhos tão santos e tão puros e tão cansados. Tão, tão, tão cansados. Faz parar, Deus. Pelo seu amor, faz parar.

 

E aí aconteceu. A minha mão foi sozinha. Bem na porta do armário, bem fundo. Não atravessou a madeira. Eu olhei pra mim mesmo no reflexo da minha alma e olhei pra minha mão e eu não entendia o que acontecia bem ali. Eu pensava “de novo, não, de novo, não”. Mas era mais forte que eu. Muito mais forte. E lá foi minha mão de novo. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Seis vezes na madeira. O prédio estremeceu inteiro, o meu vizinho se escondeu embaixo da cama. Alguém no bairro viu o anjo da morte de perto. E esse alguém talvez fosse eu nas próximas horas. Mas que se dane. Seis vezes na madeira a minha mão direita. E eu percebi que as minhas roupas estavam ali, ao meu alcance. E uma ou outra peça de roupa dela me lembrando do quão ardentemente linda ela é e consegue ser. Meu Deus, quanta beleza. Como pode? Enfim. Seis vezes minha mão na madeira fizeram com que a porta caísse. Simplesmente caiu, simples assim. Deve ter sido na terceira ou quarta vez que ela caiu. Caiu em cima da cama, formando uma cabaninha ou algo do tipo. Um lugar onde talvez o mundo voltasse a girar no ritmo de sempre. A outra, pendurada, pela metade. Um fio de madeira a segurando e a mantendo ainda de pé. Mais ou menos a mesma coisa que se passava comigo naquele momento. Um fio de vida me mantendo ali, de pé, tentando segurar as pontas. Mas o vazio veio forte dessa vez.

 

Invadiu minha alma, meu coração, minhas memórias. Invadiu minha mente. E saiu pelos meus olhos e pela minha garganta. Em forma de lágrimas e desespero. Minhas pernas amoleceram e aí parecia que eu já não mandava mais em mim. O que, pensando agora, era óbvio, tamanho o estrago do qual eu havia sido capaz de fazer. Eu fodi tudo, se vocês querem saber. EU FODI TUDO. Eu só sei que fui parar no chão. Meu corpo se desligou. Não aguentou mais. Quis descanso, quis parar nem que fosse por um curto espaço de tempo. E eu caí no chão e ali fiquei. A minha garganta produzia barulhos em sua máxima capacidade. E eu berrava e esperneava, como uma criança de alguns meses de idade em busca de um seio. Em busca da fonte da vida, essa porra. Esperneei. Batia as pernas, me debatia pelos cantos. Produzia todo tipo de dor pelas paredes. Rebatendo e voltando e re-rebatendo. Mas agora eu me arrastava por aí. O fundo do poço em forma de adeus, se é que vocês me entendem. E pensando bem ela estava certa e pensando bem o fundo do poço não me era tão estranho assim.

 

Eu me arrastava por aí. Pra minha sorte, eu ainda tinha um pouco de força nos braços. A mão roxa. Uma bola perto do dedo mindinho. E talvez ela estivesse quebrada, como o meu espírito. Me arrastei por alguns segundos até conseguir entrar embaixo da porta do meu armário. Já que eu causei o estrago, eu que me aproveite da minha obra de arte, a minha obra-prima. O nome desse retrato é O IMBECIL. Aplausos pra mim. Consegui chegar e aquele lugar me parecia vivo. Nada além de uns trinta centímetros de espaço ao meu redor. Só eu e mais nada, como vai ser daqui pra frente. Mas aquele lugar me parecia confortável e pronto pra mim e pronto pra o que eu tinha pra dar pra ele. Era como se a gente se entendesse. E eu senti um calor tomar conta das minhas entranhas. Eu senti o abraço da minha mãe, a voz suave da minha avó, de que sinto tanta falta. Senti o gosto salgado das lágrimas que se espalhavam pelo meu rosto. E elas me alimentavam para que o ciclo de destruição continuasse. Eu estava exausto. Era o meu limite. Eu só chorava, com as mãos no rosto, incapaz de encarar o mundo à minha frente. Quanto mais encarar o meu próprio reflexo no espelho. Não era pra mim. Simplesmente não era pra mim. E talvez não fosse pra ninguém e esse era o motivo de eu estar ali, embaixo da porta do meu armário que eu mesmo derrubei.

 

Mas a dor passou por alguns segundos ou minutos ou horas. Não sei quanto tempo se passou desde que eu entrei ali. Mas a dor passou. As lágrimas se esgotaram, a minha garganta se calou. E o silêncio reinou absoluto. Sem ninguém em seu caminho. Eu ouvia o meu coração batendo desesperado. Talvez quisesse me mostrar que ainda existia vida ali e que eu estava vivo e que ia ficar tudo bem. Ele sempre me entendeu, apesar de tudo. Eu nunca o entendi, mas ele sempre me entendeu. É uma relação desigual, confesso. O tempo passou rápido e não sei se passou realmente, mas eu senti que passou. E talvez agora eu estivesse pronto pra me levantar e talvez eu estivesse pronto pra deixar aquilo pra trás. E foi o que eu fiz.

 

Me levantei, sentei na cama, levei as mãos à cabeça, que latejava. Ela batia mais rápido que o meu coração. E uma infinidade de pensamentos tão pesados quanto eu posso ser me invadiu e tomou conta das minhas sinapses e dos meus reflexos. E eu fiquei ali, pensando. Em tudo o que fiz ou deixei de fazer, tudo o que ela fez ou deixou de fazer, os meus erros e acertos, o que eu perdi e o que eu ganhei, o que nunca mais vai voltar e o que eu nunca queria que tivesse ido. Uma dualidade de ideias e desejos que nunca passava e me fazia não caber em mim mesmo. Minha mente, agora, era muito maior do que eu. Ela precisava de muito mais do que eu era capaz de oferecer a ela, do que a minha inteligência era capaz de produzir. Eu sou uma plateia difícil, com um péssimo senso de humor e uma vontade de não rir das merdas e bobeirinhas da vida. Muito engraçado, olhe só, como eu estou morrendo de rir. Você não vai tirar nada de mim, vida desgraçada. Dor filha da puta.

 

Cerrei meus punhos e me bati bem forte e bem na têmpora. Mas ainda assim eu não consegui sentir nada. E agora o sangue escorria de leve pelos meus dedos. Outro sinal de que, sim, eu estava vivo. Graças a Deus e a Alá e a Krishna e a Ogum e a todo mundo que pudesse me abençoar naquele momento. Eu preciso de ajuda, vocês não entendem? Qualquer tipo de ajuda. Qualquer um. Mas aquele soco que eu nunca levei não adiantou de nada. Os pensamentos continuavam ali. E eu começava a me acostumar com a ideia de que precisaria conviver com eles de alguma forma. Talvez eu os lavasse com cerveja e com as lágrimas e lubrificações de outras mulheres. Talvez eles só continuassem lá, esperando que eu me sente a bater à máquina ouvindo Bach como o velho Bukowski ou descarregando minha mão direita na porta do meu armário como o velho Vito. Velho Vito. Velho Velho Velho Vito. Pobre Vito, pobrezinho.

 

Cada vez que eu puxava o ar, um dos meus pensamentos escapava. A dor, a morte, a insegurança, a incerteza, o futuro, o amor, o desperdício, a vida, o desejo, a pica, os dezoito, a beleza, o sorriso, o cabelo, os olhos, as curvas, os gemidos, os clamores, as vontades, as indiferenças. Cada vez que eu respirava, uma parte de tudo isso ia embora.

 

E eu me despedia, num vai e vem de mão lento e doído. E como doía. O olhar baixo. Não querendo acreditar. Eu me despedia de tudo isso. Eu me despedia dela. Aquilo não me fazia muito bem, mas era preciso. O processo de adeus precisava começar imediatamente, mesmo eu não estando preparado para ele. Apaguei as fotos, apesar das memórias continuarem mais vivas do que nunca, refletindo nos meus olhos, mantendo-os cada vez mais fechados. Eu nunca consegui abrir meus olhos. E, mesmo que consiga, agora era tarde demais. Mais um pensamento chegou e foi embora. E eu fechei as mãos mais uma vez e joguei mais duas vezes na porta do armário que restava em pé. Ela caiu direto. Bateu no chão, foi à lona, como eu. Direita, esquerda, jab, direto. Pendulando de lá pra cá, eu era imbatível. Peso-superpesado, campeão mundial. Um monstro, um assassino, babando sangue e querendo mais. EU QUERO MAIS. EU NUNCA PARO. VOCÊS NEM IMAGINAM O QUÃO LONGE EU SOU CAPAZ DE IR.

 

E agora minha mão estava quebrada, com certeza. Não me perguntem como eu posso ter tanta certeza assim. O osso estava pra fora e isso é tudo que eu posso dizer. O osso estava pra fora. Aquilo era um indício claro do fim. De lá, não dava pra passar. Meu corpo bateu no fundo do fundo e não tinha como ir mais longe do que aquilo. Mais umas lágrimas vieram, junto com a vergonha. E eu pedi perdão pra mim mesmo, sem conseguir me olhar no olho. Mas eu pedi perdão. O horror da vergonha é um sentimento que homem nenhum deveria sentir. Ao menos homem nenhum como eu. Um bom homem, apesar dos pesares e das presas e da pressa pro fim.

 

Abri a porta do quarto novamente e eu acho que flagrei uns olhares assustados pelos cantos. As pessoas comentavam com a mão na frente da boca, falando baixinho. Eu era uma espécie de monstro. Um repelente das coisas boas da vida, fadado ao próprio buraco, de onde eu nunca deveria ter saído. Abaixei a cabeça e tentei me concentrar na minha própria merda, que foi o que eu sempre tive. O chororô estava de volta. O blá-blá-blá também. E o mi-mi-mi. E a dozinha de mim mesmo. Eu pagava as minhas contas e não devia nada a ninguém, mas dormia com uma chupeta na boca, acordando no meio da noite com a fralda toda molhada. Mas ninguém queria brincar comigo. Eu tinha o parquinho todo pra mim, mas não achava graça nenhuma nisso.

 

Fui pro banheiro, enfaixei a minha mão, que por incrível que pareça nada doía. Pensei ter escutado o telefone tocar. Pensei que fosse ela, dizendo que estava errada. Tirei o telefone do gancho e ele nem chamava. Na verdade, o telefone nem existia. Ele nunca existiu. E ele nunca fez falta. Até agora. Terminei de enfaixar minha mão e parecia ser um curativo bem resistente e confiável. Não permanente, com certeza. Amanhã a ferida estaria aberta novamente. E depois de amanhã. E depois, depois. E depois, depois, depois. Mas, até lá, o curativo ia servir. Abri a porta pela qual ela saiu e fui pra rua. A pureza da noite brilhava pela cidade. Os postes de luz não estavam acesos. Eu não conseguia enxergar meus próprios passos. Nunca soube o que aconteceu depois dali. Perguntei pro vazio e ele ainda não me respondeu.

 

 


Conheça o começo dessa história, desse amor em “O soco que eu nunca levei”, clicando aqui.


 

 

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