O voo inútil das gaivotas

Pai,

Estou aqui sentado num banquinho na beira do rio e observo as gaivotas. Elas me parecem um pouco idiotas e ranzinzas. O rio parece limpo, mas está cheio de merda. Toda vez que uma gaivota entra nele penso nisso – cocô. Um dia, quem sabe, as pessoas entenderão que precisamos ter uma relação harmoniosa com a natureza. “A fossa aqui é boa, grande e não enche tanto porque o terreno é inclinado”, foi o que o sujeito me disse, sem saber que aquela merda toda penetra no solo e contamina o lençol freático. O peixe frito, o macarrão Renata com molho de tomate envenenado e a cerveja Schin voltam pela água. Como dizem, nada se perde, tudo se transforma. As gaivotas brigam entre elas, são tão estúpidas que lutam pelo mesmo peixe, sendo que há outros jogados por pescadores a dois metros delas. Só o urubu que é esperto e fica em cima de um galho observando o frenesi coletivo, e depois desce e devora tranquilamente alguns restos, sem ser perturbado. Aqui tem um tal de vento sul que deixa as pessoas loucas. É um tabu falar sobre, mas muita gente se suicida nessa ilha. É como se a beleza das matas fechadas também trouxesse um pouco de desespero. Escutei a mulher dizendo no ônibus que acreditava que seu filho de quatro anos era psicopata. Ela também não estava bem, pois disse que estava com depressão. Ela disse que passava o dia mordendo o filho e o filho mordendo ela, mostrou os braços todos marcados pelos dentes do garoto. Talvez seja o vento sul ou o fato de ela ter apanhado do ex-marido por dez anos seguidos. O que acontece com a gente, pai? Espancar a pessoa que deveríamos amar. Matar em nome de uma falsa sensação de amor e achar que somos donos das pessoas. É cruel demais. A sensação que tive agora é de querer voar com as gaivotas estúpidas e mergulhar até o fundo do mar. Quem sabe não trago no bico uma sacolinha do mercado Fort ou uma embalagem de bolacha recheada.

***

A sensação que dá é a mesma de quando você tá no meio da favela comprando fumo. Mas é apenas peixe. Peixes fresquinhos que tinham acabado de chegar às 8 da manhã. A lei protege os grandes comerciantes. O pescador não pode mais vender seus peixes diretamente para a pessoa ou para os restaurantes, ele é obrigado a submeter o seu trabalho ao valor que os donos das peixarias querem pagar. Se o sujeito, que nunca vai ao mar, diz que o quilo vale um real, o pescador abaixa a cabeça e vende o trabalho inteiro de uma madrugada por 100 reais. Isso num dia bom de pesca. Eu voltei da praia com quinze paratis e dois espadas por módicos 15 reais e a sensação da ilegalidade. Se algum fiscal aparecesse por ali, não sei o que poderia acontecer. Talvez o enterrássemos junto às cabeças de peixes e, algum dia, quem sabe, alguém sentiria falta do sujeito. Mas até ai ninguém saberia de nada, os pescadores continuariam ali sentados com suas Kaisers na mão e olhando o pôr do sol. Aliás, precisa ver como é lindo o pôr do sol aqui. A gente sentado num banquinho de madeira, olhando o nada, pensando no nada, sabendo apenas que o fiscal tá ali enterrado. Um segredo só nosso.

***

Mãe,

Como pode ver, estou bem. Vê os barcos ao fundo? Todas as noites eles passam a rede no mar e às 5 da manhã eles aportam na praia trazendo peixes e toda espécie de lixo que vem junto nas redes. Precisa ver. Outro dia tinha uma embalagem de algum produto chinês. A gente pode comprar os peixes direto com eles, se acordarmos cedo, claro. Mas logo mais isso será inviável também. A prefeitura de Florianópolis quer proibir essa prática, dizem que higiênico mesmo são apenas os produtos das grandes indústrias pesqueiras. Logo mais vão algemar os pescadores artesanais mesmo antes de a tarrafa cair na água. Talvez eu deixe a barba chegar no peito e vire um pescador e vou preso. Mas não se preocupe. Os óculos escuros não posso tirar. Meus olhos sangram porque lembro que os pescadores da foz do rio Doce no Espírito Santo não terão bons anos de pesca pela frente. A lama desceu rio abaixo e levou junto nossa esperança no que chamamos de progresso. A Samarco explora o solo atrás de minério de ferro para vender pra China. Esse mesmo país de onde veio a embalagem estranha. Meus olhos também sangram por aqueles meninos cariocas que foram fuzilados por policiais. Não posso tirar os óculos, minha vista também dói quando vejo as imagens dos alunos sendo presos. Eles estão bem fodidos, não acha? Escolas tão sucateadas quanto a vida precária nas periferias do país. É por isso que eu vou à noite para a praia, principalmente em dia de céu aberto. Precisa ver que coisa linda que é a luz refletindo na água. É perfeito como aquele álbum que o João Gilberto gravou com o Stan Getz. Parece que os barcos estão flutuando. Mas eles estão lá tirando peixes e embalagens chinesas do mar. É tudo muito lindo.

Com afeto,
Luiz Miller, Ponta das Canas, num verão qualquer.

Créditos da imagem: Joseph Brüggemann
Nome da obra: Vista de Desterro (Florianópolis), em 1867.
Disponível em: http://masp.art.br

Comentário