O voo

Ele nunca quis ser rico, mas um dinheirinho a mais seria interessante… Toda semana, era loteria e mais loteria. Preenchia números, escolhia times de futebol que deveriam ganhar ou empatar no fim de semana, mas não dava sorte. E, como não dava sorte, não realizava seu sonho, que era voar, voar, voar, voar em seu avião.

Não, nunca tinha entrado em um avião, afinal, a vida difícil não o permitia. Trabalhava na mercearia do bairro e se sustentava, mas mal sobrava para que pudesse conseguir o material que possibilitasse fomentar sua coleção. Tinha modelos que fazia com sucata: helicópteros, jatos de todos os tipos e países, modelos antigos e novos, de 14 Bis aos foguetes ultrassônicos, de uma réplica em miniatura do que imaginou que seria o balão de Júlio Verne, a desenhos de todas as naves da série “Jornada nas Estrelas”. Voar, voar, voar… Esse sonho o movia.

Quando criança, gostava de observar pássaros diversos e a forma de cada um levantar voo, de plainar, de dar rasantes e pousar. Na Biblioteca Municipal, procurava histórias e estórias que falassem do sonho pelo voo. Foi lá que, enquanto seus amigos jogavam bola ou soltavam pipa, conheceu o sonho de Ícaro, estudou os astronautas, se lambuzou com os relatos das principais batalhas aéreas, se entristeceu com o suicídio de Santos Dumont, se entusiasmou com os projetos de Leonardo Da Vinci. Da biblioteca, às vezes, caminhava até o aeroporto, onde sonhava ser um dos executivos que embarcavam para qualquer lugar.

Ganhou o apelido de lixeirinho, porque era no lixo que conseguia material para fazer seus aeroplanos, foguetes e balões. De caixa de ovo, de pote de iogurte, de papelão e até de cascas de frutas. Desenvolveu uma capacidade, desde a infância, de projetar miniaturas que até lhe disseram: um dia ele seria um engenheiro. E ele voava, voava, voava em sonhos e pensamentos.

Naquela semana, foi demitido. O dono do mercadinho explicou que a situação estava difícil, que não dava para competir com as redes de supermercados, que estava triste por ter que despedi-lo. Até que não se importou tanto. Com o dinheiro do FGTS poderia comprar um daqueles kits de aviões com peças similares às verdadeiras, poderia ter um aeroplano com controle remoto, poderia brincar de fazer voar, voar, voar e se imaginar pequeno, lá dentro do aeroplano, voando, voando, voando.

E assim pensava, enquanto aguardava na fila da loteca. Os números na mão: 06, 08, 24, 30, 45, 50. Eram os mesmos que jogava havia anos e nunca saíram juntos. Os números na mão, a cabeça no dinheirinho do FGTS que receberia em alguns dias e que era pouco, mas que daria para ter seu modelo com controle remoto e, de repente, voou, voou, voou… Sangue no chão, ninguém viu de onde veio a bala que – perdida – chegou voando, voando, voando.

No sorteio da loteria, naquela semana, o locutor anunciou os números premiados: 06, 08, 24, 30, 45, 50. O prêmio acumulou, porque não houve vencedor.

 

Imagem: tela “A queda de Ícaro” (1635-1637), de Jacob Peter Gowy

Um comentário para “O voo”

  1. Luiza

    Perfeito senão trágico.

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