Olhar ao redor e cantar a alforria

Não se pode calcular a emoção de Neil Armstrong e Edwin Aldrin ao pisarem pela primeira vez em solo lunar. Quantas crianças não desejaram – após aquele 20 de julho de 1969 – deixar a órbita terrestre, em um foguete, para aterrissar em algum planeta desconhecido.

A viagem dos astronautas foi fascinante e incomparável, mas gostaria de compartilhar com você o resultado de uma outra viagem, iniciada em uma EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) do Jardim Taboão, localizada na divisa entre os municípios de São Paulo e Taboão da Serra.

O ano de 2004 foi marcado pelas comemorações dos 450 anos da fundação de São Paulo e os professores da EMEF do Jardim Taboão optaram por um planejamento pedagógico voltado para a realidade mais próxima dos alunos: o bairro. Depois, em um olhar mais amplo, o espaço geográfico onde habitam milhares de pessoas: a cidade.

Os alunos do ensino fundamental estudavam à tarde e, apesar de a escola ser pequena, o maior obstáculo seria sair com um grupo de cerca de trezentos e cinqüenta alunos pelas ruas do bairro.

A primeira incursão foi pelas ruas ao redor da escola. Embora seja estranha a palavra incursão, o que os professores constataram é que grande parte dos alunos não conhecia o bairro onde vivia e, muito menos, o bairro vizinho: a sensação era de que estavam pisando em solo lunar.

Foi com olhares de descoberta que souberam da existência de uma piscina, de uma sala de ginástica, enfim, de um centro de lazer e esportes mantido pela prefeitura. Todos ficaram surpresos e, depois das explicações das pessoas responsáveis pelo centro, os garotos disseram que trariam fotos e os documentos necessários para usufruir do espaço o mais rápido possível.

Em outra oportunidade, desbravaram um campo de futebol do bairro vizinho, onde funciona uma escolinha de futebol para meninos (e, se não me engano, para meninas, também), que era freqüentado por jogadores profissionais veteranos, conforme anunciavam as fotos nas paredes da sede.

Os olhos brilhavam e, de repente, os alunos foram desafiados para uma partida de xadrez coletiva. De um lado, quinze alunos e, do outro, um rapaz que ensinava os movimentos das peças e as jogadas para todos que quisessem aprender.

Depois do jogo, voltaram à escola, mas tomaram outro rumo. Assim, passaram em frente à biblioteca pública (que eles também não conheciam) e o pôr-do-sol deu fim àquele dia de andanças e leituras, dia de uma aula de geografia feita de pés e mãos.

Outro passeio foi agendado, tendo como destino um shopping, onde uma palestra sobre as viagens de uma família de aventureiros apresentaria parte da América do Sul aos estudantes.

Um garoto de doze ou treze anos discorreu sobre uma região que fica no extremo sul do continente americano, que abarca a parte sul do Chile e da Argentina, incluindo os Andes: a Patagônia.

Os alunos se maravilharam com as imagens exibidas em um telão e, para muitos (que não conheciam os arredores do próprio bairro), a vastidão de parte do continente não parecia maior que a distância social entre eles e a cidade de São Paulo.

No caminho de volta, resolveram passar entre os barracos (da favela onde os alunos moravam) e, debaixo do maior pé d’água, caminharam por becos e vielas juntos. O professor de geografia arriscou alguns versos de uma canção de Jorge Ben Jor: “Chove chuva/ Chove sem parar…”. Como um canto de alforria.

Quando alunos e professores chegaram à escola, um dos alunos disse a um dos professores: “Foi o melhor passeio da minha vida”!.

Foi assim que descobri que a lua fica bem aqui.

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