Olhos de vidro não derramam lágrimas

 

— Fode, me fode gostoso… isso… me fode como uma cadela no cio… ah… assim… enfia esse cacete todo em mim… ah… que delícia… hum… assim eu vou gozar… vai… me fode.

 

Era assim todas as noites de Gisele desde que conhecera Rodrigo numa quermesse da Vila Mangalot. Depois do gozo, ela olhou bem em seus olhos e disse que o amava. Rodrigo nem respondeu. Apenas ficou com aqueles olhos arregalados, de um azul profundo e brilhante, mirando o nada.

— Diz que me ama – implorou, quase derramando lágrimas.

— …

— Faz quatro meses que a gente se conhece e nenhuma palavra de carinho. Nada! Nem um bom-dia, meu amor. Não sei, tô me sentindo usada. Sexo, apenas sexo, é o que você faz.

— …

Rodrigo continuou com os grandes olhos arregalados e com seu cacete eternamente ereto, ambos mirando o teto. Tinha uma barriga saliente e excesso de pelos. Gisele gostava dos pelos, não ligava para a grande quantidade, e acariciava Rodrigo sempre que podia. Achava-o fofo e meigo. Quando viu Rodrigo pela primeira vez, seus pequenos olhos de passarinho se iluminaram, pensou “é esse que eu quero”. E foi atrás de seu objetivo, porque percebeu que dependia dela essa aproximação.

A princípio Rodrigo ficou paradão, sentado dentro da barraca de pescaria da quermesse. A luz da fogueira e dos fogos de artifício refletiram em seus olhos azuis. “Lindos”, suspirou Gisele solitária no meio da multidão de sorrisos, à base de quentão. Ela olhou para toda aquela gente, casais e mais casais felizes. Benhê, eu quero uma maçã do amor. Benhê, ganha pra mim aquele kit de maquiagem. Oh, o grande amor! E Gisele sentiu-se cada vez pior. Nem se lembrou da última vez em que um homem disse o quanto ela era linda. Não que fosse. Gisele tinha pouca bunda e cintura quadrada, o que lhe conferia um aspecto de rã. Seu rosto não era feio, apenas comum. Seu sorriso, sim, era bonito e sempre elogiado nas rodas de amigos e no trabalho.

— Lembra o que fiz para te conquistar?

— …

— Gastei cem reais em fichas de pescaria só para ter você ao meu lado. E agora já não sei mais se sinto algo por você.

— …

— Ah! Que se dane. Vem aqui me foder de novo.

Gisele o agarrou pela cintura e fez com seu membro de vinte centímetros a penetrasse até o fundo da vagina. Ela gostava de sentir todo o poder do cacete de Rodrigo. Ah! Os grandes olhos de azuis dele.

— Vai, meu amor! Me fode assim.

— …

— Adoro quando você enfia essa pica enorme na minha bocetinha.

— …

— Olha pra mim e diz que me ama.

— …

Rodrigo e seus olhos azuis arregalados. Não sussurrou nem uma palavra sequer em seu ouvido carente. Apenas fodeu, como todas as noites, desde o primeiro encontro.

— Seu animal. Me faz gozar – segurou mais forte na cintura de Rodrigo, ajudando-o em cada penetração.

— …

Depois da pescaria e feliz com sua conquista, Gisele levou Rodrigo para dar uma volta pela cidade, queria que ele conhecesse seu universo. “Aqui é onde trabalho, aqui eu corto cabelo, aqui mora minha amiga Mariana, aqui, aqui, aqui”, falou incessantemente. Ele ficou sentado no banco do passageiro, com os olhos fixos no para-brisa. Gisele parou de falar e deu-lhe um beijo na boca, no pescoço e em outras partes do corpo. Disse o quanto era lindo, que desde que o vira sabia que ele seria o grande amor da vida dela. Não estranhou seu comportamento um tanto calado. Pensou que decerto seria um pouco de timidez, que talvez sua atitude de conquistá-lo teria o assustado. “Homens não gostam de mulheres atiradas”, pensou.

— Quando é que você vai me fazer um agrado?

Na primeira noite não dormiram juntos. Gisele queria, mas Rodrigo não estava preparado para o sexo. No dia seguinte tomaram café da manhã juntos. Ele ficou na cadeira observando-a, sem piscar. E os pelos do braço de Gisele se eriçaram. “Que olhar ele tem. Eu fico molhadinha só com esse olhar”, excitou-se. E nesse dia Gisele saiu para o trabalho. Rodrigo não fazia nada da vida. Ela deu-lhe um beijo carinhoso, manchando sua testa com o rubro batom, que levou alguns dias para sair. Saiu prometendo-lhe uma grande surpresa para quando voltasse do trabalho.

— Nunca me levou para jantar, nem deu flores, nada. Ando meio cansada dessa sua falta de atitude.

— …

— Mas você é tão gostoso, que não sinto vontade de me livrar de você.

— …

— Quer comer sua namoradinha de novo?

— …

— Vem!

Na segunda noite Gisele apareceu com uma caixa, embrulhada especialmente para ele. Um papel vermelho e brilhante. Rodrigo observou sem piscar. “Abre”, ela disse. Rodrigo observou sem piscar. “Ah, deixa que eu abro. Estou ansiosa mesmo. Desembrulhou o pacote e de dentro dele tirou um cacete enorme, cor de pele, e balançou para Rodrigo. Ele observou sem piscar. “Quero que use em mim. Todas as noites. Tá?”. Rodrigo observou sem piscar.

— Ai, que delícia. Adoro você e sua pica grande.

— …

— Assim eu não aguento. Vai… me fode!

— …

Gisele compreendeu aquela falta de sentimentos de Rodrigo. Quatro meses e nenhuma palavra que amortecesse as amarguras de sua vida. Aquela merda de emprego, como gerente de uma grande loja de fast-food e toda aquela padronização dos sorrisos forçados. “Bom-dia! Seu hambúrguer vai sair num instante, meu senhor.” Gisele chegava em casa e satisfazia-se com o grande cacete de Rodrigo. Era sua válvula de escape. Na falta de palavras que aliviassem suas agonias, era no sexo que Rodrigo conseguia tranquilizar a alma perturbada de Gisele.

— Hum… como eu te amo. Diz que me ama, pelo menos uma vez.

— …

Ela o segurou forte pela cintura, fazendo com que ele a penetrasse cada vez mais forte. Sentiu que gozaria novamente e apertou forte sua cabeça. Gisele usou força demais, e o olho direito de Rodrigo saltou. Aquele imenso olho azul de vidro caiu dentro da boca de Gisele, quando estava prestes a soltar mais um gemido do seu profundo gozo. Ela ficou espantada ao ver como ele ficara feio com apenas um olho.

— Urso de pelúcia do caralho!

— …

— Perdi o tesão em você agora.

Gisele desamarrou a grande pica da cintura de Rodrigo. Disse que o amava, mas que agora tinha que se livrar dele. Abriu a janela e o arremessou do décimo quarto andar. A partir daquele momento, decidiu, iria em busca de um homem de verdade, que dissesse coisas lindas em seu ouvido. Rodrigo voou, caolho, apenas mirou o solo e bateu duas vezes caindo próximo à sarjeta, quando Isaura, uma menina de rua de nove anos de idade, o viu.

— Ai, que bonito.

— …

— A partir de agora você vai ser meu. O que você acha de te chamar de Digo?

— …

Isaura caminhou pelas ruas. Estômago vazio e uma sociedade de mil toneladas sobre seu corpo franzino. Digo lhe deu conforto apesar de não proferir palavras.

 

 

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