Os caminhos que partem do absurdo para a poesia

“Ab absurdo” (Patuá, 2015), segundo livro do poeta José Luis Queiroz, é uma obra que prima pela qualidade, tanto na forma como no tratamento dos temas. Do seu primeiro livro, “O cortejo” (Patuá, 2013), restam ainda sombras de uma melancolia fluida, lívida, escancarada por trás de rimas e ritmos que levam o leitor a um embalo transparente e seguro.

Como lembra o prefaciador Renato Dolci, ab absurdo é “parte do absurdo”. Mas partir do absurdo para onde, senão para um torvelinho de encontros e desencontros, plantas isoladas, mulheres inalcançáveis, as máquinas malditas do capitalismo, o sombrio fantasma de Itabira (numa referência a Drummond)? Fitar, sem olhar, o olhar da descrença de um caleidoscópio; esse olhar cego, que se descortina, esse “caleidoscópio andante” põe o olhar do eu-lírico à prova do vazio que o aplaude.

Em “A morsa”, poema em prosa, o eu-lírico grita: “Eu sou mais um de vocês”, referindo-se àqueles que, entre outros gestos, traz “o final feliz” e as “migalhas da ágape”. Poema desesperado, que procura um espelho no leitor. Ele nega a autoria, ele mesmo quer ser um leitor daquilo que escreve, numa atitude solitária e ao mesmo tempo gregária, quando, do desespero, ele se comove.

Em três poemas, a aliteração (repetição de sons consonantais parecidos ou idênticos no início das palavras) provoca um embalo gostoso de ler. Vemos aliterações bem construídas em “Soraia”, “A voz do vento” e “Sombra seca”, do qual, no entanto, se lê ao fim: “Os meus pés mudam de caminho, mas o chão/ é sempre o mesmo/ Aquele solo pleno de crimes, miséria, podridão/ e nojo// A manhã murcha dentro de um elevador e eu/ ainda nem acordei”. A aliteração, no caso, começa firme no início do poema e fecha como exposto acima. Parece que o eu-lírico, ele próprio, se cansa de ser tão musical como no começo.

O poema “Me comovo”, estampado na quarta capa do livro, é bastante tocante e um ponto significativo da obra: “Eu penso visitar o campo de batalha, copular/ com o inimigo, deixar o/ livro fechado, tentar o suicídio […]// sonegar o imposto, derreter/ o busto de bronze, negar e renegar o ser humano.// Mas eu engulo a razão e me comovo.”

É como se tudo estivesse ruim, tudo, mas a poesia salvasse a situação. Em “Céu de finais”, por exemplo, o eu-lírico é um homem saudoso, que se lembra da infância e da adolescência, e não sem um aspecto sombrio.

O livro, com 104 páginas, exibe, na forma, um pouco de tudo: soneto, redondilha, verso livre, aforismo. A poética de Queiroz se enxerga no modernismo (“É praxe! pastiche arlequinal, relax no gris/ arquetipal de alguma fronte bretã”) em “Tupi e eu”. A obra tem, no tema, o fim ao longe, como ocorre em “O cortejo”, que é um grupo de pessoas que não chega nunca.

Aqui, tudo é motivo para um olhar poético, não importa a imensidão ou a pequenez de cada coisa. Há uma pincelada de olhar para o natural, mas este é sufocado pela metrópole: o desespero de uma rosa sem abelha (“Primavera”), uma “rosa árida, ávida, sem jardim”. É como em “Xaxim”: a solidão do homem na metrópole que cria uma planta em casa, como forma desesperada de se resgatar na essência da natureza impossível. Em “Mescla”: “Ela é uma mescla de flores com asas de borboleta”, um aforismo em que a beleza invade o livro melancólico por um viés de sonho.

“Quinta estação” é um poema pulsante, que se dirige a uma mulher a partir de elementos da natureza, o que provoca empatia no leitor logo de cara. O eu-lírico diz aguardar a quinta estação, porque mesmo o calor do verão, assim como as características das outras estações, são insuficientes para derramar todas as metáforas e reclamar todas as delícias de um momento novo.

Disso tudo, o que se depreende é que José Luis Queiroz é um exímio poeta da contemporaneidade. Suas cicatrizes são pós-modernas, e ele as exibe num desfile infinito. Ao fim da obra, surge o impulso de uma nova leitura e de novas descobertas.

Destacando-se com certa estranheza da obra, “João Beatle e Maria Stone” repassa características individuais de um casal new-hippie, “Estranho casal que se comenta, uma queda de braço niquenta, como anônimo showbiz”, e é o poema mais longo do livro. Sem se repetir, sempre agregando novos elementos às personalidades de cada um dos dois, mostra que o casal é mesmo interessante, e a gente se pergunta: “Onde haverá um casal assim?”.

É o caminho das listas na obra de José Luis Queiroz. O longo poema sobre o casal é cheio de detalhes. Assim, também, eis o que se pode considerar como o poema mais louco e lindo do livro: lá vai o poeta em sua biga, no poema que dá título ao livro, o primeiro. Um grande impacto, no início, depois a fluidez das palavras. Na repetição “e lá vou eu, de novo…” (a cada momento muda o meio de transporte – carruagem, patinete etc.) é um enroscamento muito bem rimado que espera de novo a repetição: com que ele vai desta vez?

O olhar melancólico do poeta envolve o leitor com uma precisão composicional, tornando a leitura quase agônica: eu quero chegar ao fim do livro, mas o livro não deixa.

 

Leia o poema “Ab Absurdo”:

Lá vou eu, de novo, com a minha carruagem.
Lá vou eu, de novo, com a minha caravela!
Minha espaçonave, minha pouca bagagem,
meu rumo torto, a fortaleza sem sentinela.
Adeus, sisudo amigo, ao qual me oponho:
não pela realidade que de ti emana,
não pela crueldade do que resta do sonho;
mas sim pelo cronograma, que nos engana
com o divã e o devir, esse fruto inconho.
Cansado e sem pedra, estou agonizante,
na via-crúcis atirado, como canino dejeto;
Tudo aqui exala o odor da lei de antes.
Vejo me queimarem como bruxo insurrecto!
Lá vou eu, de novo, com as minhas bigas!
Lá vou eu, de novo, movido a vapor
Com meu bólido de estranhas cantigas,
minha eterna palavra sem vigor.
Adeus, circunspecto amigo: que ri!
dos delírios que me vestem de jogral
das facetas da mentalidade zumbi
da frouxa catapulta que atira o meu punhal!
Exausto, definho, acreditando no mundo.
Em minha mente Conscientia fraudis lateja!
Dissimulo em frente ao espelho, moribundo,
e das abnegadas hienas eu tenho inveja.
Lá vou eu, de novo, com os meus patinetes!
Lá vou eu, de novo, com a minha galera
Minha cortina apeada, minhas marionetes,
a chave do meu planeta sem atmosfera
Adeus, sorumbático amigo, ser ocioso!
Não pela vã labuta que nos desanima
Não pela hierarquia, esse dote vicioso,
mas sim pelo cotidiano dos hotéis sem estrelas
e pela glosa divina de um deus criterioso!
Fatigado, vejo o meu depauperamento:
Físico, engordo – Mental, eu emagreço!
É tísico o meandro desse agônico momento
Esvai-se o oxigênio – Eu não mereço!
Lá vou eu, de novo, com o meu bonde
Lá vou eu, de novo, com a minha liteira
Com a minha sequoia, sem raiz ou fronde
que nunca dá sombra, frutos, madeira…
Adeus, macambúzio amigo, ao qual inquiro:
– Será inocente a pretensão de raciocínio?
O que para alguns sugere dentada de vampiro,
para outros é nada mais que rotineiro latrocínio.
Abatido, uma nova ordem aqui instauro:
“Devo ir na máquina do tempo, à Da Vinci,
e compreender porque voava o pterossauro
e esse homem não ergue voo com igual requinte.”
Lá vou eu, de novo, com o meu jirinquixá
Lá vou eu, de novo, com meu carro de boi
Rudimentares rodas rangem um doce ré-mi-fá:
– Meu pai foi rei – Foi! – Não foi! Foi! – Não Foi”

Sem título

Livro: “Ab absurdo” (Patuá, 2016, 104 páginas)

Autor: José Luis Queiroz

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Créditos da imagem: Divulgação

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