Ouça o eco do mundo

No transporte público muito se pode ver, ouvir e pensar. Ao embarcar em um ônibus, no metrô ou no trem, preste bem atenção: a vida dá muitos elementos para transformar em poesia. Um homem vendendo balas, uma senhora levando o neto para a escola. Uma moça que perde o ponto, outra que chora por uma desilusão amorosa. Lirismo do cotidiano, a vida ordinária vertida em poesia.

Eis me pego lendo “Veias em Versos”, da escritora e jornalista Goimar Dantas. E ela faz exatamente isso: alegria, tristeza, amor e conflito, os mais variados sentimentos e situações são sementes para seus poemas. O simples atravessar de uma rua da capital paulista, ao lado de seu filho, deu origem ao poema “Sina” (que integra a obra, editada pela Penalux). “Uma atividade banalíssima, mas que, naquele momento, não me impedia de pensar, horrorizada, nas tragédias noticiadas nos jornais do dia”, diz ela.

Já “Mau Tempo”, que enaltece a dor cotidiana, foi escrito num dia de revolta e descrença. “Foi dolorido, mas não foi em vão. Sofreria tudo aquilo de novo só para que o poema existisse”, completa Goimar.

Para ela, os poemas são uma abstração que, de repente, se concretiza ao conseguir abrigo no coração do leitor.

Lançado recentemente, “Veias em Versos” reúne 68 poemas, escritos de 1992 a 2004. Cheios de memórias, os versos de Goimar nos transportam para tempos da infância, cujas alegrias e dificuldades são expressas de forma pulsante. Mas, embora com viés memorialista, seu texto também nos leva a pensar nas agruras e as vivacidades do mundo contemporâneo.

Uma escrita paradoxalmente atemporal, que pode ser lida a qualquer tempo e momento. Para quem tem pouca intimidade com poesia, essa obra pode ser o começo ideal. Goimar tem todas as melhores referências, de Paulo Leminski a Carlos Drummond de Drummond, de Guimarães Rosa a João Cabral de Melo Neto e Gabriel García Márquez.

Por isso, e apesar disso, sua poesia é palatável mesmo para quem nunca leu qualquer um desses autores ou não tem muita referência poética. É certo que mergulhará nessas linhas com prazer.

Brincadeira com palavras

“É da natureza do poeta brincar com as palavras, lapidá-las, lustrá-las, extraindo delas as sujeiras, excessos, pó, lama e tudo o que possa torná-las obscuras, gordurosas, inacessíveis em sua beleza essencial”, reflete Goimar. Essa natureza do poeta é experimentada em seu “Veias em Versos”. Aliás, por que o livro tem esse nome? “Gosto de metaforizar esse trajeto: versos correndo pelas minhas veias e desaguando nos oceanos da minha cabeça e do meu coração”.

Talvez fazer poesia seja mesmo um exercício de escuta: ouvir o eco do mundo, como diz ela em “Sina”: “E mesmo sozinho / no poço sem fundo / o poeta ouve / o eco do mundo”.

Na entrevista a seguir, ela fala sobre o ofício do poeta, seu processo de criação e sobre a importância desse gênero literário que tanto merece ser cultivado, especialmente, a produção brasileira, que fica esquecida no fundo das livrarias.

 

 

Jornalirismo – Na letra “Metáfora”, de Gilberto Gil, o poeta faz com que numa lata caiba o incabível. Você acha que o ofício do poeta é esse? Em que medida o seu trabalho em “Veias em Versos” consegue fazer com o que o intangível seja “tangível” ou mais palpável?

Goimar Dantas – Gil é um dos maiores especialistas em inserir o mundo (a princípio, tão infinitamente incabível onde quer que seja) em latas-frases, latas-versos, latas-estrofes. O ofício de todo poeta – portanto, Gilberto Gil incluso – é expressar-se como bem entende, da forma que lhe for mais cara e lhe trouxer alegria genuína. Para isso, utiliza os recursos e as ferramentas de que dispõe. É de sua natureza brincar com as palavras, lapidá-las, lustrá-las, extraindo delas as sujeiras, excessos, pó, lama e tudo o que possa torná-las obscuras, gordurosas, inacessíveis em sua beleza essencial. Quando se consegue esse feito, o poeta estabelece uma ponte entre o particular (composto por sua vida, sua memória, suas experiências) e o universal (que é a vida, a memória e a experiência de todos os leitores). Quando alguém me diz que determinado poema meu o faz chorar ou lembrar de uma pessoa/coisa/paisagem que lhe desperta o sentimento “x” ou “y”, percebo que a brincadeira deu certo. O poema é isso: uma abstração que, de repente, se concretiza ao conseguir abrigo no coração do leitor.

 

Jornalirismo – Escutar o eco do mundo é uma forma de o poeta tangibilizar o intangível?

Goimar Dantas – É falsa a imagem do poeta como um sujeito alheio às coisas do mundo, eremita em sua caverna particular. Por mais que esteja fisicamente sozinho, está sempre tomado pelos anseios, dores e desejos do mundo. A poesia é uma expressão pessoal, mas nem por isso prescinde do outro para existir. Aliás, é dele, do outro, que a poesia geralmente vem, ganha forma, adquire corpo. O poema de amor, por exemplo, surge porque o poeta está tomado pela imagem e pelo desejo contínuo de possuir o outro; já o poema político/social existe porque o poeta está tocado não só pelo seu sofrimento, mas também pela dor de outrem; o poema épico, por sua vez, ganha forma porque o poeta – que, por sinal, não costuma trocar a pena pela espada, ainda assim – se vê comovido pela batalha, feitos e lutas vividos pelos que empunham armas de qualquer espécie. Quando me ocorreu o poema “Sina”, ao qual você se refere (E mesmo sozinho / no poço sem fundo / o poeta ouve / o eco do mundo) estava atravessando a rua para ir ao supermercado com meu filho. Uma atividade banalíssima, mas que, naquele momento, não me impedia de pensar, horrorizada, nas tragédias noticiadas nos jornais do dia.

 

Jornalirismo – Por que a escolha do nome “Veias em Versos”? Seus poemas transmitem uma emoção, uma força e, ao mesmo tempo, uma delicadeza no fino do olhar, no detalhe. O título surge para mostrar essas emoções contidas nos versos?

Goimar Dantas – Desde que, em 1996, escrevi o poema “Veias em Versos”, sabia que ele daria título a um dos meus livros, pois simboliza um sentimento muito presente na minha vida: o de que a cada pulsação, tudo o que vivo, sinto, sofro e experimento serve à causa da poesia e da prosa. Alegria, tristeza, amor e conflitos os mais variados são sementes geradoras de poesia, conto, romance. Gosto de metaforizar esse trajeto: versos correndo pelas minhas veias e desaguando nos oceanos da minha cabeça e do meu coração. Neles, a poesia ganha forma, sai do meu corpo e se materializa. E uma vez que esses textos se unem amparados por capa e contracapa acabam por rumar, como barcos, para mundos desconhecidos, onde irão se aventurar. Cabe ao leitor estipular o destino da criação.

 

Jornalirismo – Como é o processo de criação de um poema? É um processo doloroso, como você reflete em “Mau Tempo”? E o que mudou no seu olhar com relação à poesia de 1992 até hoje?

Goimar Dantas – Não há um único processo de criação propriamente dito. O poema se impõe das maneiras mais diversas. Nunca sentei para escrever um poema sobre isso ou aquilo, assim, de forma predeterminada. Na maioria das vezes, uma palavra, um tema ou uma frase me tomam de assalto e, a partir disso, não há o que fazer. Num primeiro momento, me rendo, paro o que estiver fazendo e esboço algumas linhas com medo de perder aquela sensação semelhante a uma epifania, uma iluminação. É preciso se submeter, se subjugar, se deixar levar por aqueles segundos ou minutos que podem se transformar em dias, meses ou anos de trabalho. Quando escrevo um poema de que gosto muito, sinto que ganhei o dia, o mês, o ano. Nada pode me tirar aquela felicidade. É algo imenso. Escrevi “Mau Tempo” num dia de revolta e descrença. Foi dolorido, mas não foi em vão. Sofreria tudo aquilo de novo só para que o poema existisse. Quanto ao que mudou no meu olhar em relação à minha poesia de 1992 até hoje, penso que é justamente a exigência, a cobrança e a autocrítica excessivas. A maturidade tem suas dores e delícias e a autocrítica é uma dessas dores. No entanto, ela é imprescindível para a qualidade de tudo o que se produz.

 

Jornalirismo – Ao longo do livro, o leitor percebe diversas influências em sua escrita, algumas bem claras, como Leminski, Guimarães Rosa, Drummond, João Cabral de Melo Neto, mas há influências também da poesia concreta, alguns poemas trazem a palavra como organismo vivo, que lembra Mario Chamie. Como é transitar entre várias influências e o que contribui para sua produção?

Goimar Dantas – As influências literárias moldam o trabalho de todos os que têm a escrita como ofício. Antes de escrever profissionalmente, somos todos leitores vorazes, bebendo em fontes as mais variadas. Os textos que tecemos são, portanto, gigantescas colchas de retalhos, mesclando tanto as estampas que são efetivamente nossas, muito singulares, pontuadas, com o que temos de essência e originalidade, quanto as que, de forma consciente ou não, tomamos de empréstimo dos autores que nos formaram. Sem essa contribuição seria impossível encontrar nossa voz, nosso próprio tom, aquele que, com o tempo e a experiência, irá nos distinguir. Aquele momento em que o leitor depara com um texto sem assinatura e arrisca: “Esse texto só pode ser de fulano, ninguém mais escreve desse jeito”. Encontrar essa voz tão distinta é uma dádiva conquistada por poucos, mas é missão de todos seguir se exercitando, cotidianamente, para alcançá-la.

 

Jornalirismo – As referências da sua família, de seu pai, do sertão são bastante fortes. Você acha que, de alguma forma, a criação e a publicação desses poemas apaziguaram sua dor ou sua saudade em relação a seu pai e sua infância?

Goimar Dantas – A saudade é interminável. Impossível deter seu avanço. Já a dor pode se tornar mais amena ao longo do tempo. Procuro transformar saudade e dor em poesia e prosa. O universo mítico da minha infância serve de alimento a boa parte do meu trabalho, que, muitas vezes, não passa de uma tentativa de acessar novamente a menina que fui – e da qual tanto me orgulho. Da mesma maneira, a angústia, a frustração e a melancolia relativas à perda precoce do meu pai, ocorrida de forma tão violenta, também aparece em meus textos na medida em que passo a vida me perguntando: “O que ele acharia desse conto/poema/livro?”, “Como reagiria à minha escrita?”.

 

Jornalirismo – O poema “O leitor” é uma declaração de amor ao ato de ler. O que representa a leitura e a literatura para você?

Goimar Dantas – A leitura e a literatura me salvaram de uma vida miserável (na medida em que a ignorância é a pior miséria de todas). Ler me dá as condições necessárias para aprender, ser criativa, articulada, capaz de argumentar com conhecimento e propriedade; ler me permite viajar sem sair do lugar, amar, chorar, rir, desenvolver empatia pelos personagens – empatia essa que, por sua vez, se estende às pessoas do mundo real. Ler possibilita que eu compreenda mais a mim mesma e aos outros, me permite, portanto, ser alguém melhor. Ler é um prazer do qual jamais abriria mão. Se tivesse que escolher entre ler e escrever, não teria a menor dúvida. Sofreria muitíssimo sem escrever, mas deixar de ler seria a morte.

 

LIVRO: “Veias em Versos” (Editora Penalux, 2016, 108 páginas, R$ 38)
AUTORA: Goimar Dantas
À venda no site da editora, clicando aqui:

Foto da autora: Chris Ceneviva

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