Pato

Manhã ensolarada, parque cheio, um lago com patos, crianças e pais aproveitando o dia e um senhor com migalhas de pão em pequeno saco de papel jogando à beira do lago para os patos e outros pássaros, mas o seu Sylvestre tinha um favorito, o pato Duque. Passava horas a fio observando o pato Duque nessas manhãs, não tinha mais o que fazer, os filhos haviam esquecido sua existência e nem fazia ideia de que tinha netos, também não se perguntava muito disso, entendia que eles têm de seguir em frente e que aquilo que bloqueia o caminho tem de ser deixado para trás, foi assim com seu pai e o pai de seu pai.

Mas, sentia-se só mesmo, apesar de conformado.

— Duque, meu único amigo, como vai você? — conversava com o animal quando não tinha ninguém por perto e deixava os maiores pedaços do pão para o pato.

Duque sempre que o via o recebia de asas abertas e esganiçava de felicidade, gostava do velho também, talvez por uma questão de interesse.

— Sabe Duque, você é meu amigo, mas tenho que confessar que eu sinto muita falta de uma companhia. Entende o que eu quero dizer? Seria tão bom se um dia encontrasse alguém para me fazer companhia no resto do dia, e que me respondesse também coisas além de um “quack”… Sem ofensas, amigo. — o pato não se ofendeu — Bom, já ta dando minha hora. Amanhã eu venho para cá de tarde, tenho um exame do coração para fazer. Talvez eu chegue umas quatro da tarde aqui, não se atrase! Até amanhã.

Duque, simplesmente se afastou em sinal de respeito, pois sabia que Seu Sylvestre respeitava seu espaço e ele retribuía da mesma forma.

Pôr do sol, mais ou menos quatro da tarde do mesmo dia. Alguns ciclistas pedalam pelo parque, maratonistas treinam após um dia de trabalho, e a dona Flora senta-se em um banco à beira de um lago após ter deixado o netinho na casa de sua filha, ficar em casa para ela sozinha é uma loucura, principalmente quando uma criança alegre e brincalhona vai embora e deixa um enorme vazio na casa. Então, ela sempre carrega um saco cheio de pão seco e fica jogando para os patos e pássaros que estão ali, mas um sempre o recebe de asas abertas, coincidentemente ela o chama de Duque, um longo pescoço para um pato, no bico um pequeno detalhe rosado perto dos olhos, e uma cauda com as penas brancas um pouco bagunçadas.

— Cadê o meu pato mais bonzinho? Vem cá eu tenho uma surpresinha aqui que você adora!

O pato esganiça alegremente e passa a cabeça em suas pernas pedindo por carinho e os deliciosos pedaços de pão seco, recebendo longos afagos e horas de conversa.

— Duque, eu gosto muito desse nome, combina com você. Hoje o meu netinho tirou nota dez na prova, sabia? Estou muito orgulhosa dele, depois jogamos um pouco de bolinha de gude, minhas mãos doem um pouco por causa das juntas, mas vale à pena, gosto de brincar com ele, vou ensiná-lo xadrez amanhã, já está mais do que na hora de ele aprender, dez anos já, então ele tem que aprender cedo pra ser mais inteligente ainda e ser um homem bem-sucedido. Espero né, Duque.

O animal respondeu com um “quack” sincero e longo.

— Sabe, Duque eu gosto do meu netinho, da minha filha e de você, mas é complicado toda vez que volto para casa sinto-me tão sozinha, coloco uma música para conseguir dormir, porque o silêncio, como você bem sabe, é horrível para mim, queria mesmo poder ter alguém para conversar horas a fio que me compreendesse, só para ter companhia, desde que o Agenor se foi, que Deus o tenha. Sinto-me sozinha, queria poder vir acompanhada aqui e conversar com você sem parecer uma maluca.

Começou a escurecer e ela já tinha que ir, andava com um spray de pimenta, mas não gostaria de ter que usá-lo, prometeu ao pato Duque que estaria lá no mesmo horário, pontualmente umas quatro da tarde e Duque encostou tombou a cabeça no tornozelo de Dona Flora como um filhote de cachorro. Duque sentia que o carinho era sincero e retribuía na mesma forma.

Seu Sylvestre acordou cedo, pegou o metrô e foi até a clínica, sabia que sairia de lá tarde então já tratou de comprar pão fresco antes de chegar ao local de exame, Dona Flora preparava o café da manhã para ela no exato momento, olhou para o céu da janela de seu quarto dando um bom gole no café preto e sem açúcar, o céu está limpo e o dia quente, nenhuma nuvem no céu.

Dona Flora tirou o bolo de chocolate e deixou esfriando para o seu neto assim que chegasse. O pão do Duque já estava ali separado. Buscou o garoto normalmente, enquanto o Seu Silvestre estava nos últimos minutos de seu eletrocardiograma.

Retornando pelo metrô, prestes a chegar ao parque, ele viu algumas gotas batendo contra a janela do trem. Dona Flora comia o bispo do neto ensinando-o quando escutou o surdo som de um trovão distante, bem distante. Em questão de segundos uma forte torrente de água veio. A energia elétrica acabou na casa de Dona Flora, desta vez a mãe foi buscar o filho com seu carro após o trabalho, mas esperou um pouco tomando café com sua mãe, Seu Sylvestre se arrependeu de não ter pegado seu carro e está preso na estação de metrô esperando a tempestade passar.

O pato Duque se entoca em um mato mais alto perto do lago ao lado do banco para caso algum dos seus amigos apareça.

 

Imagem: pixabay.com

3 comentários para “Pato”

  1. Wanderson Farias

    Narrativa cativante!
    Da solidão individual ao conforto das relações de afetividade o Pato Duque nos ensina que a amizade não é fruto do interesse, mas sim resultado da convivência harmônica e da troca reciproca de amor e bem-querer. Parabéns jovem escritor!

  2. Alexandre

    Alexandre

    Muito obrigado! Me anima em ler seu comentário e que tenha gostado do conto. Agradeço as boas-vindas e espero poder contribuir muito mais para o site.

  3. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Que texto tocante, cujo pato Duque tem a realeza das solidões, bem como cada personagem, cada um ao seu modo, busca preencher os vazios com tantos mais. Eis a vida, uma sucessão de vazios, de preenchimentos, de solidões, de coletivos. Alexandre, seja bem-vindo!

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