Pedido de socorro

As nuvens densas que foram baixando perto da serra escureceram a tarde, antes mesmo de que a Lua iluminasse o céu. Os meteorologistas já sabiam, e Elis já tinha cantado: eram as águas de março fechando o verão.

Enquanto os que estavam nas ruas se puseram a andar em passos curtos e acelerados para não se molharem, os passarinhos trancafiados em uma gaiola da loja de animais se agitavam com a ameaça da água torrencial que cairia em instantes.

Eis que os primeiros pingos, grossos e pesados, começaram a atingir o chão. Em alguns minutos, aquele cheiro de asfalto molhado, misturado com a poeira do asfalto, chegara às narinas de quem ainda corria tentando abrir o guarda-chuva.

Logo começaram os trovões e raios, para assustarem ainda mais os pássaros. O reboar daquele fim de tarde se misturava com o cantar de um sabiá, um canário e uma família de anilhas, que sentiam os pingos d´água na gaiola, ainda exposta na calçada.

Conforme os trovões despencavam, a intensidade do canto, do pedido de socorro, aumentava na mesma proporção. Só depois de os pássaros inquietos se molharem é que o dono da loja se lembrou de retirar a gaiola esquecida na calçada.

Ajeitando a alça do suspensório e o chapéu na cabeça, o velho de cabelos brancos andou, apressadamente, carregando todo o peso da sua barriga equilibrada nas pernas finas e abaixou-se para salvar os pássaros da chuva.

Dentro da loja eles se acalmaram e, antes mesmo de que todas as penas já estivessem secas, puderam observar o arco-íris que rasgava o céu ao fim da chuva.

 

Imagem: agorajoinville.com.br

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