Pelo ralo da banheira

 

Sem querer, ao se ajeitar, com a ponta do dedão esquerdo, ele tirou o tampão da banheira. Imediatamente, a água começou a escorrer, como se soubesse para onde ir e tivesse pressa de chegar.

Um rodamoinho se formou e atraía tudo. Água, espuma, pelos… Tudo saía pelo ralo da banheira.

Ele sentia como se a sua própria alma também estivesse sendo sugada pelo ralo. Parte dela ainda pertencia a seu corpo, enquanto o restante já era esgoto. Consciente dessa divisão momentânea, notou que era tudo a mesma coisa e não fazia diferença.

Esgoto, alma, pelos, espuma, água… era tudo igual. Talvez sempre tivesse sido assim. Mas só naquele momento foi possível perceber o que de alma existe no esgoto humano e o que de esgoto existe na alma humana.

Num golpe rápido e esperto, o ralo levou o último pedacinho da sua alma. Restou apenas o corpo inerte. Nu, sem escrúpulos, sem moral, sem sexo, sem alma… Enfim, como sempre foi, na verdade.

Mas o ralo não parou por aí. Continuou a chamar para dentro de si tudo que havia na banheira. Vupt! Lá se foi uma perna. A outra, também. O tronco, os braços e, por fim, a cabeça, com todos os seus conceitos, preconceitos, ensinamentos e o diabo.

Cabeça, tronco e membros, como numa aula de anatomia, ainda foi possível pensar, antes que tudo virasse, finalmente, esgoto.

Era o fim da aula, da vida. O fim do que deveria ter sido apenas um banho. Um último fio de água ainda escorreu ralo adentro. A limpeza foi completa.

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