Penso, logo…

Célia nasceu na Bahia. Mudou-se para São Paulo há vinte anos, para cursar Psicologia. Única mulher entre os sete filhos de Dona Marina e Seu Camilo, aprendeu desde cedo a lidar com o machismo.

 

Hoje, Célia é uma mulher independente. Tem casa própria. O namorado se mudou para o apartamento dela e virou marido. Com o tempo, algumas coisas na casa começaram a pedir reparo. Célia contatou alguns profissionais e fez orçamentos.

 

Um desses profissionais foi consertar a máquina de lavar, que havia parado. Depois de vê-lo revirar a máquina de cabo a rabo e ouvir o preço que ele cobraria pelo serviço, pediu que lhe esclarecesse o problema a ser resolvido. Irado com a ousadia da cliente de questionar o inquestionável, ele não se conteve.

 

— Fica tranquila, Dona Maria, a senhora não vai ficar sem a sua amiga inseparável.

 

— Ela é minha auxiliar, assim como a da sua casa é para o senhor. Ou o senhor lava suas roupas à mão?

 

O homem, visivelmente irado, ainda perguntou:

 

— Há quanto tempo a senhora trabalha aqui?

 

Sem compreender a pergunta, ela devolveu:

 

— Aqui, onde?

 

— Aqui, nesta casa. A senhora, pelo sotaque, é a doméstica, não?

 

Célia contratou outro profissional, que não se incomodou de explicar a ela exatamente o que faria.

 

No mês seguinte, a psicóloga precisava instalar na cozinha um exaustor sobre o fogão. Quando o funcionário da empresa onde comprou o aparelho começou a instalá-lo, Célia tentou alertá-lo de que, na altura em que ele o estava colocando, o fio do eletrodoméstico não chegaria à tomada.

 

Sem esconder a irritação, o funcionário perguntou se ela era técnica. Antes que ela pudesse responder, emendou com a informação de que trabalhava havia muitos anos com aquilo. Quando o aparelho já estava fixo à parede, não foi possível ligá-lo. O fio não chegou à tomada.

 

Dias depois, Célia e o marido viram um lustre em promoção. Compraram e o estabelecimento colocou à disposição um profissional para instalá-lo. Quando ele chegou a casa, Célia já tinha lido o manual de instalação. O marido dela não tinha paciência para isso. O funcionário ignorou a disponibilidade da mulher, que estava ali na sala, e pediu que ela chamasse o marido para ajudá-lo.

 

Quando os dois homens começaram a montar o lustre, ela os advertiu de que não estavam colocando as peças na ordem correta. Foi ignorada. Até que, quarenta minutos e duas montagens fracassadas depois, eles decidiram seguir as sugestões dela e, em cinco minutos, o trabalho estava feito.

 

Apesar da intimidade com neurônios desde a infância, Célia nunca conseguiu entender essas coisas. Talvez porque seus pensamentos e atitudes se guiem pela lógica e se baseiem em observações livres de autocensura.

 

Tomara que, mesmo em meio à leitura de manuais e afins, ela nunca descubra que, ainda hoje, pensar pode ser perigoso.


*Elizabeth Soares é jornalista e escritora.

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