Plano A, Plano B

Engana-se quem pensa que a responsabilidade é algo único. Existem níveis de responsabilidade que vão muito além de acordar na hora certa e pagar as contas em dia. Responsabilidade é coisa séria. Talvez seja mais sério do que pensamos ser. Por isso continuamos errando. Quando chamados de irresponsáveis, esbravejamos a maior quantidade de impropérios possíveis em um minuto de xingamento. Porém nunca paramos para pensar sobre essa loucura de responsabilidade e seus níveis.

Sejamos sinceros: o ser humano não gosta de se envolver. Por isso vemos pessoas talentosas que vivem no quase. De quase em quase, vão tentando pequenas coisas, esperando que a bola esteja na marca do pênalti, sem goleiro, torcida ou câmeras de TV transmitindo ao vivo. Não basta fugirmos do envolvimento, gostamos de entrar em jogo apenas quando a partida já está ganha. Temos medo da frustração da derrota. Sofremos com a possibilidade do fracasso, por isso não nos envolvemos.

Homens fogem de boas mulheres ao ínfimo sinal de compromisso no ar. Mulheres fogem de bons homens só de pensar em perder seus dias na manicure para fazer um passeio talvez romântico. Vários produtores premiados em curtas-metragens que nunca se arriscam em longas-metragens. Cronistas que não se arriscam em outros estilos de outro fôlego. Nasce cronista, vive cronista, morre cronista, e não deixa de reclamar sobre a falta de oportunidades. Mas o cronista, ao menos, compilou seus melhores escritos e mandou para uma editora? Ou apenas reclama pelo fetiche de abrir a boca? Vai saber.

Reclamar, no Brasil, se transformou em esporte. Reclamar é maior que o futebol. Maior que o vôlei e o basquete. Maior até, veja você, que a humilde bocha. Não nos envolvemos, não nos apaixonamos e esperamos a primeira oportunidade para registrarmos nossos descontentamentos com essa vida ingrata, que privilegia alguns poucos e coloca muitos à margem, unicamente porque existe uma conspiração de emburrecimento coletivo que não reconhece “reais” talentos.

Entre Wesleys Safadões, Chimbinhas, Anittas e Neymares, todos “farsas”, e o resto do mundo, só uma resposta é a correta: o resto do mundo, lógico. Será que o resto do mundo aguentaria a pressão de ter um microfone em mãos e milhares de pessoas esperando para ouvir os novos hits do verão? Ou, então, de viver em um país que, historicamente, demonstra um preconceito com latinos, e ainda conseguir ser eleito um dos três melhores jogadores do mundo? Ou, então, será que o resto do mundo colocaria suas economias financeiras à prova, e, ao lado da ex-mulher e com uma guitarra em mãos, tocaria nas maiores espeluncas do país, antes de vender milhões de discos?

É claro que não! Ninguém iria tão longe. Ninguém gosta de pular em piscinas sem saber se existe água nelas. Ninguém gosta de ter que ligar no dia seguinte e perder o futebol com a galera. Ninguém gosta de ficar horas sentado, escrevendo livros que talvez ninguém lerá. Basta pagar as contas em dia, acordar na hora certa, levar relacionamentos “com a barriga” e pronto! Se ganha o direito de reclamar, criticar e de se colocar em um pedestal de superioridade, apenas porque, segundo seus arcabouços culturais, 99% anjo e 1% vagabundo é a razão pela qual o Brasil não vai pra frente.

Precisamos nos apaixonar mais. Precisamos perder o medo de fracassar. Precisamos gostar de recomeçar após os tombos. Precisamos de um pouco mais de sangue em nossas veias. Precisamos de mais qualidade de vida e menos horas extras. Precisamos de mais sonhos e menos realidades. Precisamos de mais planos A e menos planos B. Se você sempre quis, quando pequeno, ser astronauta, e terminou se transformando em um advogado, talvez você tenha investido demais no plano B, ao invés de gastar todas as suas forças em busca do plano A.

Se você tivesse investido em seu plano A da mesma forma que você investiu em seu plano B, onde será que você estaria agora? Se você tivesse aprendido um idioma quando jovem, tivesse uma mochila, alguns livros e apenas o dinheiro para o café, e tivesse chegado à porta da Nasa, será que você, hoje, estaria em meio a pilhas de processos insossos, casais em caos e ações trabalhistas?

Eu sei a resposta, e você também sabe.

Ainda temos tempo para o plano A.

Basta sermos responsáveis.

Com nós mesmos.

 

Imagem: Arte Jornalirismo sobre imagens de divulgação de Wesley Safadão, Anitta, Neymar e Chimbinha.

Um comentário para “Plano A, Plano B”

  1. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Oi Guilherme, que desabafo incrível! Muita gente guarda para si e você exteriorizou tão bem, com tanto calor. Muitas vezes, a gente até quer realizar os sonhos ou tentou vivê-los, mas não foi da maneira que deveriam ter vivido porque as adversidades nos levaram a ficar mesmo com o Plano B, em geral o mais seguro e que gera menos reclamações. Ou até veio um Plano C, porque os anteriores não eram tão "seguros" assim. Acho que o grande problema é o COMO sonhamos, como planejamos esse sonho. Reclamar, como disse, é fácil. Sonhar, por incrível que pareça, também, mas planejar mesmo, colocá-lo em prática, como será (você até deu exemplos do astronauta e do cronista, que foram excelentes)? Seriam tão somente divagações ou são sonhos verdadeiros mesmo, que dão impulso para a realizações até mais frustrações, erros e a grande descoberta de nossa existência: você descobrir-se HUMANO e FALHO?! O problema é que hoje, as pessoas vivem 99% ilusão (leia-se também perdidos em divagações) e esquecem do 1% de sonho. Parabéns pelo texto e desculpa pelo comentário enorme, mas é que adorei o seu texto! 😀

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