Polícia e ladrão

Deve ter umas trinta crianças. Talvez um pouco menos, mas tem muita criança. Festa em praça é foda. A molecada se espalha, cada um corre para um lado diferente.

Polícia! Não corre, não, vacilão! Mão na cabeça! Vai, porra, mão na cabeça, tá surdo?! Cadê o B.O.? Vai! Anda! Cadê a porra do B.O.?

Vamos lá, gente, tive uma ideia! Vamos começar com polícia e ladrão! Vocês são a polícia e eu, o tio Abacate e a tia Melancia somos os ladrões. Vocês têm que pegar a gente. Um. Dois. Três! Valendo!

Eu tenho uma puta dificuldade pra correr. Mas não tem jeito. Criança gosta de correr. Ainda mais nessa idade. E se eu não correr, eu tô ferrado. A minha vida inteira foi fugindo. De casa, dos inimigos, dos amigos, da polícia, dos bandidos. Eu vivi muito tempo como um rato de esgoto, esperando a hora certa de subir pra rua e procurar comida. Acho que por isso eu não gosto mais de correr. Mas não tem jeito. Eu corro mesmo. É isso, eu sempre corri. Fiz um monte de corre, para mim mesmo e para os meus parceiros. Pelo menos aqueles que eu chamava de parceiros.

De quem é essa porra? Vai! De quem é esse tijolo? Você aí, de bermuda azul, fala. É seu, o tijolo? Fala, porra! Ah, é desse aqui sem camisa?! Qual o seu nome? Eu acho melhor você falar logo porque a situação pode piorar para você. O seu amiguinho já disse que o tijolo é seu, então… Qual o seu nome? Lucio do quê? Lucio da Silva. Quer dizer que não é seu? Ah, você é só o laranja? Entendi. Entra na viatura, então, Laranja. Vamos ter uma conversinha.

Tio Laranja, eu quero fazer xixi. Porra, xixi na praça?! Eu odeio festa em praça por causa disso. Aonde eu vou levar essa menina para fazer xixi? Se é menino, tudo bem, faz em qualquer lugar. Fala que vai regar uma árvore. Foda-se. Agora, menina… Menina é foda. Fala com a Tia Melancia que ela vai ajudar você, tá bom?

Ô, senhor, por favor. Ai! Chega, por favor. Eu já falei que é tudo meu. Por favor, chega, senhor. Eu não tenho mais nada em casa. É só isso mesmo. Tá tudo aí, é tudo meu. É pra vender, sim. Tráfico. Eu assino, assino o que o senhor quiser, mas para, por favor. Por favor. Chega, senhor. Eu vou parar de chorar, sim. Perdão, senhor. Perdão…

Ai! Quem é? Oi! Não pode bater no tio, tá bom? O tio não gosta que bata nele. Não pode bater no tio nem em nenhum amiguinho, entendeu?

Outra especialidade minha é apanhar. Eu apanhei do meu padrasto, bêbado, todo dia quando chegava em casa. Da minha mãe, que não acreditava em mim e me batia mais. Na rua, dos meus parceiros. Da polícia. E, agora, das crianças. A minha vontade é pegar o pai de um moleque desses e descer a porrada. Mas eu não nasci para bater. Eu nasci para apanhar. De todo mundo. Eu sou um cachorro assustado. Sem dono. Solto na rinha da vida. Sempre apanhando.

Tio Laranja, tá chegando a hora do parabéns. Vamos levar todo mundo ali pra mesa do bolo? Vamos, sim. Hora de dar risada sem vontade. Gritar. Puxar aquelas musiquinhas de merda, fingir que essa tá sendo a melhor festa do mundo e a gente morre de amores pelo aniversariante de que eu nem lembro o nome. A minha cabeça é uma merda. Não lembro o nome do moleque, nem do pai, nem da mãe. Porra, mas a mãe é gostosa, hem? Peitão. Bem gostosa. E tem umas tias gostosas também. Tudo casada com esses tiozão com cara de bosta. Grana. Grana é foda. Se eu tivesse grana, essas mina iam cair tudo em cima do Tio Laranja aqui. Ô, se iam. Mas grana é uma coisa que eu nunca tive. O pouco que eu tinha eu cheirei. Fumei. Bebi. A minha grana acabou com a minha memória e agora eu não lembro do nome da porra do moleque que faz aniversário. Nem do pai com cara de bosta nem da gostosa da mãe. Puta merda.

Me tira daqui, doutor. Por favor. Eu não aguento mais esse lugar. Eu tô aqui há quase um ano. Por favor. Eu tô ficando louco aqui dentro. Eu não nasci pra ficar preso. Eu quero correr pelo mundo. Eu nasci pra correr. Eu vou morrer, doutor. Eu tô falando sério. Eu tô ficando doente aqui. Eu tô… Calma, Lucio. Eu consegui mudar a sua pena. Você vai sair daqui para uma clínica de desintoxicação. Desintoxicação? Isso. Você vai se tratar. Eu consegui convencer o juiz de que você não é bandido. Você tá doente. E lugar de doente não é junto com bandido. Você vai amanhã mesmo para o interior. Para uma clínica. Com médicos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais.

Fila para pegar as lembrancinhas. Vamos fazer fila, gente! Não adianta puxar o tio. Quem não tiver na fila não vai ganhar, hem? Ei, ei, ei… sem empurrar o amiguinho. Ouviu o que eu disse? Sem empurrar. Ele não empurrou você. Foi sem querer. A tia Melancia e o tio Abacate vão ficar de olho em vocês. E eu vou ficar de olho nessas Heinekens. Puta vontade de tomar uma cervejinha. Quase um ano na cadeia. Depois mais um ano e meio naquela merda de clínica. E agora um ano na rua. Três anos e meio sem dar um gole numa gelada. Falar que eu morro de vontade é mentira, mas, quando eu olho esse monte de tiozão com cara de bosta tomando cerveja, me dá uma puta vontade. Dá mesmo. Não vou negar. Mas não posso. Quando eu tava trampando na lojinha era de boa, ninguém bebia e tal. Mas depois que eu comecei nesse ramo de festa, fodeu. Eu já escolhi festa de criança pra não ter esse risco, mas as porras das festas das crianças hoje parecem festas de adulto! Tem um monte de comida de adulto, só toca música de adulto, um monte de tia gostosona e o melhor, ou pior, uísque e cerveja. Mesmo na praça. Mesmo de manhã. É foda.

Parabéns, Lucio. Hoje você sai daqui pronto para enfrentar o mundo. Mas você tem que lembrar sempre, você ainda tá doente. Não adianta sair daqui e voltar pra mesma vida. Para os mesmos amigos. Frequentando os mesmos lugares. Não. A partir de hoje, é vida nova. Longe de tudo aquilo que sempre te fez mal. Que sempre te prejudicou. Esqueça as drogas. A cervejinha. Esqueça tudo e comece uma nova vida.

Uma cervejinha? É, porra, dá licença. Puta que o pariu! Que delícia! Puta cerveja gelada e gostosa! Eu vou pegar só mais uma. Lucio, tá na hora de a gente ir embora! Vamos agitar essa porra. Sai daqui, seu moleque de merda. Vai pedir pro teu pai, aquele bosta. Ou melhor, pede pra gostosa da tua mãe! Pede também pra ela vir falar comigo. O tio Laranja quer falar com a sua mamãe, chama ela aqui, chama.

A festa acabou, Lucio.

Acabou o quê, tia Melancia? A festa tá começando agora. E você aí, seu bostão, tá olhando o quê, hem?

Eu vou chamar a polícia. Você passou dos limites!

Legal, seu bosta! Chama a polícia. Eu vou ser o ladrão. Duvido eles me pegarem. Um. Dois. Três! Valendo!

 

 

Imagem: Cena do jogo “Minecraft”.

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