Polícia prende chefes do tráfico de livros

A Verdade Online – 25 de outubro de 2017 – 12h41

Quinze suspeitos de envolvimento com o tráfico internacional de livros foram presos hoje pela Polícia Federal em uma operação deflagrada em oito Estados. Entre os detidos, estão Melquíades Barradas, o Mel Solidão, apontado como chefe de uma facção da região amazônica especializada em tráfico de livros de realismo fantástico, e Adalberto Cava Ribeiro, o Beto Caieiro, suspeito de liderar o tráfico de exemplares da vasta obra do poeta português Fernando Pessoa e de outros escritores lusos, como José Saramago.

Os policiais cumpriram os 15 mandados de prisão nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Corumbá (MS) e Foz do Iguaçu (PR). A polícia prendeu Mel Solidão na casa dele, em um bairro da zona leste de Manaus. Beto Caieiro foi encontrado em um ponto de venda de livros no morro do Borel, na zona norte do Rio de Janeiro.

De acordo com a Polícia Federal, nenhum dos 15 detidos reagiu à prisão. Com os presos, a polícia não encontrou nenhuma arma branca ou de fogo, mas apreendeu 17 mil livros estocados, computadores e cadernos com anotações referentes ao comércio literário ilegal. Grande parte dos livros traficados é editada pelas próprias organizações criminosas. Em Corumbá, a polícia encontrou uma gráfica clandestina onde eram impressos exemplares em português de clássicos da literatura estrangeira e de obras de jovens autores latino-americanos. No Parque São Rafael, na zona leste de São Paulo, a polícia também desmontou uma gráfica, esta especializada em literatura marginal.

Conexões internacionais

De acordo com as investigações da PF, que duraram 13 meses, os traficantes brasileiros têm conexões com redes de tráfico de livros estabelecidas em países como Argentina, Paraguai, Bolívia, Colômbia, México, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Rússia e mais de 15 nações africanas, além da China. Os traficantes utilizam as fronteiras para manter um intenso comércio de livros com os países vizinhos, mas também se valem de rotas para vender exemplares no interior e transportar as obras até as grandes cidades e os portos, onde são embarcadas clandestinamente para a Europa, a África e a Ásia.

Segundo o delegado Samuel Pasternak, que comandou a operação, os líderes do tráfico são, em geral, leitores inveterados e oriundos de regiões pobres. Eles organizaram o mercado pirata de livros devido ao alto preço do produto legalizado no Brasil. O surgimento de autores nas periferias das grandes cidades desde o fim do século 20 e o advento dos saraus nessas regiões, já no século 21, também teriam insuflado esse novo tipo de tráfico. “Eles resistem ao mercado editorial institucionalizado e estabelecem um novo tipo de comércio, à margem do sistema, sonegando impostos”, declarou o delegado.

Aspiração política versus pena de morte

O professor Gabriel Moredo, pesquisador dos movimentos literários nas periferias brasileiras, afirma que o tráfico de livros é pouco lucrativo, mas se sustenta em princípios como a disseminação do letramento e a massificação da cultura literária. “Além disso, há dois aspectos fundamentais. Um é a resistência ao livro digital e o culto ao formato em papel. O outro é uma aspiração política, de conscientização popular para a formação de uma nova estrutura social”, explica Moredo.

De acordo com as investigações policiais, os traficantes estariam vinculados aos recentes protestos realizados nas periferias de São Paulo, Rio, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém e às grandes manifestações ocorridas em setembro nas cidades-satélites de Brasília. Além da resistência às grandes editoras, os traficantes também estariam incentivando um boicote aos veículos tradicionais de comunicação. Parlamentares de cinco partidos discursaram recentemente no Congresso sobre o perigo de uma insurgência popular inflada pelo tráfico de livros. O deputado federal Odair Campanaro (PUF-RJ) chegou a defender a aprovação da pena de morte para os traficantes de livros.

Restrição à autoajuda

Segundo o professor Moredo, a produção pirateada é de boa qualidade. “No caso de obras estrangeiras, as traduções são bem elaboradas, e os tradutores são bem remunerados pelos comandantes do tráfico. Ademais, os traficantes investem em obras reconhecidas e em autores consagrados, mas também apostam em autores novos. Eles vendem até livros de filosofia, economia, infantis e didáticos, mas evitam os de autoajuda”.

Depois de colher os depoimentos dos 15 traficantes, a polícia cogita transferi-los para presídios de segurança máxima. Há a expectativa de que a operação realizada hoje tenha desdobramentos e resulte em novas prisões até o fim do ano numa tentativa de fechar o cerco ao tráfico de livros.

 

6 comentários para “Polícia prende chefes do tráfico de livros”

  1. Rafael

    Muito bom Wellington!! mais impressionante ainda por não ter lido ou visto Fahrenheit 451, me lembrou muito! bela crítica ao sistema de criminalização indiscriminada da população e dos movimentos sociais.

  2. Keyane Dias

    Jornalirismo, né gente.

  3. Keyane Gomes Dias

    A utopia é real para os que acreditam nela.

    Que "apuração" maravilhosa. Jornalisrismo puro! Amei.

  4. Davi Mesquita @davininho

    Confesso que ainda não tinha me deparado com esse tipo de leitura, assim tão real e surreal. Adorei.

  5. julio cesar de souza

    A cultura oriunda do povo e para o povo se espalha à margem dos interesses das grandes corporações e dos políticos. Isso é um perigo. Desse jeito vão invocar a Lei de Segurança Nacional…

  6. Gisèle Miranda

    Uma alternativa para a floresta dos homens-livros e livres, emprestada de FAHRENHEIT 451.

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