Porcos gostam de sujeira

 

Nem se lembrava da última vez em que esteve tão feliz. Seu sorriso era incontrolável, ele simplesmente acontecia. Era como a fome na África. Já havia desabotoado os primeiros botões da camisa e tirado os sapatos. Queria parecer jovem. O cabelo cheio de gel, a cueca mais limpa que tinha no guarda-roupa. O bolso cheio de KY. Assobiava umas músicas do The Mamas and the Papas e tentava repassar mentalmente as posições que havia lido num livro. Coisa de contorcionista.

Tocou a campainha e esperou. A porta continuava fechada, igual à cara do Gonçalves, o mais filho da puta dos filhos da puta da repartição. Gonçalves, seu pé no cu, pensou e tocou a campainha de novo. Esperou mais uns segundos e seu sorriso já não era tão largo assim. Até que a porta se abriu, e ele se acendeu mais uma vez. A fome na África continuava lá, mas pelo menos ele sorria. Ela abriu a porta gargalhando e contorcendo-se de tanto que se divertia. Nem olhou em seu rosto, a alegria a havia cegado. E ele só ficou lá, parado, esperando que ela parasse de rir. Ela parou.

— Entra logo, porra!

— Não vou incomodar nada?

— Vai me incomodar você, aí, parado, com essa pica mole e essa cara de bosta. Vem se divertir.

Ela o puxou pelo braço e o encaminhou para dentro do seu apartamento. Ele odiava quando ela falava daquele jeito. O cheiro era doce. A fumaça dançava por entre a tênue luz que saía do abajur. E aquilo era maconha, e aquilo era bom pra cacete, mas aquilo o deixava de pau mole. E, naquela noite, especificamente, o pau dele precisava subir. Procurou uma garrafa ainda cheia em cima da mesa e encontrou um pouco de saquê. Tomou um gole, achou horrível, mas manteve o copo na mão. Sentou-se no sofá, cruzou as pernas, tomou mais um gole, achou ruim mais uma vez e, sem ela perceber, largou o copo num canto qualquer. E ela ainda não o havia beijado.

Ouviu um barulho de descarga vindo de não muito longe dali. Sentiu-se incomodado, mas escondeu o sentimento. Aquela noite era dele e dela, e de repente tinha alguém fazendo merda no banheiro e ela ainda estava na cozinha fazendo um Bloody Mary, cujo sabor lhe dava náuseas. Contou os passos do sujeito do banheiro até a sala. Deu dois passos e meio. Ele já estava cansado de tentar tirá-la dali, de tentar levá-la para seu apartamento, com o quádruplo do tamanho daquele, o que não significava riqueza nenhuma. Até que seu algoz surgiu à sua frente.

É só isso? Essa porra aí?, pensou. A boca do sujeito estava suja de vômito. Ainda suja. Seus olhos estavam perdidos e sua voz era arrastada antes mesmo de ele pronunciar. Usava uma camisa xadrez de flanela e a calça tinha furos nos joelhos. Sem sinal de sapatos. Que original. Ele veio, meio mole, meio morto, e se sentou ao seu lado.

— O que te traz aqui? – perguntou, a voz arrastada.

— Ela.

— Sabe o que me traz aqui?

— Não.

— Meus pés, cara. Eu não preciso de mais nada, além da minha liberdade e dos meus pés. Um passinho, dois passinhos e eu vou aonde eu quero. Esse porquinho aqui, do lado desse porquinho aqui, do lado desse e do lado desse e do lado desse – disse, mexendo nos dedos dos pés, um a um. — MEUS PORQUINHOS, CARA!

— Legal. Belos porquinhos você tem.

— Pois é. Sabe por quê? Porque eu não os mantenho presos em sapatos. É! Eu sei que você usa sapatos, cara. Não adianta tirá-los e largá-los por aí. Porque eu sei que você usa sapatos. Belos sapatos, sapatos caros. Você não tem porquinhos. Você é um porquinho. Um porquinho capitalista.

Ele riu com o canto da boca, tentando se manter superior e se esforçando para esconder o ciúme que tinha daquela situação toda. Ela voltou com três Bloody Maries e ele se sentiu aliviado e depois nauseado. Ela e o sujeito viraram aquele sangue de menstruação com gosto de tomate em poucos goles. Coisa de quem já tá na mesma há um bom tempo. Ele continuou segurando-o e esquentando-o. Assim pelo menos teria uma desculpa. Ele já imaginava o diálogo.

— Porra, bebê, isso aqui tá quente – ele diria.

— Nossa, é verdade. Não precisa tomar mais, não. Agora deixa eu chupar o seu pau – ela responderia.

E ele só imaginava.

O silêncio sufocava. Muito mais do que a gravata ou os sapatos. Nesse ponto o sujeito tinha lá a sua razão. Sapatos eram uma merda. Ela abriu a boca e começou a falar frases aleatórias sobre Godard, Tolstói e a fome na África. Mas aquilo não era ela. Ela forçava, queria impressionar de qualquer forma. Não a ele, mas ao sujeito. E o sujeito só consentia, mexia a cabeça para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda. O sujeito era a voz da razão sem voz, nem razão.

Ele se mantinha calado e odiava tudo aquilo. O sujeito se virou para ele e começou a falar mais. E ele sumiu dali. Sabia que o sujeito falava algumas coisas sobre capitalismo, gel para cabelo, ternos e porcos. Os porcos voltavam toda hora. A boca parecendo um chiqueiro. Pelos porcos e pelo vômito. E ele, em outro lugar, sem ser ali.

Cansado de ouvir, ele se levantou. O copo ainda cheio de Bloody Mary na mão e as bolas bem guardadas na sua melhor e mais limpa cueca. Respirou fundo. Ela fazia silêncio, o sujeito falava sobre a ditadura, mesmo tendo nascido anos depois dela. Ergueu seu copo, homenageou os que já se foram e o estraçalhou na parede, gritando: ISSO, SIM, É ARTE! ISSO, SIM, É A REALIDADE, MEU CARO AMIGO HIPPIE. ESSA BOCETA NA PAREDE É O SEU SISTEMA SOCIALISTA DE MERDA. ELE É VERMELHO E ESCORRE, IGUAL ESSA PORRA DE RESTO DE VÔMITO NA SUA BOCA, SEU MERDA. AGORA LEVANTA E VAI LÁ LAMBER A SUJEIRA. PORQUE EU SEI QUE VOCÊ GOSTA DE SUJEIRA.

Fechou os primeiros botões da camisa, calçou os sapatos, agarrou-a pela cintura e a levou para o quarto. No meio do caminho, ela pedia para ser comida. Implorava e gemia, com aquele pau ainda muito longe dela. E ao fundo o sujeito lambia e grunhia. Quem é o porco agora, seu filho da puta?, pensou. Fechou a porta do quarto e o mundo voltou à ordem do lado de fora, enquanto a bagunça começava do lado de dentro.

 

Um comentário para “Porcos gostam de sujeira”

  1. Maria Osório Silva

    Seu porco capitalista e preconceituoso!!!!
    Amei o texto

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