porque sim

há tempo pra caralho longe da folha. há tempo pra caralho sem me enfrentar no papel. pensando no formato, numa solução mais arrojada pra parada. pensando em formas de utilizar a palavra “arrojada”. pirado. me atendo aos detalhes, ao tamanho da frase, ao número de linhas na estrofe. pensando se vai ficar bonito no layout.

e se esse e se deixasse de ser um e se?

é sério.

tem tempo pra caralho que eu não coloco nada no papel. e aí as pessoas me mandam e-mails. palavras mal escritas numa tela de computador. e então eu escrevo alguma coisa, pra algum cara, com alguma grana. e aí eu recebo um monte no fim do mês.

e eu me mudo de apartamento.

e eu compro um carro novo.

e eu mobílio a minha cozinha.

e a TV grita alto na sala.

e eu tenho mais canais do que tenho saco para assistir. e digamos que eu sou um cara sedentário.

e eu aperto backspace e reescrevo.

e pouco a pouco.

eu deixo tudo pra lá.

e então eu tenho vinte e seis.

eu tenho vinte e seis e eu tenho tudo.

passo a mão na minha barriga larga e branca e penso em ir pra nova iorque.

a mulher da minha vida deitada no sofá, assistindo um filme de gente branca.

mais inteligente que eu.

mais gostosa que qualquer uma por aí.

porra.

eu tenho vinte e seis e eu tenho tudo.

e então, antes de dormir, eu abro um livro do velho.

me pego a ler uns poemas.

uns dois, três, quatro, cinco, seis poemas. por aí.

e aí eu penso em sentar no computador e escrever alguma coisa.

porque sim.

porque eu posso.

ou pelo menos pra provar que posso.

e eu tinha um monte de ideias na cabeça.

era brilhante.

eu ia escrever tudo sobre o nada.

aqui, agora mesmo.

mas então parece que não sai.

paro de escrever.

abro um poema antigo. meu. só meu.

meu nariz escorre, mas eu tenho plano de saúde.

e médicos prontos para me entender.

em um quarto particular.

e que se fodam os pretinhos na áfrica, certo?

um branquelo trabalhando no computador tarde da noite e curtindo um aneurisma no escritório.

é, eu sei.

eu sei tudo o que eu preciso fazer.

para viver mais. para escrever.

para não morrer, apenas.

mas eu não faço.

e de início parecia uma boa ideia.

o retorno triunfal do grande gênio vito.

mas não foi.

mas mesmo assim eu o fiz.

e amanhã eu vou acordar com certo cansaço.

e vou me arrastar até um bom restaurante.

e pedir o que eu quiser.

e pagar com o meu dinheiro.

e se isso for publicado eu nem sei o que dizer.

porque sim.

porque eu posso.

 

 

Foto: Ingrid Francini. Novembro 2015, Centro Histórico de SP

Um comentário para “porque sim”

  1. Diego R Borges

    Bom dia, Victor.
    Pesquisando sobre a tag q eu faço pelas ruas, me deparei com ela aqui no seu site/blog, fiquei feliz! A ARTE LIBERTA! É um manifesto. Eu também escrevo, e gostei de uns textos seus. Quando quiser encosta pelo meu humilde refúgio: semgroselhapicuinha.wordpress.com

    Abraços e viva a arte!!

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