Pressão extrema bienal

Eu vou à Bienal do Livro!

Essa frase estava virando rotina.

Entre alguns amigos de Juquinha.

O rapaz amava os livros, sonhava em ser escritor.

Chegando em casa foi logo dizendo para sua mãe:

‒ Quero ir à Bienal do Livro, pena que minha escola não tem excursão.

Sua mãe logo respondeu:

‒ Com quais condições? Temos que nos conformar com nossa situação.

Juquinha coçou a cabeça e disse:

‒ Mas, mãe, eu posso ir: estudante paga meia.

‒ Sim, meu filho, mas tem a condução, lanche e outros gastos.

‒ Mas dizem que tem ônibus de graça, e amanhã é quinta-feira.

Não tenho aula, dá pra ir.

‒ Larga de bobagem, menino, esse lugar é pra rico, as coisas são um absurdo.

Pessoal da periferia passa longe, dificultam o máximo.

Mas Juquinha estava decidido.

E pensou: já que tinha trabalhado de balconista na padaria.

Iria pedir ajuda ao Seu Teodoro, o dono, e depois pagaria com trabalho.

E assim o fez, e não foi muito difícil, não.

Ouviu do dono da padaria:

‒ Se é pra ir à Bienal do Livro, te empresto a grana, você é um rapaz de futuro.

Juquinha, todo animado, preparou tudo, ajeitou as coisas.

E ouviu ainda da mãe:

‒ Meu filho, eu nem vou poder te ajudar com o lanche, pois precisei comprar gás.

O rapaz estava tão contente, que só pensava na Bienal.

Na escola, na rua e na vizinhança, falava pra todos.

Alguns amigos ainda debochavam:

‒ Vai fazer o que lá? Você nem conhece a cidade, nunca saiu de seu barraco.

Mas Juquinha não dava atenção.

E no dia se preparou, viu o itinerário e seguiu para a Bienal.

Pegou um transporte coletivo até a estação de metrô.

Depois embarcou no metrô até a estação, onde teria ônibus fretado.

Para sua surpresa, ao chegar à estação do metrô, os ônibus

Fretados eram somente nos fins de semana.

“Nossa, e agora?”, pensou ele, nunca tinha saído de sua periferia.

Perguntou para as pessoas e ninguém sabia lhe informar.

Qual transporte coletivo pegar.

Até que perguntou para um ambulante vendendo água.

O homem lhe informou que teria de pegar uma condução

Que passava perto da Bienal, mas demorava muito.

E que também a Bienal estava perto, não muito longe.

Caso quisesse ir andando, dava uma boa caminhada, mas dava pra ir.

Foi o que Juquinha fez.

Mas, como estava apreensivo, não conhecia o local muito bem.

Começou a andar conforme as indicações do ambulante.

Seguiu uma grande avenida, passou por uma ponte

E percebeu que já estava na Avenida da Bienal.

Quando chegou, dois rapazes o abordaram.

Tomaram tudo e ainda o jogaram ao chão.

Juquinha ficou sem a mochila, sem o dinheiro e sem os documentos.

Ao passar dos anos.

Uma nova Bienal, e lá estava ele:

“HOJE NA BIENAL LANÇAMENTO DO LIVRO

‘PRESSÃO EXTREMA’, DE JUCA ALMEIDA PRADO”.

Imagem: maquitudo.com.br

13 comentários para “Pressão extrema bienal”

  1. Thina Curtis

    Lindo texto e uma importante reflexão sobre os dias atuais.
    A vida tem suas prioridades e obstáculos e a luta por ambas é diária!
    a literatura é uma resistência!!!!

  2. Alessandra Tozzo

    Que lindo
    Texto emocionante e comovente

  3. ZENAIDE FREIRE

    Germano uma pessoa muito Batalhadora!
    Eu o parabenizo pelo seu trabalho e força, incentivo, á
    outras pessoas, assim como eu, colocando a minha poesia,
    ai no sarau do urbanista! valeu grande amigo!
    sucesso sempre. É um grande prazer para mim fazer parte do seu trabalho. paz e Bem.

  4. ZENAIDE FREIRE

    Parabéns Germano! pelo seu trabalho!!!
    Deus o abençoe sempre amem. sucesso!!!

  5. Paulinho Dhi Andrade

    O texto fez-me relembrar episódios no qual fui protagonista. Lembro das dificuldades que tive para chegar onde cheguei, descasos, desconfianças e olhares irônicos tentaram ou me incentivaram a prosseguir o caminho artístico.
    Gostei muito do acabei de ler. Meus mais sinceros parabéns.
    Tudo de bom, meu bom amigo.

  6. paulo

    do limão pra limonada sumemo

  7. Valter Luis (Walter Limonada)

    Valter Luis (Walter Limonada)

    Joia !!!! Exemplar essa história !!!

  8. Lucy Conceição Simões

    São muitos os Jucas e muitas as periferias. Não fossem tantas adversidades… haveria mais escritores feito vc Germano. Adorei o texto. Um abraço carinhoso e muito criatividade pra vc continuar a produzir literatura marginal.

  9. Germano Gonçalves

    Germano Gonçalves

    Agradece a todos vocês pelo carinho e a consideração, isso faz com que continue a escrever valeu!

  10. Ademir

    Mais uma vez lhe parabenizo pela produção. Sempre atento ao estilo da literatura marginal, considerando e abordando as narrativas cotidianas de pessoas da periferia, porém com um excelente criatividade .

  11. Lidiane Neres

    Grande Juca, não deixou que as dificuldades e as barreiras fossem obstáculos para seu sucesso. Parabéns Germano, sempre nos surpreendendo, quando eu crescer quero ser incrível igual a você 🙂

  12. Inês Santos

    Muito boa história, bastante próxima da realidade de tantos meninos e meninas brasileiros. Que bom que o Juquinha não desistiu do seu sonho, apesar das dificuldades. Parabéns Germano!

  13. Alba Atróz

    Soube tirar proveito das adversidades… Superou seu opróbrio e posinou-se como um exemplo…Parabéns pelo texto, caro amigo… A linguagem está acessível para trabalhar com crianças e adolescentes…

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