Quando eu penso sobre o amor

Eu lembro a primeira vez que eu disse. Era a noite de um dia qualquer, depois de um jantar qualquer, quando a rotina já começava a bater à porta. Eu ainda me sentia estranhamente estranho perto dela. Um misto de insegurança disfarçada de autoafirmação com um medo disfarçado de confiança. Nós já tínhamos alguns meses juntos. Já tínhamos transado uma dezena de vezes. Já tínhamos compartilhado segredos, lágrimas, risadas, lençóis. Porra, já tínhamos compartilhado o mesmo prato. Mas mesmo assim tudo ainda parecia como um primeiro encontro. Um bom primeiro encontro, diga-se de passagem. Mas ainda assim um primeiro encontro.

─ Você acabou com a minha escrita – disse.

─ Por quê? – ela perguntou, com um olhar assustado.

─ Você me fez feliz de verdade – respondi.

Na minha cabeça, aquele momento deveria ser incrível. Um daqueles que nós contamos aos nossos netos, sentados na varanda de uma casa de campo, esperando a morte chegar e vibrando com cada dia como se aquela merda fosse um gol aos quarenta e cinco do segundo tempo.

Enfim. Não foi bem assim.

Aquelas palavras, que eram para ser um elogio, o mais belo dos elogios, trouxeram uma melancolia ao rosto dela. Seu sorriso se dissipou numa nuvem pesada, espessa, escura como um fim de tarde de domingo. E o seu brilho foi embora por um tempo. Não era a primeira vez que isso acontecia. Na verdade, isso acontecia com frequência. Ela tem essa estranha mania de, de uma hora para a outra, tornar-se introspectiva. Querer um espaço pra pensar, querer distância das cobranças do mundo real. No começo foi difícil, mas, àquela altura, eu já aprendia a respeitar (e até gostar) desse comportamento dela.

Tentei corrigir minhas palavras. Não adiantou. Deixei pra lá.

Quando eu percebi, aquele momento tinha chegado ao fim. Ele não foi inesquecível como eu previ. Ele não foi parar no capítulo de abertura do meu best seller. Ele foi só um punhado de minutos e segundos que chegou e passou. E o resto é a vida que segue. Para o bem ou para o mal, é a vida que segue.

Alguns anos depois, ela dorme no quarto. Passou um pouco da uma da manhã. Ela dormiu o dia inteiro. Acordou, deu umas risadas por qualquer besteira nossa. Trocamos uns carinhos. Fizemos o almoço. E assim o sábado passou. Preguiçoso e feliz. E assim, agora, como eu disse, ela dorme no quarto. Eu passei o dia inteiro secretamente olhando para ela. Não dá pra ficar melhor.

E é justamente por isso que eu ainda penso naquelas minhas palavras de uns anos atrás. Ela acabou com a minha escrita. Vocês veem, ao longo dos meus vinte e seis anos, eu desenvolvi uma admiração enorme por Bukowski e Fante. Eu tentei viver como eles viviam. Eu tentei escrever como eles escreviam. Eu tentei sentir o que eles sentiam. E no fim das contas eu gastei uma grana com terapia e fiz um monte de dinheiro também. E foi assim que colecionei algumas histórias. Algumas frases insólitas. Alguns momentos dignos de um programa de comédia. E páginas pra caralho. Páginas que nunca viram, nem provavelmente vão ver, as luzes da cidade. Páginas que vocês jamais vão ler, seus fodidos.

Acontece que, em minha obsessão por Bukowski e Fante, eu me tornei unilateral. Aprendi a escrever apenas sobre tristeza. Sobre noites que não necessariamente aconteceram na parte baixa da cidade suja. Sobre mulheres que eu não necessariamente amei. Sobre bocetas que eu não necessariamente e muito provavelmente não conheci. Eu só sabia escrever sobre a dor, o álcool e o niilismo nosso de cada dia.

Mas um dia eu acordei e eu percebi que eu era inegavelmente feliz. Eu era uma porra de uma bola de fogo cruzando o céu e espalhando labaredas e brasas ardentes pelo mundo. Queimando cidades, devastando vidas. Não dando a mínima. Eu era eu mesmo. E eu era feliz pra caralho. Eu já não tentava entender por que algumas mulheres foram embora. Por que eu não me tornei aquilo que planejei. Por que eu não tinha comprado aquela tevê. Por que eu sentia todas aquelas coisas. Eu já não tentava entender. Eu estava mais preocupado em viver. Eu queria mesmo era ver o sorriso dela entre as frestas do cobertor. Era ouvir o som da voz dela reclamando de qualquer coisa. Era sentir o cheiro dela ao chegar do trabalho. Eu estava mais preocupado em viver.

Caralho.

Mas foi assim que eu, pouco a pouco, me distanciei da folha em branco. De vez em quando a vontade vinha. Às vezes no banho. Às vezes no meio de uma punheta. Às vezes fazendo carinho no meu cachorro. De vez em quando minhas mãos batiam sozinhas no ar, digitando teclas imaginárias e formando frases soltas na minha cabeça.

Era muito mais fácil quando eu era mais novo.

Era muito mais fácil quando eu não entendia direito.

Era muito mais fácil quando ela não existia.

Era muito mais fácil. Mas era muito mais difícil.

Todos os dias eu me lembrava do pássaro azul do velho Buk. Aquele pássaro azul que queria fugir, mas ele não deixava. Aquele pássaro azul que queria foder com as vendas dos seus livros na Europa. Aquele pássaro azul.

Aquele pássaro azul, para mim, era ela. A minha tristeza, que eu nunca deixei sair, ela tinha em seus olhos. A minha alegria, que eu tentava esconder, ela carregava em seus lábios. E ela era absoluta e lindamente livre.

E quando eu percebi, eu deixei de ser um drama americano de mil novecentos e noventa e nove. E me tornei uma comédia romântica dos anos dois mil e tantos. E eu queria escrever poemas, mas não romances.

Ela não foi a primeira mulher por quem me apaixonei.

Mas ela foi a primeira mulher que fez com que eu me amasse.

E isso, seus fodidos, muda tudo.

De vez em quando eu ainda choro. De vez em quando eu penso no reflexo vermelho sobre mim. De vez em quando eu quero encher o copo pra esquecer. De vez em quando eu quero sair pela cidade de pijama procurando mais um trago. De vez em quando apenas querer basta. E de vez em quando não.

Mas eu cresci.

Eu me apaixonei.

E eu estou vivo.

Quando eu penso sobre o amor eu escrevo coisas como estas. Mas, na maior parte do tempo, eu não estou pensando sobre ele. Eu estou vivendo-o. Com ela.

Até a próxima, seus fodidos.

Créditos da imagem:

https://www.tumblr.com/search/dormi%20juntos

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