Quando nem sua merda deseja você

 

Eu estava sentado, fazendo força, de olhos fechados ou lendo alguma coisa e torcendo para a merda vir, mas ela insistia em permanecer dentro de mim. Toda a merda da minha vida habitava o meu estômago já há mais de uma semana e parecia gostar da vizinhança. Um fígado mal-humorado, um coração maltratado, uns pulmões preguiçosos e o inútil do apêndice. Mas, apesar disso, eu não culpava minha merda. Ela só fazia o que era melhor para ela. Por pior que eu estivesse por dentro, eu estava melhor do que por fora. E o mundo por aqui já tem merda o suficiente, a concorrência seria desleal. Ela era, simplesmente, egoísta. Ela estava aprendendo a ser um ser humano. E por isso ela permanecia dentro de mim.

 

Terminei as palavras cruzadas, passei o papel no rabo só para confirmar o meu fracasso e subi minhas calças. Olhei para o espelho e tive nojo do que vi. Eu já vinha me enganando havia alguns meses. Lendo livros de autoajuda e pagando meu psiquiatra para ele falar tudo o que eu queria ouvir. Você é um cara lindo, Vito. Você é um cara interessante, só precisa buscar isso dentro de você. Você é grande, Vito, ele dizia, sessão após sessão. Papo de quem quer foder alguma coisa. E com toda a certeza do mundo ele fazia muito mais sucesso do que eu. Eu e minha mão direita. Minha amante e melhor amiga.

 

Vesti uma camiseta fina e um jeans cheirando a talco. Coisas de centenas de reais em um mero pedaço de pano. Aquilo era autoestima por centímetro quadrado, mas eu só encontrava a minha autopiedade. E o meu estômago doía e o meu coração apertava. Fui até a geladeira, virei uma garrafa de leite dentro de meia garrafa de vodka, chacoalhei, guardei no cantil, tomei um gole de quinze segundos e saí pela porta, fugindo do espelho da mesma forma que o homem moderno foge do casamento. E eu conjugava frases imensas na minha cabeça. Frases que precisariam de muitas vírgulas e muita paciência para ser escritas ou lidas. Mas elas insistiam em sair uma merda. Escrever era a única maneira de expelir a merda de dentro de mim. E o resultado eram textos de merda, assim como anúncios e títulos de bosta.

 

Eu caminhava pela rua. Uma festa rolava não muito longe dali e aquele seria o meu destino da noite. Fui a pé por orientação do meu cardiologista, alguém que eu pago para falar tudo aquilo o que eu não quero ouvir. Você está fodido, Vito. Você é um cara que não vai durar muito, só tem mais uns seis anos pela frente. Você é frágil, Vito, ele dizia, sessão após sessão. E eu ria, e rir fazia meu cérebro doer. Era uma sensação de estranheza. A felicidade era rara. Eu busquei uma explicação para meu riso e para minha alegria. Chacoalhei meu cantil e percebi que nada mais restava. E aquele era o fim do mistério.

 

Cheguei ao meu destino. KropKrop. Um lugar escuro, do tipo que passa batido, que se camufla com a paisagem da cidade. O que todo mundo sabe não se tratar de algo bom. A garota da porta me cumprimentou com um beijo no rosto e uma intimidade um tanto quanto estranha, mas compreensível. Eu já havia passado várias noites por ali. Às vezes sozinho, às vezes acompanhado, sempre bêbado e sempre com um ar de superior que eu já não era mais capaz de sustentar. Mas foi bom sentir um pouco de afeto. Ela era loira, magra, com um rosto triste. E eu a amava, naquele instante. Paguei a metade do preço para entrar, pisquei para a outra garota da porta. Ela era loira, magra, com um rosto cansado. E eu a amava muito, naquele instante. A vodka com leite já havia acabado e me apaixonar era tudo o que me restava.

 

Entrei e a música veio alto na minha cara, cuspindo nos meus ouvidos um monte de mensagens vazias e efeitos irritantes de guitarra. Eu conhecia muita gente ali. Eu cumprimentava com a cabeça e vez ou outra com uma das mãos, mas nunca me dando ao trabalho de ser agradável ou de deixar transparecer a minha simpatia. Meu peito estava estufado, meus ombros mais duros do que minha própria pica. E eu queria parecer alguém. Eu queria ser notado, só para poder reclamar do fato de ninguém me deixar em paz. Peguei três cervejas no bar, fiz minha melhor pose e me encaixei no balcão. O corpo esticado, a mão no bolso, bebendo uma cerveja atrás da outra. E a bandinha falando sobre bossa nova e labirintite.

 

Eu vi um cara cair de tanto beber e fumar maconha e abrir um rasgo na mão. E eu o achei a pessoa mais incrível do mundo, morrendo de vontade de abraçá-lo. Isso porque ele conseguia sangrar, ele conseguia deixar sair a vida de dentro dele. E a bandinha falando de labirintite. A ironia era engraçada e o guitarrista, um filho da puta. As melhores garotas da festa olhavam para ele, passando a mão pelo corpo, jogando o cabelo, sendo estúpidas, sendo mulher. Soquei a parede de raiva e eu estava oficialmente bêbado.

 

Fui ao banheiro mijar. Tirei minha imensa pica de dentro da calça e segurei-a orgulhoso com a mão direita. Um cara de cabelo alisado, jaqueta de couro, calça número trinta e quatro e camiseta tamanho doze entrou e parou do meu lado. Ele abria o zíper quando deu uma conferida no meu pau. Fechou o zíper, abaixou a cabeça e saiu pela porta. SIM, MEU AMIGO, MEU PAU É ENORME E É MUITO MAIOR QUE O SEU, SEU BICHA, eu gritei as minhas verdades. Terminei de mijar, guardei o causador da discórdia, fechei o zíper e fui saindo sem lavar as mãos. Até que o segurança apareceu na minha frente. Uma parede preta. Dois metros e cento e quarenta quilos de fome, miséria e sete filhos para criar.

 

— Não pode fumar maconha no banheiro – disse ele.

— No banheiro, não, mas na sua aldeia tá rolando maconha pra caralho, não é? – eu disse e depois sorri.

— Eu tô falando sério. Não pode fumar maconha aqui.

— Amigo, eu não estava fumando maconha. Eu simplesmente estava mijando, o.k.? Se eu quisesse fumar maconha, você saberia. Eu compraria com você.

— Cadê o baseado, seu filho de uma puta?

— EU JÁ FALEI QUE EU TAVA MIJANDO. MIJANDO. MIJO. AMARELO. AMÔNIA.

— Mão na parede e abre as pernas.

 

Eu abri o zíper disfarçadamente e o fiz. Ele começou a me revistar. Começou pelo tronco, os bolsos do casaco, os bolsos das calças, olhava para mim como seu bisavô olhava para o seu senhor. Ele se ajoelhou e começou a revistar minhas pernas.

 

— MEU AMIGO. MEU AMIGO. MEU AMIGO – gritei para o meu amigo-macaco.

 

Ele, ajoelhado, olhou para cima.

 

— PRESENTINHO PRA VOCÊ.

 

Abaixei minha cueca e a minha pica caiu bem em cima daquela testa escura dele. Era como um segundo nariz. E era engraçado para caralho. Os olhos brancos arregalados, a pupila se confundia com o resto do rosto. E a cara de choque. E a piroca-nariz. Fechei meu zíper pela segunda vez, ele respirou fundo, se levantou e saiu do banheiro. O cheiro que saía era de desejo. Desejo de homicídio. Ele tinha uma necessidade absurda de me matar, mas uma necessidade ainda maior de alimentar as vinte e sete boquinhas negras na aldeia dele. Senti um pouco de confiança novamente, lavei as mãos e saí do banheiro.

 

Eu passava por aquele mar de gente, deixando meu ombro falar mais alto. De vez em quando levantava o queixo, era a mensagem, era o convite para a morte. Ninguém nunca aceitava. Eu era a porra do macho-alfa, do leão dominante, do ditador. Eu era a porra do Adolf Hitler. Isso até alguém aceitar o meu convite para a morte e eu voltar a ser o pedaço de merda que sou. Mas, até lá, eu era tudo isso. E seguia solitário.

 

Peguei mais três cervejas e tomei as três em três goles. Três mais três mais três é igual a nove e isso foi o suficiente para eu dar nove reais de gorjeta para a garota do caixa. Compra um sutiã novo, baby. Você tem peitos deliciosos, eles merecem algo melhor, eu disse. Ela sorriu e concordou com a cabeça, mas eu sabia que ela gastaria aquele dinheiro comprando um teste de gravidez ou algo do tipo.

 

E agora eu estava alucinado, rangendo os dentes, procurando briga e boceta. Boceta e briga. Pedi mais duas cervejas e saí pela festa com uma em cada mão, decidindo minhas prioridades. Briga e boceta. Boceta e briga. Encontrei uma das meninas mais lindas do lugar e eu já sabia bem o que queria. Os cabelos eram ruivos e o rosto, levemente redondo. E eu estava apaixonado pela terceira vez na noite. Ensaiei algumas frases e me aproximei.

 

— Você. É. Linda – e isso foi o melhor que eu tinha para dizer.

— Obrigada – e isso foi o melhor que ela tinha para dizer.

— Se eu te beijar, você vai ficar muito brava?

— Provavelmente. Eu tenho alguém.

— E cadê ele?

— Em outra cidade.

— Isso significa que, aqui, você pode ser minha.

— O problema não é poder, o problema é querer.

 

E TUDO VEIO ABAIXO. TODA A AUTOESTIMA QUE VINHA CONSTRUINDO AO LONGO DA NOITE. O OMBRO DE PEDRA, O QUEIXO ERGUIDO, A PICA-NARIZ, O MEU PSIQUIATRA. TUDO VIROU LIXO. TUDO VIROU MERDA E ENTROU NO MEU ESTÔMAGO, JUNTO COM AS OUTRAS MERDAS-PATRIARCAS. Abaixei minha cabeça e fui saindo. Ela me chamou.

 

— Meu, vem aqui.

 

Eu parei na frente dela. Só a carcaça de um ser humano.

 

— Desculpa se fui grossa. Sério.

— Tudo bem. A grosseria é algo intrínseco a vocês, mulheres, eu compreendo perfeitamente.

— Olha, não foi minha intenção. É que eu realmente tenho alguém. Esse cara, sabe, eu sou apaixonada por ele há anos. Muitos e muitos anos. E não falo com ele há meses. Meses e muitos meses. E hoje, HOJE, ele me ligou. E eu tô radiante, meu. Eu sou uma porra de uma estrela no céu. Você não vê? Eu estou brilhando de alegria. Eu não consigo pensar em absolutamente mais nada.

— Ele fez isso só pra te comer, você sabe.

 

Ela ignorou a minha estupidez e continuou falando por muito tempo. E nesse muito tempo eu fiz questão de expor toda a nojeira da raça masculina. Tudo o que há de pior sobre nós. Toda a nossa merda guardada na vizinhança do meu estômago, e no estômago de cada homem filho de uma puta como eu. E ela só ouvia, com aquele sorriso lindo no rosto. Ela ouvia e aceitava, e sabia que era verdade, e sabia que precisava daquilo para viver e sobreviver. E eu me sentia triste por mim e feliz por ela. Uma conformista. Uma linda conformista, capaz de conviver com um macaco albino como eu. Ela me abraçava e sorria. E fazia questão de ser linda a cada segundo. E eu sujo, desenvolvendo minha sujeira pela minha boca, que só cuspia aquilo que deveria ficar guardado. E ficamos naquela por um tempo. O tempo passou, ela me abraçou, eu acabei com a minha imagem ou com o que restava da minha dignidade, ela me abraçou mais uma vez e se foi, antes que eu pudesse saber o nome dela. Ela, com aquele cabelo vermelho e aquele rostinho.

 

Fiquei parado olhando para o nada por quase uma hora. O sol nascia lá fora e não tinha quase mais ninguém ao meu redor. E eu me senti em casa e me senti solitário e deprimido. Abri a porta e saí, com a garota da porta me dando tchau com o mesmo beijo no rosto, o mesmo cabelo loiro, a mesma magreza e a mesma cara de triste. Mas eu já não era mais capaz de me apaixonar. Eu era um descrente e a paixão já não fazia mais parte do meu leque de sentimentos.

 

Fui caminhando pelas ruas. A cabeça baixa e o coração em frangalhos. Chutando latas e pisando em anúncios e folhetos. E pisando no meu trabalho e no meu futuro. Cheguei em casa, escrevi alguma coisa na parede e fui para o banheiro. Abaixei minhas calças, sentei, fiz força e consegui. Finalmente. A merda saía. Eu conseguia expulsar parte da merda que estava dentro de mim havia tanto tempo. Eu ouvia choros e despedidas. A merda dando adeus ao fígado, que resmungava de dor. O coração maltratado, chorando por ser tão pobrezinho. Os pulmões em casa, chorando por terem trabalhado. Eu chorando por dentro e por fora. Cagar era uma emoção. Ver a merda deixar meu corpo era uma emoção. E as lágrimas escorrendo na mesma proporção da que a merda ia descendo. Fechei os olhos e senti a vida me deixar. O fim de semana tinha acabado e eu estava sozinho mais uma vez.

Um comentário para “Quando nem sua merda deseja você”

  1. João Vereza

    clap clap clap
    Bukowski + Lourenço Mutarelli
    = Victor Carvalho

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