Recém-casados

– Eu não acredito que só falta um sofá para completar a nossa sala!

– E eu não vejo a hora de comprar logo esse bendito sofá…

– Ai, Luciano, como você reclama. Você não se anima de passar uma tarde de sábado comigo escolhendo os móveis da nossa casa?

– Claro que sim, amor, é que a gente faz isso todo fim de semana desde que a gente se casou, faz quase oito meses! Além do mais…

– Além do mais o que, Luciano? Vai, reclama mais.

– Não, amor, é que hoje tem jogo às quatro, eu queria ver se consigo assistir com o pessoal, faz tempo que…

– Eu logo vi que tinha alguma coisa, quando você vem com esse papinho… Você não viu seu futebol no meio da semana? Aliás, você assistiu a jogos na terça, na quarta e na quinta!

– Eu sei, Sílvia, é que terça tinha rodada do Brasileirão da Série B, quarta teve a final da Libertadores e quinta era rodada do Brasileirão da Série A, como a gente tava sem fazer nada em casa, eu acabei assistindo e olha que…

– Luciano!!! Olha que linda essa mesa de centro! Olha que graça!

– Mas a gente não comprou uma mesa de centro na semana passada?

– Compramos, eu só estou comentando com você, ou nem isso mais eu posso?

– Claro que pode, é que…

– Olha só o preço! Muito mais barata e muito mais bonita que a nossa!

– Mas, Sílvia, você tinha achado a nossa maravilhosa, nós demoramos três meses para escolher, pesquisamos preços, matérias-primas, e você mesma…

– Achei! Luciano, olha este sofá! Meu Deus, que coisa mais linda este sofá! Era exatamente o que a gente tava procurando!

– Era?

– Claro que era, Luciano, você não presta atenção mesmo nas coisas, não é? Eu não tinha comentado com você que queria um sofá elegante, “classudo” e ao mesmo tempo moderno? Você concordou com tudo, lembra? Olha aqui, é esse. É exatamente o que a gente procura!

– Sílvia, mas este sofá é uma fortuna, é o mais caro de todos que vimos até agora!

– Claro, não é? Você quer qualidade, requinte, modernidade e não quer pagar por tudo isso?

– Eu quero?

– Claro que quer! Você não gostou, seja sincero… não olhe para o preço.

– Bom, eu achei bonito, sim, mas essa cor é meio feia, não? Parece um roxo, meio azeitona, estranho.

– Ai, mas a cor pouco importa, eu não quero que você olhe para a cor, eu quero que você olhe para o design. Meu Deus, que sofá, senta nele para sentir o conforto.

– É, é confortável, sim, tudo bem, a gente se aperta um pouco, faz em umas doze vezes e tudo bem, posso chamar a vendedora pra gente fechar o negócio?

– Calma, Luciano, a gente acabou de chegar, você já vai querer fechar assim, logo de cara?

– Ué, mas você não gostou deste? Não era o que a gente queria?

– Então só porque você quer esse eu não vou poder ver mais nenhum? Luciano, você é tão egoísta às vezes…

– Mas, Sílvia, você que falou que o sofá é maravilhoso, lindo, moderno e…

– Luciano! Olha este aqui, por favor, meu Deus, este aqui é perfeito, tão bonito quanto o outro, tão moderno e muito mais em conta.

– É, este aqui realmente tá muito bonito e é confortável também.

– Tá vendo? E você querendo comprar o outro! Ai, Luciano, tá vendo como não dá para ter pressa nessas coisas?

– Mas eu só falei pra gente comprar aquele mesmo porque você tinha adorado…

– Ai, Lu, mas este aqui tem um problema, você viu essa cor? Não é um pouco estranha?

– Mas, Sílvia, você não me disse que a cor não importava? Que o que importava era o estilo, o design, o conforto… Assim não dá para entender.

– Luciano, você tá com muita má vontade, isso, sim, eu odeio quando você começa com essas grosserias. Deixa pra lá, a gente vê o sofá numa outra hora.

– Bom, eu não vou discutir com você por causa de um sofá, vamos embora, então?

– Não! Vamos voltar àquela loja para ver de novo aquela mesa de centro, o que você acha?

– Mas a gente já comprou uma mesa de centro, Sílvia, lembra?

– Claro que lembro, mas qual o problema? Por causa disso eu não posso nunca mais ver mesas de centro? Vamos envelhecer e morrer com aquela mesa de centro que compramos?

– Mas já são quase três e meia amor, e o jogo?

– Que jogo, Luciano?

– Sílvia, a gente já falou sobre isso hoje, alguns minutos atrás, você não se lembra? Hoje tem jogo às quatro e…

– Ai, amor, olha ela aqui. Que mesa de centro, não? Sem brincadeira, olha que mesa de centro MA-RA-VI-LHO-SA!

– Amor, são quase três e meia… o jogo é às quatro…

– Tá bom, Luciano, tá bom… você é muito chato! Vamos embora, mas semana que vem sem falta eu volto aqui para ver esta mesa de centro de novo.

– Mas a mesa de centro a gente já tem, amor, não é melhor vir pra fechar o sofá?

– Luciano! Olha esse aparador! Para, esquece tudo o que eu disse, vamos nos concentrar apenas neste aparador, você trouxe a planta do apartamento? Será que ele cabe naquele nosso espaço do lado da porta? Sabe, ali em frente à mesa de centro que a gente comprou semana passada?

– Sílvia, mas ali você não queria pôr o sofá? Não foi por isso que a gente veio hoje aqui? Pelo sofá? A gente já tem dois aparadores na sala! Inclusive, um deles já fica quase em frente à mesa de centro!

– Ai, Luciano, não dá, sinceramente, não dá, você tem uma má vontade absurda! Vamos embora.

– Bom, eu não vou discutir, já disse…

– Antes de ir para casa eu quero dar uma passada na casa da minha mãe, tá?

– Amor, mas e o jogo?

– Que jogo, Luciano?

– Tá bom, Sílvia, tá bom! Chega, vamos para a casa da sua mãe e pronto.

– Ai, Luciano, você é tão grosso. Olha, sinceramente, viu? Eu já disse que… Luciano, espera! Olha que poltrona maravilhosa! Meu Deus do céu, que coisa mais linda!

– Desisto… vamos lá, Sílvia, vamos lá ver a poltrona…

– Ai, Lu, eu te amo sabia?

– E o pior é que eu também, Sílvia…

 

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