Reencontros

Foi ele quem veio até a mim; sorria. Havia meses que não nos encontrávamos. Na verdade, esquecera-me inteiramente dele, até de seu nome, memória que claudica mesmo o bom. Surpresa: não se esquecera de mim. Como podia?

Imaginava que a longa ausência apagara a minha suave presença de sua volátil memória. Afinal, não lhe dera nenhum presente, não lhe fizera nenhum favor, nada lhe prometera. Apenas quisera ser-lhe agradável, amistoso, afável. Só.

Demonstrou, contudo, uma fidelidade e felicidade caninas. Muito apropriadas, aliás, ao meu bom amigo. “Ô, bonitinho, quanto tempo, hein?”, saudei-o com entusiasmo, ao vê-lo se aproximar todo patinhas.

Acolhi-o com cafunés, acariciei seu cabelo curto e castanho, apertei e puxei suas bochechas, chacoalhei seu rosto entre minhas mãos, como sempre fazia com muito gosto quando o encontrava.

Meu bom amigo é um sujeito com o melhor pedigree das ruas. Já andou bastante. Já teve fome, já teve frio. Mora numa casa próxima, mas gosta muito de dar as suas voltas. Era o melhor amigo do meu amigo Geraldo, o segurança da rua, que se foi, tomara, para uma melhor. E que também um dia poderá retornar, para um reencontro nosso certamente feliz, como este de hoje.

Durou um minuto, talvez. Breve. Saltitante como viera, simpático como sempre, foi-se. Certamente nos veremos de novo. A morte inda demora para ambos, bem sei, e não parto para país ou cidade distante assim tão de repente.

O breve reencontro, ou breve despedida de meu fiel amigo, deixou lembrança boa e uma certeza para a frente: de que certas coisas não se perdem, apesar da ausência, apesar da distância, apesar do tempo. A gente permanece. Dentro da gente mesmo e dentro dos outros. São como objetos queridos, há muito esquecidos, que surgem de chofre da gaveta, à nossa revelia, quando procurávamos por outra coisa. E aí parece que era para ter encontrado aquilo mesmo, de que nem mais nos dávamos conta, mas que nos faz recordar de nós mesmos, da trajetória, das realizações, da gente que continua dentro da gente. Porque a gente se esquece, desatualiza-se da gente mesmo.

É da certeza de um passado bom, de um trabalho consistente de anos, que nasce uma tranqüilidade para tocar em frente a vida sem muito medo, posto que já vivemos senão muito, ao menos, bem. Vivi, amei. O passado, certeza do presente e do futuro. Reencontrar meu coração, eu vou.

Virá quem sabe voando, quem sabe mudo, quem sabe saltitante, como o meu amigo de hoje. Mas virá, para um grande reencontro. Reaprendo a doçura com os animais.

Um comentário para “Reencontros”

  1. Carlinhos

    A vida é dura, amigo Guilherme
    "Meu amigo Emanuel!!!", bradou aquela figura repugnante ao me ver. Não acreditei de imediato que ele poderia lembra-se de meu nome depois de tantas semanas. Mas era fato.

    É certo que não sou nenhuma dessas figurinhas comuns, que se vê e se esquece. Tenho personalidade, estilo, e me faço notar. Mas políticos vêem tantos como eu, todos os dias, que imaginava que até os distintos seriam jogados àquela faixa de seus cérebros em que nem o mais tenaz esforço traz à tona qualquer reminiscência.

    "Venha aqui, meu amigo, dê-me um abraço…Vamos tirar uma foto", fez questão de bradar, percebendo que sua tentativa em me constranger era muito bem-sucedida. Chamou o fotógrafo que cobria o evento e ordenou o clique. Tá lá, registrado em acetato e papel.

    Eu, um cara de esquerda, convicto, ativista, ao lado daquele em que jamais imaginei nem mesmo chegar perto, dado o asco que me provocava. Mesmo assim, tirei de letra. Não reagi, não acusei o golpe, não baixei minha cabeça. Se é me constranger que ele quer, pode até ter algum sucesso, mas não vai me fazer corar, nem perder a elegância.

    Eu dava meus primeiros passos na profissão. Apenas um "foca", com diziam (nem sei ao certo se dizem mais, já que não há mais calandras a serem carregadas). Poucas semanas antes, participei daquela coletiva com outros "focas", como eu. O alcaide sentado à cabeceira da grande mesa de reuniões. Nós, em volta, ansiosos por arrancar as palavras que queríamos ver sair de sua boca.

    Acho que foi justamente esse meu erro: ansiedade. Como jovem, não dominava as malandragens, os truques que depois vim a aprender para tirar aquilo que queremos do entrevistado.

    Fui direto, sem subterfúgios:

    "Como o senhor explica aquela obra superfaturada?"
    "Sua família é acusada de se beneficiar de negócios com a prefeitura."
    "Como o senhor reage ao ver seu nome dar origem a um verbo cujo principal significado é roubar?"

    Nada o abalou. Perguntou meu nome…

    "Meu amigo Emanuel, entenda: eu sou o responsável pelo desenvolvimento dessa cidade. Sabe aquela ligação entre a zona Leste e a Oeste? Eu que fiz. E a ponte sobre nosso principal rio? Eu que fiz. Aquela rodovia? Também fui eu que fiz…" Desfiou um rosário de obras e feitos que nem mesmo o mais paciente dos monges ouviria passivamente sem se alterar.

    Terminada a entrevista, cumprimentou cada um de nós, chamando-nos pelo nome e exibindo aquele sorriso tenebroso de quem esconde o que realmente está pensando.

    Pois não é que todas essas semanas depois ele ainda lembrou meu nome. A lenda sobre sua memória era realmente verdadeira. Ouvi até teorias de como ele fazia para se lembrar dos nomes de quem conhecia: associações entre nomes e figuras.

    A verdade é que ele me fez tirar uma foto a seu lado, que está, com certeza, registrada em alguma gaveta de arquivo.

    Mesmo convicto de que a vida é dura, hoje, penso no quanto aprendi naqueles dias e vejo que, apesar de a juventude ser uma coisa magnífica, a experiência é absolutamente necessária para que saibamos lidar com as coisas da vida.

    Pois é, aquele que me causava repugnância e asco me ensinou algo.

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