Relacionamento-esponja

 

Quando um homem lava a louça, nos rouba um direito sagrado: reclamar de lavar a louça. Choramingar unhas descascadas, água fria, torneira de água quente dando choque, detergente que resseca as mãos, “tá pensando que tem empregada nessa casa?”, enfim.

 

Reclamações que, se feitas na hora e no tom certos, rendem. É uma coisa meio máfia, meio Dom Corleone. Você deixa o cara em dívida, pra depois fazer uma proposta que ele não pode recusar.

 

E outra: quando você lava a louça toda, sem deixar nem uma panelinha difícil escondida de molho, conquista um trunfo valioso: falar em alto e bom-tom, já secando as mãos: “Não vou secar nem guardar”.

 

É libertador. Porque todo mundo sabe como é grande a tentação de só fazer a parte mais fácil e justificar: “Olha, só deixei as panelas porque tá foda. Eu avisei pra você não derreter aquela merda lá dentro”.

 

Mas o ápice de lavar a louça mesmo é o tapa. Eu só fiquei na cozinha até agora pra falar disso. Quem está na pia sabe que, em algum momento entre a travessa e a escumadeira, vai levar um tapinha na bunda. Nada combinado, é um acordo velado de todo relacionamento feliz e sem frescura, e isso nenhum homem proativo, que leu na revista Nova o quanto é legal dividir as tarefas, pode nos tirar.

 


*Katiany Pinho é publicitária, cronista e roteirista de TV com séries produzidas pela RBS TV, de Porto Alegre. É coautora do livro “Convergências Midiáticas ― Produção Ficcional” (Sulina, 2010).

4 comentários para “Relacionamento-esponja”

  1. Fernando

    Muito, muito bom !!!

    Descobri que sou sacana: lavo a louça com frequência …

    Mas em compensação, não fico só no tapinha não … sou um pouco mais … proativo ! rsrs

  2. Lígia Fontes

    Kkkkkkkkkkkkkk pior que é!

  3. Marcos Hiening

    Adorei o tom do texto. Ironia e bom humor.

  4. Juliano

    Hahahahaha excelente
    Moça esperta!

Comentário