A república dos sapos

A extensão de terra com poucas árvores e muitos arbustos era chamada de República dos Sapos. Uma grande pedra no centro do lago de águas densas que refletiam a luz do sol como espelho. Pequenas folhas serviam de locomoção até a pedra protegida pela segurança nacional composta de sapos sem coloração aparente. As casas no bairro dos arbustos com população numerosa. A principal função dos moradores da república: caçar à noite moscas arrecadadas nas manhãs pelos guardas de grandes línguas. Cada sapo contribuía obrigatoriamente com cinco insetos diários para a nação. Contados rigorosamente pelos olhos enormes dos sem coloração.

Todos tinham medo do castigo de não conseguir o pagamento mínimo de moscas, conhecido pela sigla CPMF (Contribuição Provisória de Moscas Federais). Os sapos magros contribuintes recebiam do governo todo o respaldo para uma vida sem grandes dificuldades, uma mosca por dia. O necessário para a dignidade nas terras do lago de águas densas e esverdeadas. A pena da inadimplência do imposto era de três dias sem alimentação e a expulsão da instituição. Os que sobreviviam ao castigo vagavam fora da demarcação da terra, entregues às cobras e garças. Esforçavam-se exaustivamente no decorrer da madrugada para captar o maior número de moscas possível.

Um jovem recém-saído da condição de girino, filho de um conhecido caçador de insetos, revoltado com a situação de poucas moscas para a alimentação da comunidade e o governo do Sapo Maior, organizou reuniões durante o dia. Distribuiu panfletos, colou cartazes nas pequenas pedras do bairro. Aos poucos, os magros moradores cederam pela forma do pequeno falar. Ganhou o apelido de Soprador. Suas palavras eram como um sopro no ar de raros ventos. No início, três presentes. No sétimo mês, somaram quarenta e dois sapos contra a obrigação da contribuição. Esperança para uma nova situação na grande pedra no meio de águas esverdeadas.

O outono da manhã e o domingo de chuva. Enormes folhas com dizeres contra o Sapo Maior, e caules balançados ofensivamente. Todos os moradores na rua quando os arrecadadores chegaram para cobrar as moscas do imposto. O pequeno Soprador ordenou a tomada do governo. A guarda foi vencida e jogada para fora da extensão de terra. A grande pedra tomada. As esquinas do bairro dos arbustos repletas de sorrisos e abraços emocionados da população. Insetos distribuídos gratuitamente e uma nova guarda nomeada pelo Soprador que gritava do alto da pedra, em pleno pronunciamento do fim da CPMF. Instituída a nova república e a retirada do Sapo Maior.

Os primeiros meses brandos e leves do governo do pequeno Soprador. Nenhum morador obrigado a contribuir com moscas. A caça foi legitimada para consumo familiar. O povo livre. Filas enormes no caminho da grande pedra para a distribuição dos insetos diários. Certa noite, ao término de um dia de vento leve nas folhas, Soprador fez um pronunciamento na metade de seu terceiro ano de presidência. Os olhos arregalados dos moradores nas frases do discurso. O estoque de moscas estava no fim e o pequeno presidente ordenou a caçada noturna para abastecer os recursos. Na manhã seguinte, a guarda nacional de outra coloração bateu nas moradas para cobrar os impostos. E os sapos magros sentiram o medo da inadimplência.


Imagem: http://tamron.myphotoexhibits.com

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