Segredo

Colocou a chave na fechadura; girou-a. Entretanto a porta não abriu. Girou a chave novamente, para um lado, para o outro lado, outra vez e mais outra. Forçou um pouco para a direita, mais um pouco. Temeu que entortasse ou quebrasse. Parou.

Teria trocado o segredo? Teriam trocado o segredo? Exceto vítima de crise repentina de amnésia aguda, não tinha mudado a fechadura, o segredo da tranca. Teria sido a Dona Zezé? Mas já havia muitos anos que ela não limpava sua casa. E, na verdade, já mudara da casa que ela limpava havia mais de três anos. Não, não podia ser a Dona Zezé.

Insistiu com a chave. Introduziu-a na fechadura com maciez e girou-a com gentileza, apurando o ouvido, lentamente. A fechadura fez um clique e ele se animou. Foi um clique apenas, pois a fechadura não abriu.

Teria errado de apartamento? Não, o número 53 na porta de madeira, escrito em letras de ferro, embolorado, sujo, oxidado, coberto de pó, estava ali, torto como sempre, pendendo para a esquerda.

Teria errado de prédio, então? Improvável. Lembrara bem de ter saudado, à entrada, o Seu Antônio, o porteiro, com a saudação habitual: “Tudo bem, meu amigo?”. Ou fora isso ontem? Ou anteontem? Não, semana passada, não.

Tateou a porta em busca de uma marca definitiva. O corredor de entrada estava escuro, dificultava o exame. Confiou no tato, desceu a mão direita pelo batente, voltou para o miolo da porta e ajoelhou-se, correndo a mão. Ainda estava ali. Em forma de coração, feita com a ponta da chave que ora tinha em mãos: “Pedro e Lígia”. Certamente encontrava-se à entrada de seu apartamento; era impossível que houvesse uma inscrição como essa num apartamento 53, de porta escura e descascada, com o número inclinado para a esquerda.

Mas a porta não abria, por mais que revirasse a chave em todas as direções. Quem teria feito isso? Alguém queria pregar-lhe uma peça? Haveria uma câmera escondida, a captar toda a sua agonia, toda a sua incerteza, para exibi-la depois como peça cômica em programa público de tevê?

Ou será que seus inimigos (mas tinha ele inimigos?) haviam tomado de assalto seu apartamento e o observavam em silêncio, o ouviam lá de dentro, escondendo a custo a vontade de riso, seus passos vacilantes por debaixo da porta, o cobrir e descobrir de luz do olho mágico?

Ou seria Lígia? Teria retornado, depois de dez anos? Estaria lá dentro? Talvez houvesse deixado sua chave no outro lado da fechadura e por isso não conseguia abrir a porta. É, bem podia ser isso.

Lígia! Estaria deitada, dormindo? Ou ao espelho do quarto, apoiada sobre a cama, de pernas cruzadas, secando os cabelos orvalhados depois do banho, o rumor do secador a preencher os vazios da casa, os vazios do peito dele? Pareceu-lhe que havia aroma de café no ar. Lígia sempre fazia café e nunca tomava leite.

Ou seria ele quem voltava, após ausência de anos, ou de horas, ou de minutos? O pacote de pão fresco, ainda quente, levava no braço. Notou no papel pardo o número 6 em vermelho. Não eram só para ele, os muitos pães. Trazia pó de café, também.

Experimentou a campainha, então.
 

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