Semana da alta

Segunda-feira

Ela não cala a boca. Desde que chegamos, é essa falação. Ora, Vicente, não vamos nos importar com essa falsária. Faz sentido a nossa sogra segurar nossa mão e gastar lamúrias conosco, o genro abominável? Essa diaba tagarela quer perdão. Bicho ruim, passou a vida entupindo os ouvidos de Dora contra o nosso casamento. Vicente, não tente gritar. Cê não percebeu, mas voltamos do hospital com a língua muda. Desculpe te contar assim. Respiremos, é muito para assimilar. Onde está Dora? Quando ela voltar, tudo melhorará, bote fé.

 

Terça-feira

Até agora, nada de Dora. Quem vem lá com uma fralda nas mãos? A sogra. Vai nos limpar. Que humilhação. Antes tivesse ficado na toca, cobra. Se Dora tivesse chegado, nos levaria ao banheiro como sempre fez. Vicente, não arrisque levantar. Cê não percebeu, mas voltamos do hospital com o lado direito imprestável. Respiremos, respiremos. Cadê Dora?

 

Quarta-feira

Vicente, estava ruminando cá. Como pôde Dora deixar a coroca arrependida conosco? Quando Dora chegar, teremos de protestar contra a presença deste encosto. E defrontar essa ausência de Dora. Quem jura amor no altar permanece até a morte. O padre nos garantiu esse direito. Vicente, não arrisque descobrir o nome do vigário. Cê não percebeu, mas voltamos do hospital com a memória embaralhada. Respiremos, respiremos, respiremos. Cê viu Dora?

 

Quinta-feira

Esquisito, esse jeito da velha. Limpa nossos excrementos com compaixão. Tem vez que chora abafado, percebeu? Me parece sincera. Será que sucedeu alguma desgraça com Dora? Eis o porquê do sumiço? Do pranto escondido? Da remissão da sogra? Nós, feito castigo? Onde está o nosso filho para nos ajudar? Espere. Vicente, não arrisque lembrar se temos filho. Cê não percebeu, mas voltamos do hospital com a cabeça mexida. Respiremos, respiremos, respiremos, respiremos. Dora?

 

Sexta-feira

Vicente, a velha está chorando de novo. Melhor abandonarmos a esperança. Dora não virá. A cobra cuidará de nós até o fim. Só nos restam o cheiro fétido da morte e as visitas. Veja esta outra velha, mais velha, bem velha, que nos visita agora. Parada ali na porta, mão na maçaneta, matracando com a cara carrancuda… Parece soltar veneno pela boca. Me lembra alguém.

— Falo mesmo, não adianta chorar, Dora. Não criei filha pra limpar bunda de semimorto.

— Mãe, agradeço a sua visita, mas sai da porta? Desde que ele voltou do hospital, me olha nervoso. Imagina se vir você? Me espera lá na sala.

— Dora, o inútil nem sabe mais quem é quem, minha filha. Virou resto de feira, falta só dar de comer aos vermes. Antes tivesse morrido!

Não, Vicente. Não arrisque ouvir a conversa. Cê não percebeu, mas voltamos do hospital com o ouvido falhado. Respiremos, respiremos, respiremos, respiremos, respiremos…

 

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