Seu Miguel

Passo ao lado de Miguel. Cansado do trabalho, vejo e falo apenas o necessário. O velho de olhos grandes, depois de ouvir alguns de meus balbucios, olha agradecido. Não o maltratei, não lhe atirei pedra. Alguns meninos tinham o costume de atazanar o homem, que quase sempre sorria mostrando a falta dos dentes. Os meninos sorriam mais ainda, e Miguel talvez pensasse que a brincadeira, ainda que insistente, não passava de uma destas coisas que faz a gente.

Bom-dia, Seu Miguel. Como vai a vida? Sem jeito e possivelmente surpreso, o homem sentado à beira do portão respondia apenas que a vida ia indo. Parecia hábito responder nessa mistura de ação passada e presente. Que coisa é essa que a gente sente que faz da vida uma mistura potente dos tempos e das gentes que conhecemos! Talvez Miguel, viajo em minhas suposições, tivesse mais apreço pela vida em sua cadência natural: os meninos atazanam os velhos, os velhos sorriem com alguma sabedoria, os outros, entre os velhos e os meninos, criam ares de respeito e, aos meninos, lançam sua reprovação. Os velhos precisam ficar quietos?

De qualquer forma, para a resposta mista, há tantas outras possíveis. Sempre pergunto, quando ouço o mesmo, a resposta polida, convencional, para onde afinal vai a vida? Pois é como aquele menino que passa ligeiro que olho Miguel, com mistura de incômodo e compaixão, e o desafio: para onde vai a vida, Seu Miguel?

Não paro para ouvir a reposta. Sigo, mas longe escuto o coração batido. E agora, com voz rouca e potente, convida-me: Ah! Meu amigo. A mim, não resta dúvida, ainda que cansado, a palavra estabelece esse fascínio. Não declino, ao contrário. Gosto das conversas ao acaso, não daquelas marcadas. É no improviso da palavra que mais encontro o autêntico. Sei que nem todo mundo gosta, mas uma conversa faz circular a palavra. Tenho gosto incontrolável pelos vacilos da fala, o ato desatento, a falha, a ideia que escapa, os silêncios, as escolhas das palavras. O encontro marcado, ainda que falte o improviso do encontro casual, encontra sua hora e a palavra marca o tempo, o corpo e a alma.

Seu Miguel continuava sentado. Não sei do tempo. Que passe a hora! Que se acabe o mundo! Tem nas mãos as marcas de uma vida de trabalhador das estradas. A bengala repousa ao seu lado e o cachorro, esse bicho cheio de graça, fúria e cuidado, fica mais atrás, perto da porta de entrada. O cão me olha sem interesse e eu retribuo com o mesmo desprezo. Miguel aguarda. As mãos pousadas nos joelhos. Os olhos apertados de sono, imagino. Chego como quem não sabe direito aonde está chegando. Chego como quem só sabe que é preciso improvisar.

O homem calmo figurava na paisagem como um guardião. Tranquilo, parece guardar em si a fúria do cão. Os cabelos brancos rendiam-lhe ar de experiência. Era um homem grande, homenzarrão. O tempo tirava-lhe a altura e os dentes, não o ímpeto, a majestade. Ofereceu-me café. Não bebo. O cão, adormecido, faz um ruído que parece dar-me consentimento. Eu, impaciente, apresso-me à conversa. Que fascínio! Não temos assuntos. Não os decidimos. Mas o silêncio, já disse, também é fascinante. Vou longe. Docemente Miguel, o que contrasta com seu tamanho, alerta-me que vai chover. Aprendera com sua avó e agora pode sentir nos ossos frágeis o tempo virar. É como um corpo que, solto no ar, consegue perceber os mínimos deslocamentos. Eu retorno.

Olho em volta, tudo parece ter seu lugar. Alegra-lhe minha presença. Chama-me de filho e diz que há pouco encontrou a paz. É assim que a morte chega, filho. E, sem medo aparente, Miguel lembra o que toda gente considera inconveniente. Não me aborreço. Faço apenas silêncio. E Miguel percebendo meu desapego prossegue sem medo.

Rende alguma homenagem à vida. É tudo o que queria. Sentado por quatro horas, ele dizia, sente cada fluxo de sangue, cada giro do coração, cada espasmo de seus músculos respondendo ao ar. O corpo não é estranho. É nesse lugar que, quando toda identidade falta, encontra abrigo a alma. O mais garantido destino de nossa ideia.

Descreve-me a presença de Deus, o receio que em outros tempos teve da vida. Era homem tímido e intranquilo. Os amigos diziam que era mole, gentil demais. Isso, concluía, lhe custou muito. Não sabia, nunca soube, dizer não. Preocupava-se com que as pessoas gostassem de seu jeito. Eu o provoco: sou aparentemente antipático. Mais ainda quando se trata em ouvir falar sobre o além. Desumano, demasiado humano.

Por outro lado, apesar de meu desinteresse no além, a relação com o mundo que o homem formava era no mínimo bela. Deus não passava de um detalhe entre as coisas. Um brilho que se apaga nas coisas dispostas. Evanescente e eterno. No balançar da árvore, no cachorro que repousa no canto, na mão que descola o ar. Ao mesmo tempo, Deus é tudo e nada.

O homem calmo escutava atento as poucas palavras, não quero interrompê-lo. Sem me interromper, ele diz em um tom doce e cortante: Ah! Meu amigo. Não sei exatamente o que a expressão queria dizer. Ele a repetiu tantas vezes após algumas de minhas frases-navalha. O trabalho corrido, o tempo que não sobra, faz da gente máquina. Algo similar às engrenagens desumanizadas que operamos e que nos operam. Eu, ao fim, chamei-o de amigo. Um sorriso, aquele cínico cheio de coragem, selava a quebra do formalismo. Amigo é ser cínico.

Miguel, Seu Miguel, sem sobrenome, é agora mais que um homem sentado à beira do portão ao lado de seu cão. É mais que o homem que tolera os meninos e as brincadeiras. É a coragem de ser, mesmo que após toda a vida, o que se é. Em mim, espero encontrar alguma parte de sua coragem.

Imagem: pixabay.com

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