Só por hoje

 

Quando os pais ouviam notícias de adolescentes e jovens que acabavam com suas vidas nas drogas, juntavam as mãos pedindo a Deus que seus filhos nunca passassem por isso. Mas o problema não era somente as drogas ilegais, como também a falta de cautela com aquilo que era legal.

 

Com a popularização dos meios de acesso à internet, os problemas de dependência virtual começaram a aparecer em todo o globo terrestre. No Brasil, a partir do ano de 2005, especialistas começaram a alertar pais, professores e autoridades. Eles previam que, a partir do ano de 2020, o país teria de gastar milhões no tratamento de doenças causadas pelo uso excessivo de aparelhos eletrônicos conectados à internet. Óbvio que, diante de tantas demandas urgentes da sociedade, nenhum governante se preocupou com o fato. E mesmo que se preocupassem teriam de adiantar as reservas financeiras. É que, a partir de 2010, pacientes começaram a dar entrada nos hospitais e clínicas particulares com doenças parecidas em todos os casos.

 

O ministro da Saúde estranhou a quantidade de remédios e cirurgias para o combate a hemorroidas. Quando procurou entender a epidemia da doença, viu que na maior parte dos casos o problema era causado pelo tempo que o paciente ficava sentado utilizando o computador. Em algumas situações, o usuário passava até seis horas seguidas sem tirar a bunda do assento.

 

Após o surto das hemorroidas, começaram a surgir pacientes, tanto homens como mulheres, com infecções na bexiga. Ora, se as pessoas passavam todo este tempo sentadas, sem ir ao banheiro, claro que isso era de esperar.

 

Prevendo uma grande demanda de pacientes que utilizariam o sistema de saúde pública, o governo federal resolveu elaborar mecanismos para evitar que o cenário piorasse. Fosse um surto, como a gripe aviária, as autoridades teriam encomendado uma vacina e papo encerrado. Mas é um problema que veio sorrateiro, como o cigarro e o fast-food, obrigando a sociedade e o governo a criarem campanhas após algumas décadas do surgimento do produto.

 

Nesse caso, o engraçado é perceber que a Presidência da República criou um problema solucionando outro. Basta ver que a acessibilidade virtual foi uma das principais bandeiras do presidente em exercício. Mesmo a população tendo a memória curta, alguns brasileiros hão de lembrar do debate para o cargo de presidente nas últimas eleições, em que o candidato à reeleição falava satisfeito da erradicação da pobreza e do analfabetismo, e que o próximo passo seria a inclusão digital de todos os brasileiros.

 

De fato cumpriu a promessa.

 

Logo no primeiro ano do segundo mandato, as escolas públicas começaram a receber tablets, que foram distribuídos tanto aos professores quanto aos alunos. Daí só faltava o acesso à rede mundial. Alguns podem dizer que, antes do tablet e do acesso, o governo bem que poderia ter pagado cursos de informática para a população. Mas analisando o fato de que os maiores interessados eram os adolescentes e os jovens, e que eles, de uma década para cá, já nasceram sabendo abrir e fechar qualquer aplicativo, o Ministério das Comunicações descartou a hipótese dos cursos de informática.

 

Basta ver que aquelas escolas de informática que abriam aos montes, qual igreja e boteco, hoje não existem mais. Então, além dos tablets, o povo brasileiro teve acesso à internet por meio de um sinal via satélite. Para conseguir acessar, bastava incluir o número do RG e do CPF. Claro que os casos de hemorroida e de infecção urinária foram só o início de uma catástrofe. Depois vieram as lesões por esforço repetitivo. Em seguida os atropelamentos, causados tanto por motoristas quanto por pedestres, ambos de olho nos celulares com acesso à internet. Incrível como o número de adolescentes e jovens mortos em acidente de carro cresceu. E, acreditem, quando chegou o ano de 2020, absolutamente todos, com exceção dos bebês, estavam conectados. Crianças, adultos e idosos multiplicaram a lista dos incluídos digitais. A promessa de campanha do presidente estava cumprida.

 

Foi-se notando a mudança de alguns hábitos típicos do brasileiro. Até algum tempo atrás, por exemplo, era comum ter vizinhos batendo à sua porta à procura de um bocadinho de sal, café ou açúcar. Antes da liberação da internet gratuita, esses mesmos vizinhos batiam à sua porta pedindo a senha do wi-fi.

 

Outra mudança foi na famosa “serra do cigarro”. Aqueles indivíduos que antes pediam, “Aí, descola um cigarro?”, hoje dizem assim: “Aí, empresta seu celular pra eu ver se chegou mensagem na minha rede social?”.

 

E saibam vocês que aqueles grupos dos NA (Narcóticos Anônimos) foram dando lugar às do DVA (Dependentes Virtuais Anônimos). Que os coordenadores dessas salas não me ouçam, mas vou contar aqui alguns acontecimentos compartilhados nestes ambientes.

 

A linguagem utilizada pelos adictos virou totalmente virtual. É muito comum ouvir abreviações, como vc, fds, tc, e palavras, como compartilhar, curtir, enviar, anexar, salvar, entre outras. Veja, por exemplo, este testemunho:

 

“Boa-noite! Hj eu vim disposto a compartilhar a minha história. Espero receber muitas curtidas e comentários de vcs. Vou começar contando a minha linha do tempo. Primeiro quero dizer o que tô pensando neste momento. Meu principal objetivo é desfazer a impressão que as pessoas têm de mim, pq parece que na minha cara está anexado um documento ou arquivo dizendo que sou palhaço. Mesmo qdo amanhece um novo dia e estou atualizado, esta impressão permanece. Pesquiso a página inicial, melhor dizendo, a home ou cara, como alguns preferem, e vejo os olhos que me enviam.”

 

Assim caminhavam as salas de DVAs.

 

Para pôr fim a esta situação, a Presidência da República tomou uma medida radical: começou a fazer racionamento da internet. No início, o sinal era liberado uma vez ao dia, durante o horário comercial. Depois, não tendo alcançado o objetivo, resolveram liberar somente nos cinco dias úteis da semana. Até que adotaram um método desafiador, comparando a dependência virtual com a dependência química. Criaram a redução de danos virtuais. Aqueles que não pudessem ficar sem, correndo o risco de suicídio, receberiam o sinal em doses homeopáticas todos os dias, inclusive aos domingos e feriados, mas com acesso restrito a uma rede social, a um e-mail e a um blogue. Nisso deram espaço ao tráfico virtual, em que o traficante comercializava aplicativos que burlavam o sistema federal e davam acesso a tudo. É do conhecimento de toda pessoa bem informada que quem sempre ganhou dinheiro com as drogas ilegais foram as pessoas que figuravam no topo da lista dos mais ricos do mundo. São aqueles donos de aeroportos, aviões, castelos etc. Claro que eles continuariam ganhando com esse novo meio ilegal de tráfico, pois, além do dinheiro, também tinham o conhecimento e bons contatos. Desse modo, meia tonelada de cocaína transportada em helicóptero virou coisa do passado.

 

Aí, vieram consultas públicas e plebiscitos sobre a liberação, proibição e a descriminalização da internet. Que não deram em nada, pois, enquanto o governo aguardava milhões de sugestões via internet, os usuários aproveitavam o sinal liberado para navegar à vontade.

 

Como os acidentes e doenças não paravam, cortaram por completo o sinal público. Aqueles que realmente dependessem da internet, por trabalho ou por outras necessidades, tinham de fazer um cadastro rigoroso, apresentar um projeto, esperar a licença e, se aprovado, ainda aguardar até trinta dias para a liberação do sinal. Parecia com o processo para conseguir a concessão para uma rádio comunitária. Nem preciso dizer como cresceu e ficou vantajoso o tráfico de sinal e de aplicativos ilegais, e o compartilhamento de sinal por meio de roteadores, precisando que o Exército fosse às ruas.

 

Sem alternativa, a Agência Nacional de Telecomunicações resolveu intervir de forma única. Chegou o dia crítico em que o presidente veio a público esclarecer as medidas tomadas. Aquela cena que só vemos nos filmes, ou quando acontecem ataques, como o 11 de Setembro, tornou-se real: milhões de brasileiros nas casas, padarias, bares e vitrines de lojas olhavam atônitos para a tevê por causa da notícia do corte geral da internet. E só tiveram consciência do problema em que estavam metidos, quando o presidente encerrou a fala oficial com a frase que só era ouvida nas salas de NA.

 

“Até que achemos uma solução permanente, brasileiros e brasileiras, é isso o que faremos no momento: só por hoje”.

 

*Sacolinha ([email protected]) é escritor. Escreveu “Graduado em Marginalidade” (romance), “85 Letras e um Disparo” (contos) e “Estação Terminal”, entre outros. Leia mais do autor clicando aqui.

 

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