Sobre o humano, o constrangimento e o cafezinho

 

 

 

Eu, diferentemente de Judith Rossner, que ia De Bar em Bar, perambulo de mesa em mesa tentando entender um pouquinho desse bicho tão racionalmente irracional que é o ser humano. Saio da minha cozinha e vou de carona nas mãos de um garçom, me equilibrando sobre a bandeja (só eu sei como isso pode ser desagradável).

 

E quando chego à mesa, preciso dividir a atenção com muita “gente” ao meu redor. Sim, houve um tempo em que eu era a estrela. Hoje, talvez nem seja notado. É tablet, celular, notebook, netbook.

 

Eu sou sorvido, a maior parte das vezes, sem nem sequer ser olhado. Me sinto meio estranho. Parece que se fosse eu ou uma insossa xícara de chá daria na mesma. Sou aquela companhia invisível. Me sinto uma desculpa. É como se fosse apenas um motivo pra estar ali.

 

Por vezes chega a ser constrangedor. Contudo, sou capaz de tirar proveito de situações assim. Como? Observo mais ainda. É quase uma vingança inofensiva e imperceptível a olhos pouco cuidadosos. Você não me vê, mas eu te vejo. Você não me percebe. Não quer me entender. Mas eu te sinto por inteiro. Te olho sem você nem imaginar estar sendo olhado. Consigo entender sua vida inteira e de mim você tem apenas um gole.

 

Você, caro amigo, vai embora sem se despedir. Às vezes me deixa lá, solitário, na mesa. Mas vai se lembrando de mim. Do bom momento que passamos juntos. Vai com o meu gosto na boca e na lembrança. Eu, por minha vez, saio logo dali e vou para a próxima mesa. Escrevo sobre você. Rio. Em algumas situações, choro. Mas escrevo sobre casos. O seu e o de outros.

 

Assim, não tenho mais amigos fiéis. Aqueles que voltam sempre pra me ver. Tenho apenas encontros esporádicos. Em alguns, sou feliz. Em outros, nem tanto. O mais interessante disso é quanto algumas pessoas gostam de me exibir como símbolo de tranquilidade. Segurança. Felicidade.

 

Muitas vezes estão ali, sentadas. Tristes. Cabisbaixas. Mas tiram o celular do bolso. Montam uma mesa interessante e escrevem: “Tarde tranquila” ou “Como é bom tomar café com os amigos” ou qualquer coisa do gênero. E postam nas chatas redes sociais. Me usam. Mas continuam sem me ver. Talvez não se enxerguem, também. Não as culpo. A mim já não importa.

 

O que importa é o que eu sei. É o que eu sou. E eu sou o seu cafezinho. E estarei aqui. Sempre. No mesmo lugar. E você, meu caro, sabe onde me encontrar quando precisar de silêncio. Me veja ou não. Me fotografe ou não. Meu único desejo é que, quando estiver comigo, esteja. Seja capaz de me sentir. Mas cuidado. Como disse Ana Carolina em uma de suas músicas, “eu também sou feito de deixar de ser”. E no meu caso… Bom, no meu caso, o que posso fazer é chegar frio. Gelado. Irreconhecível até para você.

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