Sobre protagonistas, cotidiano e provas

 

 

E aquele era um domingo normal. Normalíssimo. Eu ia e vinha nas bandejas titubeantes. Observava. Ouvia. Correria no salão. O céu, do lado de fora, por vezes se fechava. Por vezes se iluminava. Aquele arzinho frio, um tanto outonal. Enfim, nada excepcional.

 

No entanto, aquele podia ser um dia como outro qualquer para mim. Para a moça na mesa ao lado. Para o senhor que passava na rua. Para o bebê que dormia no carrinho. Mas para ele não era. Para ele era o dia. Um dia decisivo. Para o qual havia se preparado.

 

Sentou-se um tanto ansioso. Senti suas mãos geladas em minha xícara. Um tanto trêmulas, talvez. O olhar apreensivo. E a respiração ofegante. Trazia consigo um caderninho com anotações. Canetas azuis e pretas. Lápis. Borracha. Apontador.

 

Sem dúvida estava a caminho de uma prova. Dava um gole em mim. Pegava o caderninho. Lia um trecho. Fechava e dizia baixinho: Tudo que eu sei, eu sei. Melhor não ler mais nada. Mas não aguentava. Minutos depois, pegava o caderno novamente. Fechava rapidinho. Pegou uma revista. Deu uma lida. Não conseguiu se concentrar.

 

Foi então que tocou seu celular. Essa é a parte de que nunca gosto. Ô, aparelhinho antipático. Não ouço quem está do outro lado. Perco parte da história. Além de ter que conviver com os desagradáveis tremores causados na mesa pela sua função “vibrar”. Pronto, falei.

 

Voltando para o nosso amigo. Ele atendeu o telefone e falava para alguém do outro lado da linha: Eu não estou nervoso, não. Fique sossegada. É… Cheguei cedo demais… Pois é, fiquei com medo de me atrasar.

 

Esse dia tão comum. Era para ele definitivo. Decisivo. Havia acordado às 5h30 para chegar às 8h no local. Se é que dormiu. Era um dia daqueles em que “vai ou racha ou arrebenta as borracha”. E ninguém percebeu. Ele não precisava, nem queria que percebessem. Encontrou em mim, seu cafezinho, uma boa solução. Meia hora depois levantou, esticou a camiseta. Certificou-se de que nada ficara esquecido sobre a mesa e sumiu na multidão, que já se aglomerava nas ruas da cidade.

 

Era mais um. Meu personagem principal, em questão de segundos, tornou-se mais um. Com seus problemas. Suas angústias. Sua calça jeans. Sua camiseta branca com uma mancha na barra. Mais um. E eu, como sempre, voltei para a pia. Pronto para o próximo coadjuvante com ares de protagonista.

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