Sobrevivência

Os aviões rasgam o céu limpo de uma madrugada fria em voo rasante, acordando toda pouca vizinhança que ainda restava e sobrevivia. Vizinhança essa, apavorada em escutar esses trovões de aço cortando o céu. Nunca podia ser bom sinal, a prova disso era a falta da perna direita de um dos moradores, que logo tratou se colocar sobre as muletas e se aprontar em frente a porta. O local estava certo, mas seu próximo movimento dependia muito do próximo barulho, se trancaria e botaria a tábua grossa na porta ou se tentaria sair correndo pulando o mais rápido que pudesse.

O silêncio o acompanha por alguns minutos, até ouvir passos no fim do corredor do lado de fora. Morava em um prédio de três andares com outros dois vizinhos, o restante ou estava morto, ou conseguiu a sorte de atravessar a fronteira e seguir algum caminho. Apesar que, nesse momento, talvez fosse sorte estar morto também.

Os passos aproximam da porta, suou rezando para que fosse um dos seus vizinhos. Prontifica-se de colocar a tábua na porta o mais rápido e silencioso possível. O que o fez por um momento esquecer-se de uma das muletas que desabou no piso de madeira velha e maltratada, fazendo o maior estardalhaço. Abruptamente interrompe seus movimentos, parando como se fosse uma estátua arqueada para o chão. Nem um piu do lado de fora. Volta a se mexer lentamente, descongelando a precaução.

Três batidas firmes na porta, não tão firmes, mas o suficiente para arrancar um “Puta Merda!” da boca do pobre manco.

— Demétrio você está bem? — Pergunta do outro lado.

Reconhece a voz, e a sensação de um ataque cardíaco iminente começa a passar.

— Nossa, quer me matar?! — Responde agachando-se e apanhando a muleta. — To bem, sim. Quer entrar, Valéria?

— Me desculpe. Te assustei, não foi? Não tive intenção, vim verificar se você estava bem, só. Esses aviões sempre que passam me deixam apavorada…

“Somos dois”, pensou.

— Não me assustou, não. Não, não… — mentiu — Está tudo bem. Obrigado por perguntar. Certeza que não quer entrar? Eu faço um chá de camomila pra gente. Acalma os nervos… — “uma conversa amistosa não cairia mal depois de quase morrer do coração”, pensa.

— Obrigada, mas tenho que cuidar da Esther. Ela continua tossindo muito. Deus abençoe que ela não tenha acordado com esses malditos aviões. Sabe, nem sei de que lado eles estão, só gostaria que parassem. Só isso, que parassem! — Ela parou e suspirou antes que seu desabafo acordasse a menina — Bom, vê se tenta dormir um pouco. Qualquer coisa estaremos aqui do lado.

— Eu que te agradeço. Sabem que qualquer coisa que estiver ao alcance de um manco velho que nem eu, é só chamar.

Valéria riu da sinceridade de Demétrio enquanto caminha com cuidado pelo corredor, pois, ao lado, o corrimão está caindo aos pedaços depois de tanta explosão junto com os pedaços de paredes no chão que facilmente te fazem escorregar ou pisar em falso, além do enorme rombo no andar debaixo que traz uma corrente de ar frio forçando Valéria andar encolhida e mais devagar.

Bem ao fundo, seria possível escutar a explosão de alguma bomba arremessada pelos aviões, se já não estivessem tão acostumados com tal barulho. As vezes era mais próximo, aí escutavam e se escondiam.

Demétrio observa pelo resto de janela do quarto todo o seu bairro completamente detonado. Não há quase nenhuma construção de pé dando uma visão bem ampla do horizonte e, de longe, pôde ver um comboio de três pequenos caminhões se aproximando. Mais um sinal de mau agouro, pensa. Os faróis iluminam o caminho e mostra a Demétrio qual a direção. Observa-os de longe em seu ritmo lento e precavido seguindo na direção do espectador. De alguma forma tudo começa a se distanciar, o cansaço chega com força e, por fim, dorme.

O sol no o rosto amassado e enrugado. O céu limpo e azul com algumas nuvens fofas entra totalmente em contraste com horror que ilumina. Não há som de pássaros, de pessoas nas ruas andando e conversando, ou carros. O absoluto silêncio quebrado somente pela forte tosse da filha de Valéria. Está na cama há 3 semanas, não tem forças para se locomover e, seguindo uma dieta somente de sopa (que vai mais água quente e sal que qualquer outra coisa), não favorece muito para um quadro de melhora.

— Manhê! Vem cá! — Chama a filha. — Fica um pouco comigo. — Sabia que pedir qualquer coisa além disso seria pura crueldade.

A mãe a abraça e sente o corpo da filha de 12 anos fervendo em febre.

Desesperada, sabendo que se a filha continuar assim vai entrar em choque e acabar morrendo, isso se, a infecção no pulmão, que pegou devida a queda da imunidade por causa da fome, não matar primeiro. Valéria segura o choro o máximo que pode, abraça mais forte sua garota e duas lágrimas caem do rosto vermelho e enterrado nos trapos suados que serviam de cama e travesseiro para a filha.

Decidida em tentar a sorte na farmácia destruída que fica alguns bons metros dali, Pede para Demétrio ficar com a filha e ele preparou um balde de água no andar debaixo com muito sacrifício (faria de qualquer jeito, pois estava com sede e já iria juntar sua água do dia) para usar com um pano úmido e tentar diminuir um pouco a febre da menina.

Valéria abriu um sorriso e beijou seu rosto em agradecimento disse a filha que voltaria logo, assim como disse a Demétrio. Desce as escadas com cuidado para não pisar em um tijolo falso ou pedra de concreto solta e espalhadas pelo chão, observa o rombo do andar de baixo e imagina que tipo de máquina poderia ter feito aquilo. Brincava com sua filha e outros vizinhos que ainda moravam no prédio com suas respectivas crianças e, de repente, aquele estrondo, levando junto um casal de idosos que morava no apartamento atingido e os gêmeos, filhos dos recém-casados que morava ao lado.

Ninguém sabia, como não se sabe até hoje os motivos reais dessa guerra, foi de uma hora para outra. as tropas chegaram atirando para todo lado. O acesso a informação que já era escasso uns meses antes hoje é impossível. Valéria conseguiu se esconder com outros em uma pequena saleta atrás da escada, conseguiu ver outros sendo levados pelos soldados e nunca mais foram vistos. Por sorte, ou azar, Demétrio estava trabalhando e foi capturado no seu expediente. Conseguiu fugir, mas já havia perdido uma perna.

Valéria não perde muito tempo olhando para o buraco e atravessa-o como corta caminho, evitando uma volta inteira no quarteirão. Quase dá pra ver o que restou da farmácia de onde se encontra, basta andar mais alguns metros e esperar que a poeira de alvenaria destroçada dissipe um pouco para ver o que a espera. Talvez não tenha nada, talvez tenha tudo! O coração na boca pelo que pode haver, mesmo assim ela tem que seguir. Afinal fez uma promessa no momento que deu a luz.

Caminha pelo asfalto mesmo. Acha melhor, porque se for pra correr, poderá correr para qualquer lado.

Cobre o nariz com a mão, não era a poeira, tinha algo cheirando muito mal ao redor. Viu um corpo recém morto no chão e o culpou pelo mal cheiro. Não viu, e não interessava ver, que metros à frente tem uma tropa toda de um exército morta há dias e esquecidos por lá, os corpos já estavam irreconhecíveis devido a brutalidade do calibre das balas e ao estado de putrefação. Uma rajada de vento e Valéria quase vomita faltando alguns metros para farmácia.

Basta dobrar a esquina e estaria lá, vê mais alguns corpos espalhados pelo chão. Sua vontade de chorar é enorme, mas continua. O tempo é curto.

Tudo empoeirado, bagunçado e cravejado de balas dos mais variados tamanhos e espécies de armas. Dificilmente encontraria algo por ali, mas não era impossível. Precisa de antibióticos. A comida já está escassa de todo jeito, e ir atrás pode ser arriscado demais. O que têm dá, precariamente, para aguentar mais alguns dias.

Por um corredor obstruído por prateleiras tombadas umas nas outras, Valéria teve de engatinhar em direção a um pequeno frasco jogado ali no chão. Retira a poeira com um sopro e, por sorte, era o que precisava! Começa a retornar, o chão vibra, tudo escurece por alguns momentos e percebe que tudo vem de um ronco maldito de hélices tão grandes e pesadas que seriam capazes de cortar um edifício ao meio. Volta o mais rápido que pode para debaixo das prateleiras e apoia as mãos sobre a cabeça, rezando para que não fosse um bombardeio.

Nunca se perdoaria morrer longe de sua filha.

Demétrio vai mancando até a janela, sua curiosidade e preocupação foram maiores que o medo.

— O que é isso? — a filha de Valéria pergunta. — Estou com medo, tio De. — diz com uma voz chorosa.

— Mais um avião e é dos grandes, mas fica tranquila ele tá indo embora — responde olhando com pavor e admiração para a imponente construção que paira os céus, sendo quase impossível de acreditar.

Demétrio começa a perceber pequenos pontinhos pretos arremessados do avião e que conforme desciam tomavam seu formato humano e abriam os paraquedas. Ele olha para moça com um horror que não dá para esconder, os lábios brancos e a mão trêmula denunciam seus pensamentos. O manco preferia mil vezes que fossem bombas para levar todo mundo de uma só vez e acabar com o sofrimento de uma só vez também, mas eram soldados. Não importava o lado, era sinal de que, cedo ou tarde estariam no meio de fogo cruzado e se fossem pegos, seriam torturados, a jovem provavelmente seria estuprada e só depois, se houvesse piedade no coração daqueles homens, os civis teriam permissão para morrer baleados.

Fecha as janelas o mais rápido que pode e escuta a batida de botas pousando no telhado. Antes que a menina gritasse, trata de cobrir a boca dela com a mão. O corpo da garota está quente demais. Rapidamente prepara mais um pano molhado e pousa na cabeça dela e, em seguida, tranca a porta do quarto. Escuta a conversa de dois soldados na rua, mas não consegue entender, afinal não é a língua dele, mas sabe que são os que usam uniforme bege. Não consegue entender outros exércitos também, mas sabe que cada uniforme tem o seu dialeto e cultura própria de matar.

Valéria se sentiria segura para sair de sua toca, se não fosse uma pequena tropa de cinzas entrarem encurralados a procura de abrigo. Atiram pro lado de fora e gritam um monte de coisas que ela não entende, mas entende o som de uma granada estourando metros dali. Em resposta ouviu um zunido bem acima de sua cabeça e um dos cinzas cai morto bem na sua frente com um buraco na testa. Não grita de forma alguma, está petrificada!

Sem ideia do que fazer, Valéria reza. Reza, pois é sua última e única opção entrando em um transe que a fez perder completamente a noção de tempo. Prometeu a si mesma que não morreria e deixaria sua filha abandonada.

Mais um soldado caiu. Uma rajada de balas e mais outros caíram. Não sabia dizer para onde os tiros tinham vindo, mas os dois lados estavam mortos. Demorou um bocado de silêncio, mas alguém lhe tocou o ombro. Ela gritou e recuou como um animal indefeso. Sabia que poderia ser abusada ali mesmo no meio dos corpos de sabe-se lá qual nação.

— Calma, calma irmã! Viemos te resgatar… — disse uma das moças.

Só de ter ouvido alguém falando sua língua já aliviou demais sua tensão, deu a mão para a soldada e viu uma pequena tropa de mulheres bem armadas, vestidas de azul marinho. A soldada se apresentou como Suzana e explicou que faziam parte de uma resistência, mas isso não interessava nem um pouco a Valéria, que só quer chegar logo para ver sua filha. Implora socorro para a guerreira e suas companheiras que não hesitam em ajudar. Elas têm um kit de primeiros socorros cheios de remédios e curativos para qualquer ocasião e com certeza podiam ajudar uma conterrânea doente.

Seguem caminho tomando o máximo de cuidado.

— Assim que chegamos por terra de madrugada, um desses malditos mandaram essa merda de avião. Então, fique de olhos abertos, irmã. Toda ajuda é necessária. Sei que o caminho que você fez é o mais rápido, mas iremos por um mais seguro. Não irá demorar e você vai conseguir salvar sua filha. Dou minha palavra. — disse Suzana com jeito de durona. Valéria só concordou balançando a cabeça e olhando para os lados pelo canto dos olhos.

O caminho foi tranquilo, apesar de toparem com gente da Resistência morta, elas fizeram para cada baixa o seu juramento de vingança que mais parecia uma pequena e curta oração de guerra e prosseguiram.

Demétrio, já está impaciente demais com a demora da sua amiga, a garota já começou a tossir sangue e delirava com a febre falando coisas sem sentido. Demétrio espera mais um pouco e mais um pouco, mas ninguém aparece. Escutou um tiroteio faz umas duas horas ou mais e, agora, o silêncio. Nenhum sinal de ninguém. A não ser os barulhos de passos no saguão de entrada e aquela conversa indecifrável. Não vai demorar muito para eles nos acharem, Demétrio pensou. Ele não podia deixar a garota passar pela mesma tortura que lhe custou a perna. Com ela poderia ser bem pior.

Ele ouviu mais passos e mais próximos. Já estavam no corredor. Ele tinha que fazer o que estava ao alcance de um velho manco como ele. Senta-se na beira da cama ao lado dela, as lágrimas caem como goteiras no rosto velho e enrugado de Demétrio. Ele tira o travesseiro improvisado da nuca da moça e ela pergunta:

— Por que as estrelas estão fora esta noite? — com um sorriso delirante.

— Você vai encontrar mamãe logo, vai sim. — beijou a testa dela em despedida. Não tinha mais tempo. Conseguiu ouvir os soldados do outro lado conversando, um deles fez uma piada e riu.

No momento que pousou o travesseiro, mais um tiroteio. Isso não fez o velho manco vacilar nem um pouco, continuou pressionando, não importava qual tropa vencesse a batalha eles trucidariam os dois de qualquer jeito. Os braços esguios e fracos se chacoalham em conjunto com as pernas tão magras quanto, tentando se livrar do peso sobre seu rosto.

Com um só chute a porta do quarto vai abaixo.

— FILHA?! — grita Valéria.

Sem pensar duas vezes, Suzana dispara em Demétrio fazendo-o rolar no chão e sentar-se no chão.

— Eu achei que você estava morta… Achei que você estava morta… e eles iriam entrar… iriam…

Ninguém o deu ouvidos, só o viram morrer. Um a mais, um a menos não faria muita diferença e não pesaria no dedo mole de soldada da Suzana. O que importava era que chegou a tempo para salvar uma criança das mãos de um malfeitor.

Valéria abraça a filha bem forte e os braços magrinhos da garota retribuem o abraço. Em pouco tempo ela tomará os antibióticos e será levada ao abrigo apropriado e tudo ficará bem.

Dentro do possível.

Imagem: media.npr.org

Um comentário para “Sobrevivência”

  1. Pantufah

    Achei da hora demais! Vai que vai, mano!
    E cadê aquela parceria pra fazer uns quadrinhos? Hhuahuahua
    Continua que vai longe, mano! Abração

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