Soldados de Chumbo

 
soldadinhos-de-chumbo_2.jpg  Quando apagam a luz da última cela do meu pavilhão, um clarão vem iluminar a minha janela. A sentinela caminha de um lado para outro, acende um cigarro… Um carro passa por trás da muralha. Não posso vê-lo, apenas ouvi-lo. Não posso tocá-lo, mas posso senti-lo.
 
— É engraçado!
 
 
Não fosse pelo andar desengonçado, pela deselegância, diria que o homem fardado se parece com aqueles soldados de chumbo que ganhei na minha infância.
 
 
Minha mãe trabalhava por quanto tempo durasse o dia. E acaso, não fosse o bastante, seu esforço tinha a noite como companhia. Às vezes, me levava para o emprego e eu ficava confinado à área de serviço. Talvez porque a patroa não gostasse de negros circulando pelos cômodos do seu luxuoso cortiço. Quando acordava de bom humor, danava-se a falar do moleque sem cor, que queria que fosse engenheiro.
 
 
Sei que minha mãe sonhava pra mim um futuro semelhante. Mas quando olhava pro moleque com ar de maloqueiro, arriava o semblante e sofria. Como quem descobre uma infinita distância entre desejo e realidade.
 
 
Certo dia, a madame me deu uma esmola. A Guarda Real Britânica em formato de miniaturas. Criaturas sem pernas ou braços, que o pequeno engenheiro enjoou. Eu tinha, lá em casa, uma tribo com centenas de caixas de fósforo. Daquelas amarelas com a figura de um índio estampado nos rótulos. Vivazes, meus amigos me eram sagrados. E estavam sempre prontos para conter a invasão dos soldados amputados. Outros mais me foram dados. Mas minha tribo sempre vencia, por mais que o pelotão crescesse. Era como se, pelo menos ali, naquele dia, o negrinho também vencesse. Eu era pequeno. Gigante na minha imaginação. Não creio que o fabricante mais astuto pudesse imaginar que seu produto fosse além de acender cigarro ou fogão.
 
 
À noite, quando minha mãe voltava pra casa, silenciávamo-nos a todo custo pra velarmos seu sono tão justo. Depois, cada peça do meu invento ia pra debaixo do colchão, ao lado do bloco de cimento que sustentava minha cama a dois palmos do chão. Quando Deus achou que era a hora, resolveu levar minha santa senhora. Antes que pudesse perceber no que a vida me transformou. Se foi ganância, fraqueza ou necessidade. Não sei. Ninguém nunca me explicou.
 
 
Amanhã, meu filho, a criança mais bonita, virá me conhecer. Vou rezar até o amanhecer para que a vida também não o torne um bandido. Para que seja assim como minha mãe sonhou. Um profissional bem-sucedido. E se acaso eu descobrir que ainda existe uma infinita distância entre desejo e realidade, maior terá que ser meu pensamento. Mais forte há de ser minha vontade!
 
 
*Ilustração de Carolina Antunes (www.carolantunes.com).

Um comentário para “Soldados de Chumbo”

  1. Andréa

    Soldados de Chumbo
    Por que eu não li este texto antes? Lindíssimo. Parabéns.

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