Sonhos em dias frios

 

Nesses dias frios tenho tido sonhos ímprobos. Tenho preferido ficar sob os cobertores de lã enrolados sobre minha cama. Tenho seguido o choro estranho que começa no andar de baixo, como o rugido de um leão perdido no telhado da casa de alvenaria da vizinha da vila de onde minha mãe cresceu.

Nesses dias frios, por que tanto esperei, abri mão de chocolates quentes, que aquela minha avó do tapete voador preparava, enquanto eu me estilhaçava com pequenos pedaços das sobras das janelas dos apartamentos dos filmes musicais da década de 30.

Nesses dias frios ando sem roupas pelas ruas de Urano. Ando abraçando indigentes e secando seus cabelos com secadores de lojas de “eletrodomésticos falsificados”. E abro todas as janelas para que o vento traga as mais raras canções, vindas da Europa, Ásia, ou da vitrola que vejo ao lado do fogão a lenha com minha luneta high tech aqui do vitrô do meu banheiro, num apartamento distante quilômetros do meu.

Tenho dormido mais do que deveria… nesses dias tão gelados. Tenho cantarolado pequenas frases de comerciais de margarinas cremosas bem mais do que deveria.

E nesses dias frios decoro os textos das novelas de uma antiga emissora falida e os atiro sobre os para-brisas de carros desgovernados, guiados por meigas criaturas revelhuscas perdidas na Washington Luis em madrugadas nebulosas.

Leio romances fajutos de autores esquecidos, de autores desconhecidos e de personagens inermes, que buscam, buscam e buscam… até morrerem. De personagens que esperam que algo aconteça amanhã. Personagens que perdem sua história neste momento, pensando que pode aparecer algo melhor depois, mas o depois nunca chega. E choram como a vizinha do andar de baixo, ou como crianças quando perdem seus pirulitos espirais, das cores do arco-íris, de onde consegui minha primeira barra de ouro.

Tenho tatuado diamantes debaixo do supercílio cicatrizado por causa de um golpe perdido na madrugada de segunda-feira daquele ano que sempre quis não lembrar. Fui atropelado enquanto descia na banguela sobre uma mountain bike, e o aparelho que usava para desentortar os dentes rasgou meu beiço de ponta a ponta, rendendo-me cinquenta pontos mal costurados por um açougueiro de plantão de beira de estrada.

Foi numa noite fria, madrugada de segunda-feira. Eu tinha 18 anos e hoje tenho um pouco menos. Tinha alguns juízos e agora todos já partiram. Faz um frio de lascar no meio da rua. Meu dedão partiu ao meio depois que a neve o congelou.

Ah, nesses dias frios… sinto muita dor.

 

10 comentários para “Sonhos em dias frios”

  1. RODRIGO CURY TANIOS

    VALE LEMBRAR QUE O POETA AINDA É PROFESSOR DE JIU-JITSU.SENSACIONAL!!

  2. bruno agulhari

    Muito bom…
    Muito bom o texto…parabéns Paulinho…bom demais cara…

  3. BARBARA MAIA

    Sonhos em dias frios
    PAULINHO EU VI TUDO QUE VOCÊ DISSE! SUPER BACANA, PORQUE: ME IMPRESSIONOU, ME EMOCIONOU E ME FEZ RIR… AMEI, VIU PARABÉNS!
    O QUE PARECE INCOMPREENSÍVEL NADA MAIS É, DO QUE O POSSÍVEL DITO COM POESIA. E O QUE É O POSSÍVEL? IMPOSSÍVEL DE DIZER, PORQUE SOMOS DIFERENTES! ADOREI TECLAR CONTIGO NESTA NOITE FRIA LÁ FORA E QUENTE AQUI DENTRO (DA ALMA) BEIJINHOS NO CORAÇÃO.
    COM CARINHO DA BARBARA MAIA – PEDAGOGA EM CURITIBA.

  4. Tãnia Granussi

    Paulinho
    O texto não é tão frio, e nem os dias. As lembranças perdidas são mais geladas e cruéis, e traduzem, em graus Celsius, um mundo muito mais abaixo de zero.
    Você se reconhecerá (em breve) no Filme FEBRE DO RATO, onde existe Zizo, um poeta desacordado (não aquele que dorme, mas aquele que não está em acordo com…)
    Go boy!

  5. Shellah Avellar

    DIas Macambúzios e Sorumbáticos…
    Pois é ,Paulinho.Nestes dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu…Nesta sexta-feira cinza e preguiçosa,com o ar que prenuncia a madrugada gelada,parece que o Sol nos abandonou para ir namorar a Lua.Ficou o frio,e a inspiração que brotou de seu coração fértil e de sua mente alerta pra nos presentear com esta pérola.Lindo.

  6. Barthô Raimundo

    Do rasgado à filosofia
    Não sei bem se o cara rasga o verbo ou desfila poesia urbana em forma de filosofia. Sei sim que brinca com as palavras e também comigo. Me sinto parte, me sinto presente e incomodado e às vezes amigo.

  7. Rosângela lima

    Nossa!!!
    Quando penso que já vi tudo de vc, vejo que se supera!!
    Ator, escritor, educador, inovador e acima de tudo apaixonado pela vida!

  8. ...

    as ruas de Urano…..lá não deve ser tão frio.Mas o que você procura?O calor?Ah, cobertores,chocolates,autores esquecidos só esquentam uma parte mínima, e ás vezes só aquecem a mente.mas falta o combustível né….ele deve está fervendo, aí do seu lado esquerdo.

  9. RICARDO

    QUE ISSO!!!!?
    CARACA MEU IRMÃO…. QUE POEMA, VERSO, SONETO MONUMENTAL….. MEU…. SÉRIO….. SEI LÁ……

  10. Sol Moraes

    Todos temos,um dia,uma noite fria…Belo texto 🙂

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