Sopro no coração

 

Nem sei de quem herdei isso. Desde moleque sempre gostei muito de esportes, mas fui proibido pelos médicos de praticá-los pelo resto da vida depois de terem diagnosticado um sopro irreversível no meu coração.

 

Desde moleque também sempre fui muito teimoso e isso com certeza herdei do… da… sei lá. Enfim, não importa mais. Acredito na lei de ação e reação, muito mais na física do que na metafísica. Quando enfio um troço na cabeça, vou atrás até conseguir e não chamo isso de obsessão, tem mais a ver com determinação.

 

Eu era um pirralho e adorava jogar futebol no campinho perto da casa onde morava na Vila São João. Montei um time e fui o capitão. A gente até ia pros outros bairros desafiar outros times. Tinha uns filhinhos de papai no nosso e por isso conseguíamos isso. Os pais deles queriam investir.

 

No pé da minha cama, eu guardava uma santinha de Nossa Senhora e todos os dias de manhã acordava e rezava pra ela me fazer um jogador parecido com o Garrincha. Idiotices de criança. Pensava que o cara ia baixar em mim e teria exatamente o mesmo talento. Eu até driblava bem. Ser canhoto favorecia.

 

Lembro perfeitamente, na sala de espera do hospital, o médico chamando minha mãe logo após os exames. Minha coroa resolveu me levar pra fazer exames gerais, depois que o pai de um amigo contou a ela que eu quase desmaiei numa partida. Bom, ficaram um tempão lá dentro e depois me chamaram. A cara dos dois era de enterro. E ele, como todo médico que quer parecer engraçado e simpático, falou comigo como se eu fosse um gnomo, ou… sei lá:

 

— Olha só que meninão bonito, saudável…

 

Eu nem era um meninão. Era anêmico e esquelético. Saudável devia ser o cu dele cheio de hemorroidas. E o pior é que ele dizia isso com aquele típico sorriso e batendo a palma de uma mão contra a outra, como se estivesse falando com um poodle. Ele continuou:

 

— Pelo que a mamãe me contou aqui, você gosta de futebol, não é? Bilu, bilu, bilu… Mas, infelizmente, você não vai mais poder jogar futebol do jeito que joga, senão, pode acontecer alguma coisa ruim no coraçãozinho e parar de funcionar. Não vai poder fazer mais nenhum esporte.

 

“Coraçãozinho?” Ele devia mesmo ter o cu cheio de hemorroidas.

 

Saí dali encanado pra cacete, cabisbaixo. A única diversão que se tinha naquela vila era me juntar com a molecada e jogar futebol.

 

Como sempre, minha mãe deixou bem claro:

 

— Se eu te pegar jogando futebol ou correndo pra lá e pra cá feito um idiota, vou te quebrar inteiro de porrada.

 

Fizeram uma carta de dispensa das aulas de Educação Física e assim conseguiram me afastar dos esportes. Temporariamente, que fique bem claro. Porque entreguei a porra da carta uma única vez, sendo que todo mês, por regulamento, teria de entregá-la, para ser dispensado. Dei um jeito lá.

 

E muito na surdina, um mês depois, teimosamente, voltei com todas as atividades físicas e botei na cabeça que o médico tava vacilando, como a maioria deles. Onde já se viu dizer a uma criança que ela jamais poderá praticar esportes? E por mais cansaço ou tontura que eu sentisse, não deixaria transparecer. E assim foi. Menti pros professores dizendo que já tinha me recuperado. Na verdade eles nunca souberam o que eu tinha. Até parece que leram a porcaria do atestado.

 

No começo confesso que era bem punk, ficava sempre malzão e tinha de engolir aquilo pra ninguém ir correndo contar pra minha mãe. No time da vila continuei jogando depois. Óbvio que ela me pegou várias vezes, e várias vezes me deu a casual surra de sempre. Até que um dia disse: se eu quisesse morrer, seria um problema meu e que ela não faria mais nada. Não entendia merda nenhuma de “morrer” e por isso continuei. E fui ficando cada vez melhor com o tempo. E conseguia correr mais rápido e durante mais tempo do que os outros moleques.

 

Eu comecei a sentir que não ficava mais tão cansado e que quanto mais treinava, mais conseguia as coisas. Não passei mal mais. Hoje nem me interesso mais por futebol.

 

O pai do meu padrasto, um japonês fugitivo, me ensinava golpes de caratê no fundo do quintal e depois o meu vizinho da frente, ex-guerrilheiro, fazia um treino quase ninja comigo todos os dias. Depois de muita insistência, minha mãe acabou me colocando numa academia. Tornei-me faixa preta e vice-campeão mundial de caratê antes dos dezoito anos. Dediquei-me muito a isso. Treinos diários. Com o tempo tornei-me faixa preta de judô também, agora de jiu-jítsu. Luto boxe, vale-tudo e tudo mais. Passei pelo muay thai, kickboxing, capoeira, ninjítsu e outros. Participei de clubes da luta e sempre saí inteiro, nunca tive problemas com o coração. Já lutei profissionalmente. Fiz faculdade de Educação Física e nas aulas de corrida de resistência sempre estava entre os primeiros. Quase fui jogador profissional de basquete. Pratiquei e pratico todos os esportes possíveis, que me agradam.

 

O médico disse que teria esse troço pra sempre. Médicos sempre acham algo na gente pra ficarem roubando nossos míseros centavos. Pelo menos oitenta por cento do que dizem é baboseira. Se eu tivesse dado ouvido praquele, hoje seria um coxinha e não teria feito nem conquistado nada disso.

 

Não me gabo das conquistas esportivas, qualquer um pode, só me sinto bem por ter me provado o contrário. Por isso, quando invoco com algo, vou até o final. Escrevo tudo isso pra que meus amigos entendam um pouco porque sou essa mula insistente.

 

Carrego nos bolsos da calça o famoso provérbio popular: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

 

Impossível? Ainda existe essa palavra em algum dicionário?

 

Não desisto nem fodendo. E sinto que vou viver ainda longos anos. E é do coração que nunca vou morrer, podem crer.

 

*Paulinho Faria é escritor, ator, dramaturgo e diretor teatral. Escreveu o livro de contos “O Pankada” (veja mais aqui).

Um comentário para “Sopro no coração”

  1. Germano Gonçalves Arrudas

    Germano Gonçalves Arrudas


    Nossa cara você soprou o cú do médico, mas falando do texto gostei bem elaborado valeu!

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