Testamento

 
Nosso pai não deixou uma série de bens e valores expressivos em uma conta bancária.
Até mesmo suas roupas (a vida inteira) sempre foram poucas: um par de sapatos 752 da Vulcabras, uma camisa, uma calça e um chapéu, para compensar a calvície. Foi homem desprovido de vaidades.
Nasceu no interior de São Paulo e fugiu de casa quando foi maltratado. Trabalhou na roça e foi em alguma cidade interiorana que conheceu minha mãe. Do amor deles nasceram três meninos…
Seu dia começava pontualmente às 4 horas da manhã e findava por volta das 8 horas da noite, quando, finalmente, chegava do batente.
Aos domingos fazia feira, comia um prato robusto de arroz, feijão, macarrão e frango, assistia aos jogos do Palestra pela televisão e cochilava no sofá.
Tinha um ouvido muito bom para a música, tocava cavaquinho, violão e um dia até arranhou o Hino Nacional (sem partitura) em um pequeno piano Hering. O filho caçula e os mais velhos mal conseguiam tocar com a partitura.
Não cursou universidade formal, mas dois de seus filhos são formados, em direito e letras – o filho caçula conhece a universidade da vida e mantém a cabeça erguida.
Nosso pai trabalhou na construção da Universidade de São Paulo e deixou seu trabalho espalhado por centenas de edifícios e casas cidade afora.
Cumpriu seu tempo dignamente na terra – acertou, errou –, deixou um legado de trabalho, filhos, netos, amigos que fez em sua vida reclusa.
Será lembrado como um homem que fez uma opção firme pela simplicidade (não apreciava gente gabola), gostava de música caipira… Será lembrado sempre com respeito.
Em nome de nossa mãe (que nos ensinou a dividir muito cedo), divido com vocês a emoção de ler o único bem que nosso pai deixou: honestidade.
Família Valentin.

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