The king of blues

 

O jaleco preto, manchado por estranhos restos de farinha, grandes grãos que ele batia com a mão, girou o pescoço e viu as mesas ao redor com um pedaço de pano branco. Incansavelmente rodeou as mesas e levantou os copos sem pedir licença. Incomodado pela força do hábito de limpar, o espelho brilhou e o lustre lotado de mosquitos. Quando as nuvens se fechavam ao anunciar chuva, corria para juntar panos e colocar na entrada do bar, escrevia na lousa curta no pedestal, “Limpem bem seus pés, fregueses”, soprou o giz que sobrou no piso vermelho antes de os primeiros pingos de água caírem. Não pronunciavam seu nome, os cabelos lisos e poucos se movimentavam quando andou apressado, em busca de marcas uniformes. E no jaleco preto, escrito em letras amarelas no canto esquerdo superior: Garçom, com a primeira letra maiúscula.

 

Sabia-se pouco sobre a profissão de Ferreira, o frequentador primoroso da mesa diante do espelho, seus singelos olhos pretos eram um convite à conversa. Botas sujas que davam a sensação de viagem. Bebeu o drinque e levantou o copo antes de o garçom chegar à mesa com o pano branco. Uma forma clara e pacífica de transmitir em gestos aos outros clientes:

 

― Eu já sou daqui, faço parte.

 

A cicatriz em seu rosto, exatamente no canto esquerdo. Não era um simples cartão de visita nem identificação de Ferreira. Sem profundidade, entretanto delineava o contorno dos traços, rugas e lhe dava um ar juvenil, como se a cicatriz fosse rejuvenescedora. Frases soltas entre goles e tragos no cigarro, o bastante para assuntos com desconhecidos ao espelho, na mesa ao lado do balcão, via-se toda a extensão do bar.

 

Cristina, na casa de muitos quartos e os rangidos no piso causados por salto alto. O relógio de parede chegou após o testamento da mãe. Sentiu repugnância e afeto pelos ponteiros, não combinou com o carpete cinza felpudo e os sapatos comprados no bazar de uma família falida nos Jardins, da casa com três andares e incontáveis cômodos com sauna e piso de madeira, lareira e sótão. Esparramou-se no sofá e enumerou os metros quadrados da casa imensa. A sua, já não sentiu nenhum estranhamento ao abandonar o relógio que ainda exalava o cheiro ínfimo do produto de limpeza utilizado pela mãe. Bebeu uísque sem rótulo em um copo impróprio e as pedras de gelo se movimentavam com bastante esforço, esse giro se tornava muito mais difícil após a quarta dose. Circulou todos os sapatos da revista de moda que Borges reservava na banca de jornal da esquina com a rua Caio Prado, sorriu e nas últimas páginas rabiscou recados para Borges, de amor e de ódio. Ele não tocaria no editorial.

 

Borges percebeu o espelho naquela manhã turva sem sol, nuvens feitas com uma só cor cinza no céu. O terno, a gravata e o sapato engraxado. Na cama Cristina balbuciava cores e citou o nome da revista, o prédio ao lado, visto pela janela, se calava com a cor do dia e algumas lâmpadas permaneciam acesas. Desceu para a cozinha e ligou o rádio, que descansava o disco The king of blues, bateu os dedos na mesa de madeira, na cadeira e ensaiou os braços ao ar. Parou quando ouviu o barulho de algumas revistas caírem no chão, a capa de papel espesso de uma delas amassou e apressou o punho de Borges na tentativa do conserto. Conferiu e virou algumas páginas, percebeu a tinta azul na última, o escrito de letras femininas. Tateou as outras movendo os dedos e marcou a última folha, fez o mesmo com todos os cinco exemplares das diferentes revistas. Espalhou no chão e leu as frases em diversas sequências, mas suas mãos começaram a tremer, juntou as revistas embaixo do braço e saiu ouvindo o sopro fugaz do trompete se misturando ao som dos carros parados no semáforo.

 

Entrou no bar antes da chuva, o aviso de giz na lousa em letras grandes com o argumento de limpeza. “Compreender os antecedentes dos escritos em tinta azul”, Borges recomendou a si mesmo. As mesas vazias e o garçom levou copos e cinzeiro sem o pedido. Contou cinco magazines, acendeu o cigarro e vagueou o gole, acertou as últimas folhas em um círculo e o cinzeiro tornou-se o centro. Ferreira limpou os pés no momento em que o garçom acendeu o lustre, as botas retiraram a inércia do bar, os pequenos goles de Borges e cinzeiro, as revistas e as mãos incertas das letras escritas em tinta azul.

 

Ferreira ― Borges, Borges. O que faz aqui nesse horário sentado à minha mesa?

 

Borges ― Caubói. Gostaria de ganhar a aposta sobre a quantidade de mosquitos no lustre hoje.

 

Ferreira ― Não antes de um gole do café matinal, o café dos campeões. Garçom, vodca com coca-cola, por favor.

 

Borges ― Letras azuis e nenhum sentido. Raiva e amor, mas nenhum sentido.

 

Ferreira ― Está assinado?

 

Borges ― Não. Mas está endereçado a mim.

 

Ferreira ― Leia na outra ordem.

 

Borges ― Qual? Já refiz todas.

 

Ferreira ― Não entendeu muito.

 

Borges ― Não!

 

Ferreira ― Olhe para frente e tome um gole longo.

 

Borges ― O espelho?

 

Ferreira ― Sim. Estique os braços e coloque os braços acima de sua cabeça, segure os rabiscos e mire o centro.

 

Borges ― Não gosto de rasgar as revistas que dou a ela.

 

Ferreira ― Faça isso e entenderá.

 

Borges ― É amor?

 

Ferreira ― Escute-me, aproximadamente cinco da tarde. Os ângulos se posicionam com os raios de sol sem nuvens. Mas hoje o sol não saiu.

 

Borges ― Talvez amanhã?

 

Ferreira ― Quer apostar?

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Torre, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

Comentário