Todos nós, pervertidos

 

 

Do sofá da minha sala eu assistia ao amor daquele casal estranho. No conforto do meu lar, respirando aos poucos, comendo de um balde de pipoca com manteiga. Os dedos lambuzados que eu lambo e limpo na camiseta. Porco, se afogando na lama e na manteiga. A janela completamente aberta e o vento batendo no meu rosto, gelado e rápido e cortante. Os olhos vidrados no prédio da frente. Um voyeurismo filho da puta e sem escrúpulos, como todo bom doente pervertido do século vinte e um. Como qualquer homem que molha a cueca com a simples visão de um lindo par de joelhos ou qualquer instante rápido de pele nua e macia feminina. E as mulheres ainda serão as responsáveis pelo fim do mundo, assim como já foram e continuarão sendo as responsáveis pelo fim da minha sanidade e da minha dignidade. Eu já me amei e hoje não me amo mais.

 

Acordei com o barulho dela. Ela gemia fininho, como uma adolescente. Ahhh, ohhh, siiiim, assiiiiiim. Não parecia se esforçar muito pra manter seus barulhos de amor e tesão e boceta molhada muito escondidos. Liberava-os de forma intensa e dedicada. Acordei com o barulho dela e acordei com a pica dura. E o primeiro movimento que fiz ao levantar foi apertar e espremer com força. Até doer. Dor boa, seguida de uma dor ruim. Prazer e vergonha. Culpa dela. Fui meio confuso pelo corredor até a sala. Era algo em torno das quatro da manhã. Abri a janela e lá estavam eles, no prédio do outro lado da calçada. Longe o suficiente pra eu não poder participar e perto o suficiente pra eu querer participar. E eu quis e como quis, mas não o fiz.

 

Eles tinham uma das janelas abertas, pro som sair. E uma das janelas fechadas, pra ela se apoiar enquanto ele a comia por trás. E dali, de longe e perto, ela parecia ser algo entre linda e apaixonante. Tinha cabelo castanho-claro, que começava liso e terminava suavemente encaracolado. Era bem flexível. Os seios, esmagados contra o vidro, davam a impressão de médios. O formato ideal, perfeito pra qualquer palma de mão sortuda o suficiente. Mamilos rosas, firmes e pontudos. O melhor bom-dia ou boa-tarde ou boa-noite que alguém pode ter. Um leve feixe de pelos cortava sua barriga seca, chegando até o seu umbigo. Tal fato eu na verdade não consegui admirar, mas a minha imaginação sempre foi minha melhor amiga. No homem de sorte eu não prestei atenção. Não que eu tenha feito isso pra parecer mais homem que qualquer outro homem do mundo, inclusive o que a fodia. Eu simplesmente não prestei atenção pelo fato de ela ser hipnotizante. Tudo o que eu sabia é que ela parecia gostar dele, de uma forma ou de outra. Aquela mulher poderia ter o homem que quisesse. E se escolheu tê-lo é por algum motivo. Talvez ele a tenha recebido com flores vermelhas, lhe pagado um jantar caro e aberto a porta do carro. Assim como vários e vários homens já fizeram para todas as mulheres que eu amei. Ou talvez ele só tenha um pau grande e saiba como usá-lo. Assim como todas as mulheres que amei gostam. (In)Felizmente.

 

O vidro embaçado e os gritos dela ecoando pelo bairro inteiro. Ela não era lá muito criativa ou tinha um grande vocabulário sexual, mas sabia o suficiente pra me deixar ali sentado, de frente pra aquela janela, naquela madrugada fria. Suas mãos apoiadas no vidro, escorregando, molhadas de suor. Ele entrava e saía dela com firmeza. Ora num ritmo mais rápido, ora com mais calma, aproveitando o momento. Eu não faria assim. Eu faria melhor. Mas tudo bem. De vez em quando, ele levantava sua mão bem alto, jogando-a em seguida. E todos nós pervertidos escutávamos PLAFT seguido de um Aiiiii. O homem de sorte abria um sorriso no rosto sempre que essa cena se repetia. Segurava aquele cabelo castanho com firmeza nas mãos. Duas voltas. Perfeito. O pescoço dela era jogado para trás e eu tinha uma visão ainda melhor dos seus lábios grossos entreabertos entre um grito e outro. Os olhos fechados, apertados. Tão apertados que seu olhar de prazer às vezes lembrava um olhar de dor. Talvez aquela fosse uma foda triste, pra tapar algum vazio deixado na alma. Mas, pensando bem, existe alguma foda que não seja pra isso? Tapar buracos deixados na alma? Eu não sei. Me diga você. Que eu te fodo até a sua alma deixar seu corpo. E enquanto eu divagava, ele continuava escorregando com enorme facilidade pra dentro de sua boceta aparentemente apertada. Aquilo era bom. Bom demais pra ser comigo.

 

Senti uma pontada no estômago, mas decidi ignorá-la. Agora ela se virava e tudo o que eu enxergava era a mão do homem de sorte segurando o cabelo castanho do amor da minha vida, puxando seu rosto de anjo na direção do seu caralho nada angelical. Outra pontada. Mais forte dessa vez, durou uns dez segundos. Tentei ignorar pra admirar sua habilidade com a boca, mas outra pontada veio logo em seguida. A dor era forte, quase parecida com a qual ela vai sentir daqui a uns nove meses quando o fruto daquela foda, um erro, sair de dentro dela. Deixei minha pipoca em cima do sofá e fui com cuidado pro banheiro, olhando pra trás, já sentindo saudade. Sentei na privada e em cinco ou dez segundos estava completamente vazio e imundo. Foi violento e horrível. Algo que ser humano nenhum deveria testemunhar, muito menos sair contando por aí. Vergonha de mim mesmo. Olhei pra baixo e percebi que a minha pica estava dura. Realmente dura. Aquilo era nojento. Asqueroso. Aquele era, definitivamente, o contexto mais errado e doentio pra uma punheta. Mas a cena se repetia na minha cabeça. Não me deixava em paz. Como os meus pesadelos com as mulheres que já amei e nunca me amaram. Como o sonho impossível com a mulher da minha vida que eu ainda não conheci. Percebi que evitar aquela punheta seria praticamente impossível, se eu não saísse dali naquele momento. Me limpei com pressa e corri pra longe. De volta pra minha sala. Pra minha televisão. Pro meu horário que de nobre não tinha nada.

 

Quando voltei, ela ainda chupava tudo o que ele tinha pra oferecer. Não parecia se esforçar muito pra isso. Não engasgava ou algo assim. De duas, uma: ou ela era muito bom naquilo (chupar picas) ou ele é que não era muito bom naquilo (ter pau grande). Preferi ficar com a segunda opção, pelo bem do meu ego, e imaginar que, comigo, faltaria boca pra tanta pica, meu benzinho. O que provavelmente seja verdade, se você quer saber. Mas, independentemente de qualquer coisa, fato é que ela gostava de fazer aquilo. Ia pra cima e pra baixo, movimentando a cabeça no ritmo. Parava de vez em quando, com a boca cheia. Usava a língua e os lábios como se beijasse apaixonada. Beijo de cinema, daqueles que fazem as adolescentes se apaixonarem por uma tela grande e uma mentira. Era bonito. E aquela cena começava a soar como amor aos meus olhos. Mas eu não tinha nem queria ter certeza.

 

Então, eles resolveram fazer o mesmo que o meu caralho e se levantaram. Foram na direção do sofá. Ele se sentou e ela se sentou em cima. De costas pra ela, de frente pra mim. Seus seios perfeitamente suados pulavam pra cima e pra baixo num movimento delicado que só as mulheres são capazes de fazer. Ninguém mais consegue ser tão lindo e suave fodendo. Só elas, que são imensamente superiores a nós. Ele segurava os braços dela, mantendo-os presos nas costas, o que a fazia se inclinar ainda mais pra mim e pra todos os outros punheteiros do meu prédio. Eu não devia ser o único, afinal. E o sol começava a nascer, refletindo nos seus seios que iam pra cima e pra baixo. Aquilo era poesia. Ela gritava cada vez mais alto, mas eu já não era capaz de decifrar o que cada um dos seus gemidos e pedidos e clamores eram capazes de dizer. Como sempre, meu pau havia me deixado momentaneamente surdo e mudo e completamente incapaz de refletir e discernir o certo do errado. Como sempre. Meu pau. Dezoito centímetros, que, assim como a bebida para Bukowski, eram a causa e a solução de todos os meus problemas. Meu pau, meu querido pau, que me aguenta o dia inteiro.

 

O ritmo dos dois foi aumentando junto e gradualmente. Ele a abraçava, espremendo seus dedos contra aqueles seios incríveis. E agora ele gritava também e era mais nojento do que o meu episódio recente no banheiro. E ela gritava mais alto, anunciando o gozo que estava chegando. Aquele devia ser um momento glorioso pra ela, pois ela não conseguia parar de repetir que ia gozar. Como se aquilo fosse uma façanha ou a primeira vez que acontecia. Pobrezinha. Nunca experimentou o temido Vito, pobrezinho. E, aí, aconteceu. Num grito longo e em uníssono, eles gozaram por uns oito segundos, talvez. Pensei em todos os gozos longos e em uníssono que as mulheres que amei e a mulher da minha vida que eu nunca conheci já tiveram. Escutei janelas e persianas se fechando acima e abaixo de mim e também ao meu lado. O show havia chegado ao fim. O circo havia deixado a cidade. Mas eu queria mais. Queria ficar até o fim. Até os créditos subirem, as saudações serem feitas e as rosas serem jogadas no palco.

 

Eles se deixaram cair no sofá e ficaram lá. Abraçados, trocando carícias e intimidades. Vez ou outra, ela mexia nele, que não dava sinais de novo fôlego. Talvez ela ainda não estivesse satisfeita e ele já não tinha mais nada a oferecer. Talvez aquilo fosse uma oportunidade de ouro pra que eu fizesse a ela uma visita mais tarde. Abri um sorriso largo ao perceber tal fato. Fui até o armário, escolhi minhas melhores roupas. Separei o meu sabonete mais caro pra tomar um banho especial. Chequei a validade das minhas camisinhas, que eu não usava havia tanto tempo. Pensei e repensei em conversas românticas e apaixonantes que teríamos mais tarde. Antes de eu massageá-la com minhas mãos firmes e desejosas. Antes de eu beijar e lamber cada centímetro do seu corpo. Antes de a minha boca encontrar sua boceta. Antes de o meu pau invadi-la e fazê-la querer mais e nunca mais querer sair de perto de mim. Antes dos nossos jantares em restaurantes caros. Antes do nosso casamento na praia ou no campo. Antes das nossas duas filhinhas, chamadas Mia e Beca. Antes de as nossas filhinhas crescerem e irem para a faculdade e saírem de casa. Antes da doença dela. Antes da minha doença. Antes dos túmulos lado a lado. Antes de tudo isso, eu teria muito a dizer.

 

E assim estava tudo pronto pra mais tarde. Confiante, voltei pro meu sofá, pensando que em breve ela seria minha. “Só mais um pouco, meu amor, aguente só mais um pouco e em breve o homem da sua vida que você ainda não conheceu vai te fazer mais feliz que qualquer outro homem que você já teve. Só mais um pouco, meu amor”, eu repetia comigo mesmo, enquanto continuava assistindo à minha futura esposa perder o interesse por aquele imbecil e, aos poucos, perceber que o verdadeiro amor da vida dela estava no prédio do outro lado da calçada.

 

Mas, aí, eles começaram a se mover com pressa, recolhendo roupas. Agitados. Mais agitados que em qualquer momento durante a foda. Mas, aí, a porta da frente se abriu. Aos pouquinhos, mas violentamente. Mas, aí, era o marido, que resolveu chegar em casa mais cedo pra fazer uma surpresa pra amada, que em breve seria minha amada. Mas, aí, ela tentou explicar, disse que não era o que ele estava pensando. Mas, aí, ele levou as mãos ao rosto e balançou a cabeça negativamente. O silêncio ecoava mais alto que os gritos de prazer de outrora. Mas, aí, ninguém sabia mais o que fazer.

 

Mas, aí, ele tinha uma arma.

 

Durma bem, meu amor.

 

Fechei a janela, fui pro quarto, bati uma punheta, chorei e dormi.

 

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