A tragédia da guerra, pelos olhos de mulheres russas

A guerra não tem rosto de mulher e Vozes de Tchernóbil (ambos publicados pela Companhia das Letras), da Prêmio Nobel de Literatura de 2015, a ucraniana Svetlana Aleksiévitch, são obras que permanecerão fixadas como um dos melhores legados culturais deixados pela 14ª Festa Literária Internacional de Paraty, realizada recentemente na histórica cidade fluminense.

Particularizo A guerra não tem rosto de mulher (392 páginas, 2016), traduzida do russo por Cecília Rosas, costurada a partir de depoimentos que vão desenhando o ambiente diário da Segunda Guerra Mundial (1939-45), no front e na retaguarda, segundo as narrativas de mulheres que participaram do conflito na condição de auxiliares de enfermagem, enfermeiras cirúrgicas, instrutoras de companhia de fuzileiros, correspondentes de guerra – todas dentro da rígida hierarquia do Exército Vermelho, seguindo a orientação do governo de Stálin.

Valoriza a obra o cuidadoso trabalho jornalístico de pesquisa, levantamento de endereços, dados identificadores e as conversas mantidas com cada uma das depoentes, todas marcadas, tantos anos depois do conflito, pelos traumas que algumas nem sequer pretendiam reviver na memória, a exemplo do que disse à autora a suboficial de primeira classe Olga Vassílievna, que combateu numa unidade da Marinha, no Báltico (página 143): “Eu queria viver ao menos um dia sem a guerra. Sem a nossa memória dela… Nem que fosse um dia só”.

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Pilotas russas em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial

 

Apreciável o esforço da jornalista e escritora ao ir a fundo no trabalho, realizado no período de 1978 a 1985, para resgatar a história, do ponto de vista não mais dos combatentes, mas das combatentes. Ela começou o seu trabalho registrando: “Estou escrevendo um livro sobre a guerra”. Mas não poderia ser apenas mais um livro sobre o tema. Ele é um documento, um retrato individualizando o drama provocado coletivamente pela desumanização da guerra: as tragédias familiares, a multidão de órfãos abandonados pelos caminhos, os cadáveres insepultos na neve, milhares de corpos mutilados e a banalização dessa sombra escura seguindo os passos das tropas nazistas, que enfim encontraram pela frente, no território russo, a surpreendente muralha de Stalingrado. Ali, no auge do conflito, “não tinha um só grama de terra que não estivesse encharcado de sangue humano, russo ou alemão” (página 383).

Diz Svetlana: “Ah, mais um livro sobre a guerra. Para quê? Já aconteceram milhares de guerras, pequenas e grandes, famosas e desconhecidas. Mas… Foi escrito por homens e sobre homens”. E, mais adiante: “A guerra ‘feminina’ tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental. Nela, não há heróis nem façanhas desumanamente humanas”. Os depoimentos colocam a tragédia dentro de nós, com a multiplicidade de vidas sacrificadas nas trincheiras.

Mas chegou-se à vitória. E, pelo conjunto dos depoimentos, começamos a saber um pouco mais do “preço que os soviéticos pagaram por ela – 20 milhões de vidas humanas em quatro anos” (página 146).

O impacto da vitória, no entanto, não teve desdobramentos apenas depois do confronto com as tropas de Hitler, enfim derrotadas em todas as frentes. E não se tratava tão-somente de substituir a história da derrota do Führer pela história da vitória do Exército Vermelho e dos exércitos dos países aliados. Houve guerra de bastidores, a partir da política stalinista que não concebia a existência de soldados soviéticos feitos prisioneiros de guerra. Estes deveriam ser eliminados ou encaminhados a campos de concentração. A concepção era de que, se foram feitos prisioneiros, foi porque fracassaram. E, mesmo durante o conflito, os expurgos sob Stálin não paravam. A guerra de classes, que ele empreendia internamente, se destinava a manter o país em permanente estado de medo (página 148). Essa realidade explica por que o livro de Svetlana passou tanto tempo impedido de ser publicado na antiga União Soviética.

Ao final do notável trabalho jornalístico e literário, o livro mostra que terríveis debilidades humanas prosseguem sendo as mesmas. Transcrevo: “Como serão felizes as pessoas depois da guerra. Como será feliz, como será bonita a vida. Essas pessoas, que tanto sofreram, vão ter pena uma das outras. Vão amar”. Mas “as pessoas se odeiam tanto quanto antes. Matam de novo. E quem são? Nós… Somos nós” (página 390). A guerra, seja onde for, continua. Essa é a tragédia humana. E a obra, com sua força documental, expõe um dos valores do papel do escritor: testemunhar a história.

Leia dois excertos do primeiro capítulo do livro A guerra não tem rosto de mulher, intitulado “O ser humano é maior que a guerra”:

“O ser humano é maior do que a guerra…

A memória guarda justamente os momentos em que ele foi maior. Ali, ele é guiado por algo mais forte do que a história. Preciso pegar o que é mais amplo — escrever a verdade sobre a vida e a morte em geral, e não só a verdade sobre a guerra. Fazer a pergunta de Dostoiévski: o quanto há de humano no ser humano, e como proteger esse humano em si? Sem dúvida, o mal é tentador. Ele é mais hábil do que o bem. Mais atraente. Mergulho cada vez mais fundo no infinito mundo da guerra, todo o resto perde um pouco das cores, torna-se mais comum do que o comum. Um mundo grandioso e feroz. Entendo agora a solidão da pessoa que volta de lá. É como se viesse de outro planeta ou do além. Ela tem o conhecimento de algo que os outros não têm, e só é possível conquistá-lo ali, perto da morte. Quando tenta transformar isso em palavras, tem a sensação de uma catástrofe. A pessoa se cala. Ela quer contar, o resto queria entender, mas estão todos impotentes”. (páginas 16 e 17)

“Quem esteve na guerra sempre recorda que um civil se transforma em militar depois de três dias. Por que três dias são suficientes? Ou é só um mito? É o mais provável. Ali, o ser humano é muito mais desconhecido e incompreensível.

Li isso em todas as cartas: “Eu não contei tudo para você porque eram outros tempos. Nos acostumamos a calar sobre muitas coisas…”. “Não lhe confiei tudo. Ainda há pouco tempo era proibido falar sobre isso. Ou vergonhoso.” “Recebi a sentença dos médicos: meu diagnóstico é terrível. Quero contar toda a verdade.”

E há pouco tempo chegou uma carta assim: “Para nós, velhos, é difícil de viver… Mas não estamos sofrendo por culpa da nossa aposentadoria baixa e humilhante. O que mais nos fere é que fomos expulsos de um passado grandioso para um presente insuportavelmente mesquinho. Ninguém nos chama mais para ir às escolas, aos museus, já não precisam de nós. Se você lê os jornais, os fascistas são cada vez mais nobres, e os soldados do Exército Vermelho cada vez mais terríveis”.

O tempo também é uma pátria… Mas amo essas mulheres como antes. Não amo sua época, mas as amo”. (página 28)

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Livro: A guerra não tem rosto de mulher (Companhia das Letras, 392 páginas, 2016)

Autora: Svetlana Aleksiévitch

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