Tudo o que ela viu

I’ve made up my mind,

I’m tired of wasting all my precious time

(Jimi Hendrix)

Todo o seu corpo tremia. Passava o batom várias vezes nos lábios. Um gesto repetido em frente ao espelho do quarto. O corpo nu e exageradamente molhado. A toalha de cor vermelha no chão. Andou pela casa com as janelas abertas. Não sabia bem o que sentia. Uma espécie de ódio assertivo. A raiva de tudo. Jogou os vestidos com pressa na cama. Fez combinações nos minutos daquela noite. As luzes eram todas acesas. Palavrões ecoados pela casa. Andou na cozinha ainda sem roupa. Pegou um copo no armário de madeira e abriu a geladeira marrom. Duas pedras de gelo. Aguardente e água tônica. Na sala, ligou a vitrola e colocou o disco are you experienced.

Dançou sobre o tapete com o copo na mão. Girou o corpo e o volume das caixas de som alto. As pernas em passos dançantes e os seios à mostra. Chorava muito e, vez ou outra, se deitava no chão. Mais aguardente e pedras de gelo. A maquiagem dos olhos borrada. Sentou-se no sofá e cruzou as pernas. Na terceira música, desligou bruscamente. A calma reapareceu e ela escolheu a melhor roupa. Foi para o quarto. Cantava e escolhia as cores. Blusa de seda verde-escura, sem sutiã. Saia preta e salto alto. Pegou o estojo de maquiagem e pintou os lábios. Rímel e sorriso. A noite quente e mais goles. Colocou uma pedra de gelo na nuca e se arrepiou. Gargalhou em seguida.

Na sala, o celular e a troca de mensagens. Buscou nomes semelhantes ao dele nas redes sociais. Procurou pelo sobrenome e inverteu a ordem. Nada encontrou. Decidiu sair só. Fechou a porta com força e a pequena bolsa preta no braço direito. Dobrou a rua. Parou para chamar algum táxi. Seu coração acelerado. Não tirava a imagem dele da cabeça. Lembranças de beijos e toques. Entrou na padaria e sentou no terceiro banco da esquerda, encostada no balcão. Tomou uma cerveja em minutos, menos do que cinco. Girou o dedo indicador no copo. Pagou no caixa. Berrou pelo táxi, que parou um pouco mais à frente. Disse o destino e o motorista puxou assunto. Falou assuntos banais de política. Ela fingiu interesse, respondia com um sim. Mesmo não concordando.

Três notas para o taxista. Desceu a rua extensa e parava em cada bar para ver se o encontrava. Viu um homem de costas vestido de calça jeans e camiseta. Conversava com uma mulher de cabelos soltos e riso pretensioso. Ela avançou em passos rápidos. Tocou as costas dele e ensaiou xingamento. Ele virou, não se conheciam. Ela abaixou o rosto e saiu sem nada dizer. Os prédios estavam escuros e, da calçada, via as luzes piscantes das garagens como um norte. Na quarta esquina, duas mulheres conversavam e testavam tonalidades de batom. Carros passavam, buzinavam e elas acenavam de volta. Respondiam preços. As angústias da espera. A incompreensão dos gritos de um mendigo embaixo do poste.

Passado o tempo. O tédio dos movimentos. Andava no meio dos outros e olhava rápido para os lados. Não reconhecia os rostos. Estendeu o braço. Chorou no caminho de volta no banco de trás do táxi. Tirou o celular da bolsa; nenhuma notificação. A solidão das horas passadas. Travou a porta e sentou no sofá. O ar quente dentro da casa de janelas pequenas, abertas enquanto ela deixava as roupas no caminho para o banheiro. Deixou a água do chuveiro cair primeiro na nuca. Fria. No quarto, pegou a toalha vermelha do chão e secou os cabelos. Olhou para o espelho e as marcas de sua idade. Quarenta e um anos. Não se lembrava da última vez que o viu. O desejo e o medo de se esquecer. Os dois juntos na memória. Gravados em alguma marcação de relógio.

 

 

Foto: Al Fed (https://www.flickr.com/photos/al-stan)

 

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