Um dia

O menino magricelo se esquiva das trombadas que a pressa de uma quarta-feira distribui pelas ruas do centro de São Paulo. O restaurante por quilo está pronto para abrir.

O menino magricelo tem um chinelo velho, que mal calça o seu pequeno pé preto. De cor e de sujeira. Alguns dizem pardo. Ele diz preto. É preto, não pardo. Pardo não é cor. Pardo não é nada, e de ser nada ele já está farto. Cheio, apesar de ter pouco vivido. Vivido, não, sobrevivido. E sobreviver todo dia daquele jeito não é moleza, não. Só de moeda. De pão em pão. De resto. Resto de nada não é pouco. É nada. Só de pergunta. Pergunta e pena não enchem barriga. Moeda também não. Ele quer nota. Dinheiro vivo. Ele tá vivo, apesar de não parecer. De ninguém quase ver.

Na porta do quilo a fila ainda é pequena. Ele segura os panos de prato. A mãe fez. Ele vende. O pai ninguém sabe onde tá. No bar? Pode ser, sei lá. Também não importa. O que importa é vender os panos de prato. O pessoal de terno e gravata às vezes compra. Dois por cinco reais. Três por cinco fica difícil. Tem gente também que dá os cinco reais e não quer os panos. Gente boa. Mas também tem gente que nem olha. Nem para os panos nem para o menino magricelo. Ele, sim, olha pra todo mundo. Tenta olhar no olho. Dizer o que sente logo de cara. Pela cara. Cara de fome. Cara feia. Suja. Preta. Parda. Parda, não, preta!

Quase uma da tarde e a fila do quilo aumentou. Sai pra rua. Pra rua do menino. Do menino magricelo. Aquela rua é dele, sim. Ele tá ali todo dia. O dia todo. Sozinho. Sozinho, não. Com fome. Com vontade de tudo. Sempre sem nada. Esperança? Ele não quer. Ele precisa é de dinheiro. A mãe tá esperando, com mais um monte de pano. Pano de prato. Prato cheio é o que ele vê, pelo vidro do quilo. Todo mundo rindo. Falando. Conversando. Tem gente também que nem conversa. Fica na mesma mesa, só olhando para o celular. Celular que faz tudo. Tira foto. Conta piada. Todo mundo ri. Depois volta a ficar sério. Sem falar nada. Mudo. E cego também, porque ninguém olha pra ele. E quem olha disfarça. Se finge de surdo. Cego. Que raiva.

A fila do quilo vai diminuindo. Todo mundo sai de barriga cheia. Satisfeito. Todo mundo, não! O menino magricelo ainda não tá satisfeito. Tá com fome. Ainda. Nem duas horas, ainda. Comeu um sorvete que um cara que passava na rua deu pra ele. Sorvete não dá pra guardar. Tem que comer na hora. Estraga. Estraga que nem fome. Que dói. Que bate, que maltrata todo dia. O dia todo.

O quilo fechou. Tem dois caras que jogam água no chão, passam rodo, esfregão. Todo dia. Deve ter mais gente trabalhando. Mas o menino magricelo não consegue ver. Ele não pode entrar. Nem pedir adianta. A comida que sobra, e ele não comeu hoje, acaba no dia seguinte. Com outra cara. Outro nome. Que ele também não vai comer. Nem ver. Um dia ele quer trabalhar ali. Mas ali dentro, não na rua. Dentro do quilo. Fazendo qualquer coisa, menos vendendo pano de prato. Chega. Um dia ele vai conseguir. Limpar. Cozinhar. Comer, pelo menos o que sobrar.

Um dia.

 

Imagem: Google

Um comentário para “Um dia”

  1. Thalita

    Gostei bastante do texto.
    Faço faculdade de publicidade e propaganda, é interessante como minha professora diz
    " os publicitários precisam refinar o olhar e atentar-se á tudo o que está se passando ao redor".
    Muito interessante como o autor descreve a desigualdade social.
    Parabéns pelo texto!

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