Um sol para cada um

Já passava do meio-dia, mas o sol brilhava tão forte que a sensação era de que seus raios irradiavam diretamente no topo da cabeça de quem andava pela rua.

Os trabalhadores que cavavam um túnel para desafogar o trânsito no centro da cidade se refrescavam como podiam. O tom azul do uniforme ganhava mais uma tonalidade com a mistura do suor do corpo e da garrafa de água derramada para aliviar a temperatura.

O bebê que descia do ônibus no colo da mãe estava protegido com uma fralda de pano na cabeça. As senhoras que acabaram de sair do banco andavam de um lado para o outro, sempre apressadas, com a sombrinha armada.

Enquanto o semáforo não abria para a passagem de pedestres, todos tentavam se esconder daquele sol em algum canto na calçada, dentro das lojas ou até mesmo na sombra estreita de um poste.

Bem ali, no meio daquela confusão instaurada de obras, trânsito e ônibus, um senhor caminhava lentamente como se o tempo não estivesse passando tão rápido na sua frente e observava aquela aceleração desnecessária.

De chapéu, calça comprida e sapato fechado, com ares de quem veio da zona rural para resolver alguma pendência importante na cidade, aquele homem simples parou, tirou o velho chapéu da cabeça e ousou encarar a bola de fogo no céu. Em seguida, recolocou o chapéu na cabeça e se abaixou na direção de uma torneira, quase que escondida, na calçada.

Como se estivesse em casa, à vontade, retirou seus sapatos, arregaçou a manga da blusa e dobrou as pernas das calças. Depois, um largo sorriso surgiu em seu rosto enquanto seu corpo se banhava daquela água cristalina e fresca.

Primeiro molhou as mãos e braços e depois foi a vez da nuca. Por último, os pés e as pernas foram os acariciados com a água.

O sol, ainda poderoso, logo tratou de ajudar na absorção daquelas gostas de água que ficaram na superfície do corpo do velho homem. Seco, ele calçou os sapatos e seguiu pela rua principal até virar à direita e se perder no horizonte.

 

Imagem: photoshelter.com

Comentário