Uma doce virtude chamada respeito

Em tempos de raiva, quem souber respeitar se tornará rei.

 

Manoella tem tatuagens espalhadas pelo corpo. Os desenhos se movimentam a cada passo que ela dá. Imagino, quando a vejo, aquelas tatuagens ganharem ritmo solo pelo corpo de 1,70 m, num balanceio delirante.

Nunca disse isso para Manoella. Amanhã talvez diga o quanto acho lindos seus desenhos eternizados na pele. Sou diferente de João Pedro, que dia após dia diz para Manoella que ela vai para o inferno por causa de suas tatuagens. Manoella se cansa, pois não é tão religiosa quanto João. Mas ela já não discute mais. Confesso que, para mim, Manoella é muito mais inteligente do que João Pedro. Por que se cala, Manoella?

Com as mãos geladas, Victória sai de seu apartamento no Jardim Paulista de mãos dadas com Ana Paula, sua namorada há cinco anos. Ao assumirem o romance digno de filme amoroso, apanharam dos familiares. Victória não fala com seus pais há quatro anos.

O julgamento do olhar mundano é aliviado com sorrisos e olhares brilhantes transferidos de uma para a outra.

Elas passam em frente à igreja em que foram batizadas. O padre diz em voz alta aguardar o perdão divino para as duas. Elas engolem em seco e continuam a caminhada, enquanto o senhor padre vai ao encontro de seu amante nos arredores da Vila Madalena. Duas horas bastaram para sentirem angústia pelas ruas. Elas voltam para o Jardim Paulista. Olham-se, abraçam-se e suspiram. Quem perde é o mundo, que ficará sem ver (e ter como inspiração) o amor explícito de Victória e Ana Paula pelas ruas de São Paulo.

Max diz acreditar que o aborto é válido em todos os casos. Basta a mulher querer tirar o feto e pronto. Max usou a tribuna de uma Casa Legislativa qualquer para expor seu pensamento. A cada cinco segundos cronometrados, Max era interrompido por uma plateia rude. Ouvia, “Fora, comunista!”. Max tentava se concentrar. Levava a mão direita aos óculos com frequência. Ficou apreensivo. Max nem sequer lera Marx.

Numa tarde de sábado, quando andava pelas ruas do Bixiga com sua mulher, Julia, fora surpreendido por três homens. Enquanto Julia gritava, Max caía com o rosto quebrado em três lugares e uma hemorragia interna. Os homens não levaram nada. Não era assalto. No boletim de ocorrência, Julia falou por Max. Segundo ela, um dos homens disse apenas, “Vai para a Venezuela”. Agora com depressão, Max se calou.

Francisco completou 17 anos há um mês. A cada dia, ele se interessa mais por esportes. Torce para o modestíssimo Juventus, da rua Javari. Não gosta de política. A cada cinco publicações em seu Facebook, quatro são sobre o futebol paulista, europeu ou seleção brasileira. Francisco tem uma coleção de camisetas de clubes e seleções de futebol.

Num domingo qualquer do começo deste ano, ele resolveu sair com uma camiseta retrô da Turquia. Uma camiseta bonita, com o número 10 nas costas. Ele passa pela avenida Paulista e é enquadrado por um grupo de 20 pessoas. A camiseta da Turquia se esfarela. Francisco pede calma ao grupo, pergunta o que fez, mas ouve apenas ser um “Petista filho da puta”. A polícia precisa intervir. Francisco, ainda, vai responder por perturbação pública. O problema? A camiseta do apolítico Francisco era vermelha. Francisco sonhava em ser repórter de esportes. Sonhava, porque, com medo, não sai mais de casa.

Enquanto Manoella, Victória, Ana Paula, Max e Francisco perdem a vontade de expor ao mundo seus gestos sublimes, as ruas ganham a ignorância e a ganância reunidas na intolerância. A partir de agora, quem tem a regra básica, o respeito, vai se tornar rei. Ao analisar os recentes episódios, confesso: faltarão reis e sobrarão muitos tronos.

 

Imagem: óleo sobre tela de Verônica Almeida Lapa/Acervo Museu de Imagens do Inconsciente

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