Uma história sobre amor e medo

Chegou e se sentou. Depois de um dia sem grandes emoções, acendeu um cigarro e, ainda com as luzes apagadas, fumou-o até o final. Tinha algumas cervejas no currículo da noite, assim como alguns olhares trocados com uma mulher que poderia lhe resultar em uma noite de entretenimento vazio. No entanto, ele reclinou. Procurava coisas mais reais que apenas uma noite de prazer. Pagou a conta e voltou para casa. Pensamentos mais urgentes o perturbavam.

Seu coração foi tomado por dúvidas sobre seus próximos passos. Quando tudo parecia se mostrar como certezas indissolúveis, várias dúvidas o atormentaram. Enquanto terminava seu cigarro, pensava. Tinha certeza de que essa noite seria complicada para pegar no sono. Mesmo que o corpo urrasse por descanso, seu cérebro não desligaria tão cedo. Essa seria mais uma daquelas noites.

Mesmo sem fome, abriu a geladeira e encontrou um pouco de refrigerante. Bebeu, na garrafa mesmo, enquanto procurava, no escuro, o interruptor. Com as luzes ligadas, se encostou na pia e puxou o celular de seu bolso. Algumas mensagens no whatsapp evidenciavam seu perfil social. Dois ou três vídeos de sacanagem vindos de um grupo dos caras do trabalho, uma mensagem de um amigo próximo e a mensagem que custou sua noite de sono.

“Estou com medo”, dizia.

Ela estava com medo. Estava registrado, em letras eletrônicas de um serviço de mensagens instantâneas. Sua cabeça explodiu com aqueles dizeres, visto que prometeu para si mesmo que tentaria fazer diferente de todas as outras vezes. Com ela, estava decidido a não usar máscaras. Tinha optado por tentar ser ele mesmo, independentemente do alto preço que teria que pagar, já que estaria exposto 100% do tempo, sendo alvo de julgamentos a curto, médio e longo prazo.

Tudo que ele queria era um pouco de paz. Procurava alguém para envelhecer e constituir família. Queria alguém que soubesse cozinhar batatas e gostasse de coisas simples, como séries da HBO e comédias do Adam Sandler. Nada de muito exigente, já que ele também não era lá essas coisas. Tinha uma cacetada de defeitos e imperfeições e já se considerava velho demais para mudar. Hábitos são hábitos, e, quanto mais idade se tem, mais eles se tornam permanentes.

Porém, ela estava com medo.

Pensou na possibilidade de abrir o jogo, mas descobriu que estava despido de máscaras e mentiras, e que já tinha confidenciado todas as suas preocupações dias antes. Pensou em agradecer pelo carinho compartilhado nas noites anteriores e seguir em frente, mas o coração já batia muito mais forte quando seus pensamentos eram transportados para o lado dela. Não tinha nada a fazer, já que não existiam mentiras para se escorar e muito menos conseguiria controlar seu próprio coração. Mas ela estava com medo. Independente de seus esforços, ela ainda estava com medo.

Nem viu quando adormeceu e acordou atrasado no dia seguinte. Sem tomar banho, levantou e correu para o trabalho. Mal barbeado, se limitou a responder e-mails e atender ligações até que o expediente acabasse. Passou no mercado e comprou algo para comer, enquanto era perturbado pelos incessantes pensamentos da noite anterior. Em casa, novamente, acendeu as luzes tão logo entrou. Preparou um jantar rápido e se sentou para ver o noticiário. Sem respostas fáceis, pegou seu celular e mandou a única mensagem que aquele momento permitia enviar.

“Eu também”, escreveu.
“Eu também estou com medo”.

 

Creditos da imagem: http://www.shutterstock.com/

Um comentário para “Uma história sobre amor e medo”

  1. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    O medo nos consome, nos ilude, nos faz menores, nos torna inferiores, é carrasco, é mentor. Mas o medo também nos impulsiona, nos faz maiores, nos faz mentores, nos empurra para o abismo e nos faz voar. Eis que ele chama a sua amada, a Coragem! Sim, tenha medo de tudo, de todos, tenha até medo de si (olhe só o impropério!), mas jamais tema o improvável, pois o improvável é a nossa existência. Coragem e medo, o equilíbrio da vida. Clap, clap, clap, só posso aplaudir mais um texto incrível, Guilherme! Parabéns!

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