Uma volta em jornais de outono

 

Sabe-se muito por acaso a situação em que ele desembaraçou suas ideias com o início da chuva de outono. Fechou as janelas da sala com pressa para não molhar o sofá preto e de couro. Em cima da mesa de alumínio azul-claro, a televisão, que se esforçava para transmitir pequenos comerciais eleitorais de um homem barbudo e outro mais jovem de cabelos ensebados, candidatos à Presidência daquele ano. A vidraça do quarto media mais de três metros. Pouco tempo depois de se sentar no sofá e esticar o pescoço para ver as gotas que limparam a janela da sala, apertou os passos na direção do quarto e a cama de madeira escura e cabeceira de baú ficaram úmidas. No jornal do último domingo de abril de mil novecentos e oitenta e nove, aberto no piso de taco, em páginas do caderno de cultura, a foto de Freddie Hubbard com o anúncio da turnê de junho, a chuva desmantelou seu rosto e soltou uma tinta espessa.

 

Ajeitou-se no sofá e as gotas fortes na janela deixaram o volume da televisão inaudível. O anúncio publicitário mostrou o opala comodoro, com ar-condicionado e engrenagens rápidas. Lembrou-se de seu pai e de quando era criança. Ele sempre carregava alguma pequena e metálica peça no bolso do jaleco. E, aos fins de semana, abria a palma da mão para mostrar a novidade para Roberto.

 

― Robertinho, está vendo aquele opala na esquina?

― O que tem ele, pai?

― Quer saber por que ele é o mais rápido?

― Sim! Ele faz aquele vrummm.

― Olhe isso.

― É brilhante e redondo, tem dentes de metal também.

― É essa pecinha que faz aquele motor girar e correr veloz.

― Pai, você que faz o carro ficar bom, não é?

― Faço ficar mais barulhento.

 

A mãe de Roberto adorava aquele sofá preto. Rebeca se casou com o metalúrgico Leonel uma semana antes de completar dezoito anos e, nas tardes, uma hora antes de Leonel voltar, descansava suas costas no couro preto para abrir uma pequena bolsa vermelha, retirava um pequeno e redondo espelho, exibia os lábios espessos e pintava-os. Seus olhos eram redondos com cílios grandes, os vestidos, coloridos e de alça. Recebia muitos olhares masculinos nas idas a supermercados e feiras, enquanto contava moedas e exigia menores preços nas lojas de sapatos no centro. Leonel usava cabelos longos quase nos ombros, bigodes e sem barba; calça boca de sino e sapatos de ponta fina. O usual jaleco azul-marinho com a logomarca da metalúrgica, seu rosto largamente mudava quando Roberto corria até o portão para abraçar e perguntar sobre a velocidade dos carros. O jantar servido cedo, às seis da tarde, na mesa com toalha de renda branca. A vitrola girou um disco de Bob Berg estridente e Roberto girou os pés no chão segurando as pecinhas redondas de metal.

 

Moravam naquela casa desde que se casaram, o dinheiro gasto na reforma Leonel pagou com muitas horas extras, madrugadas trabalhadas ao choro fino de Rebeca com saudade. Cinco cômodos térreos no bairro de Santo Amaro, próximo à fábrica. Década de setenta e os gritos na rua pela taça erguida pela seleção canarinha. Rivelino perna esquerda e passes incríveis, mais do que Pelé, o maior do mundo para Leonel. Gastou muita saliva em conversas com os colegas do trabalho, algumas vezes quase trocou socos com um torcedor do Santos exaltado, se não fosse os outros separarem a discussão. Seu nariz ficava vermelho quando nervoso, mas a principal atração para Leonel eram os carros coloridos da fórmula 1. Roberto apoiava a cabeça nos joelhos imitando os ruídos das máquinas com a boca, a cerveja gelada apoiada no braço do sofá. Mil novecentos e setenta e dois foi o ano do brasileiro narigudo bom de braço, apelidado por Leonel. Cinco vitórias a bordo de uma Lotus 72 preta.

 

― Parece um opala, pai! – gritou Roberto, de braços pequenos e magros sobre a cabeça. Os dois pularam na sala e Rebeca de pé sorriu docemente.

 

Os anos se passaram com a imagem do jornalista que Leonel não conseguia pronunciar o sobrenome corretamente, enforcado por uma corda. Dias consumidos por situações de que ele falava muito pouco e a metalúrgica começou a demitir seus colegas aos montes. O medo nos olhos de Rebeca nas manhãs enquanto preparava o café, conselhos de cuidado e beijos demorados. As mãos dos dois soltando lentamente ao pé do portão verde, no pequeno quintal. A greve tumultuou a entrada da fábrica, os jornais não clarearam o medo de Rebeca. Era um dos últimos dias de outubro, Roberto sentado na soleira da porta olhando os dois se beijarem e as mãos desprenderem lentamente. Foi o dia em que Leonel não voltou para casa. Três homens altos, vestindo jaleco azul-marinho, bateram palmas fortemente e Rebeca correu em chinelos para a fábrica.

 

Aquela década terminou com muita gente em volta do corpo de Leonel, apenas um tiro em suas costas em meio a gritos na multidão. Rebeca mudou sua face alegre no bairro de Santo Amaro e Roberto nunca imaginou na pouca idade tantos amigos em volta de seu pai. Jornalistas e fotos, sua mãe muda com um véu negro na cabeça, as mulheres abraçavam em consolo. E durou todo o dia no final de agosto. Voltaram para a casa de portão verde e o absurdo silêncio tomou conta da rotina dos dois. No rosto de Rebeca, antes dos quarenta anos de idade, criaram-se rugas como se as estações do calendário andassem só para ela. Receberam visitas e ajuda com notas de muitas pessoas no primeiro ano depois da arma disparada. Mas a situação ruim com a doença de Rebeca, internada no hospital do centro e piorando a cada dia de infecção intestinal, causada principalmente pela falta de apetite. Não frequentou o supermercado e a feira de sexta da rua principal. O outono e os ventos indecifráveis de temperatura aconteceram com Roberto sozinho naquela casa que não brilhou. Rebeca não resistiu e no ano seguinte, a setenta e nove, beijou a testa de Roberto, era o último dia de visita no hospital em palavras febris sem sentido, mas que ele guardou como despedida de uma vida.

 

Desfez-se das lembranças com a foto de Freddie Hubbard e o anúncio da turnê de junho, a chuva desmantelou seu rosto e soltou uma tinta espessa. Os pingos na janela da sala secaram e Roberto tentou sem eficiência limpar a foto do jornal que levaria consigo. Manchou a palma da mão e sentiu o sol clarear lentamente na tarde de abril. Foi na praça da República que um sorriso apareceu em cabelos femininos e olhares claros, verdes e sentidos. Tateou as pequenas peças redondas e brilhantes da estante antes de sair. Desligou a televisão, que se esforçava para transmitir pequenos comerciais eleitorais de um homem barbudo e outro mais jovem de cabelos ensebados, candidatos à Presidência daquele ano. A turnê de junho de Hubbard. Ensaiou o convite e disse um sim a si somente com a cabeça. Ela aceitaria.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Torre, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

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